Feira da Livro chegando

Pois é, pessoal, esse blog sofre com a minha crônica falta de tempo e de organização. Mas ele resiste e cá estou eu de novo, ainda lutando contra a agenda, mas voltando para compartilhar com vocês uma dica quente.

Eu já disse aqui antes que sou fã incondicional do crítico literário Denis Scheck e do seu programa Druckfrish. Pois no domingo passado, o Druckfrisch esteve no Brasil, mais precisamente no Rio, e o Denis Scheck nos presenteou com mais um programa delicioso, subindo a um Cristo Redentor em céu nublado, como todo bom carioca o conhece, recomendando a leitura de Ernst Jünger, que também tinha algo a dizer sobre a cidade, entrevistando o tradutor Marcelo Backes e o autor Daniel Galera, cujo romance “Barba ensopada de sangue” foi lançado pela editora Suhrkamp com o título “Flut”.

Tudo isso antecipando a Feira do Livro em Frankfurt que abre suas portas na semana que vem e terá o Brasil como país convidado, como muitos aqui já estão cansados de saber. Tem Brasil para todo lado neste outubro na Alemanha. E eu fico contente que o Denis Scheck tenha dado a partida com um programa sem bossa-nova, sem sambinha, com uma praia bem urbana e uma trilha sonora idem. Não que eu não goste de samba, mas puxa, que bem fez ver um Brasil com menos clichês na TV alemã!

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A vida (do intérprete) como ela é

Voltando de um dia de interpretação na semana passada, aproveitei a viagem de trem para pensar em preto e branco, anotando tudo para compartilhar aqui com vocês.

Depois de meses sem fazer simultânea, foi difícil largar meu bloquinho amigo da consecutiva e tentar me concentrar em outros detalhes – controlar os meus ahns, não ouvir o coração bater mais forte quando perco alguma coisa e seguir em frente, lembrar que os números estão projetados na tela e que há um colega ao lado para me ajudar. No final do dia, já estava engrenando e me acostumando novamente, mas já sei que a próxima vez não será muito diferente, se não vierem outros serviços nas próximas semanas.

O dia correu bem. O grupo de ouvintes era pequeno e formado por gente simpática, o colega que me contratou para fazer dupla não podia ser melhor, e a jornada a dois, com pausas para cafés e almoço, foi bem razoável. Mas cada experiência é mais uma lição, e desta vez fiquei pensando naquilo que aprendemos nos cursos e na realidade que encontramos depois no exercício da nossa profissão.

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)


A gente estuda e se prepara para uma situação padrão: evento, cabines montadas, palestrantes com microfone lá na frente e transparências projetadas. No melhor dos mundos, você recebeu algum material informativo antes e teve tempo suficiente para se preparar. No paraíso, talvez até algum palestrante tenha enviado sua apresentação antes. Mas todos nós sabemos que a realidade, muitas vezes, é outra. E é preciso estar preparado para isso também.

O evento da vez era internacional e dirigido a um público principalmente acadêmico. Foi definido que seria realizado somente em inglês, sem intérpretes. O grupo para o qual interpretamos estava em viagem pela Alemanha, fazendo visitas técnicas, e participou apenas do primeiro dia do evento. Economicamente, não era viável instalar cabines apenas por um dia, para um grupo de não mais que dez pessoas. A solução foi usar equipamento portátil.

Para completar o quadro, o local do evento era um estádio de basquete. O palco das seções plenárias foi montado na quadra, com o público (e nós, intérpretes) sentado na arquibancada, tudo escuro como numa sala de cinema e uns holofotes de uma luz azul penetrante direcionados para a plateia. Acústica zero – precisa dizer? – acompanhada daquele inglês língua franca(mente-faça-me-o-favor!) que faz você pensar que aquela prova de compreensão auditiva do CPE, com um escocês doido falando, era de tirar de letra. As salas das comunicações, pelo menos, eram bem iluminadas, mas aí o problema era enxergar lá longe as transparências cheias de texto, gráficos e números minúsculos, e falar bem baixinho, para não atrapalhar o resto do público. Bastava você se empolgar só um pouquinho com a entonação e logo algumas caras feias se viravam para trás e lançavam aquele olhar fulminante na sua direção.

Todas essas dificuldades são mencionadas nos nossos cursos – ou, pelo menos, deveriam ser. Pessoalmente, acho até que aprendi mais, durante o curso, com os áudios de má qualidade, pois eles nos preparam melhor para essas tempestades que vêm pela frente. Mas uma coisa é você lidar com isso enquanto está pagando para aprender, outra é encarar a possibilidade de erro quando alguém está pagando pelo seu desempenho.

Nos próximos posts ainda vou comentar mais alguns detalhes que, pelo menos para mim, são importantes. Mas agora, me contem: por quais agruras vocês já passaram nessa vida de intérprete?

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Bons motivos para voltar

Fiquei longe do blog por mais tempo do que pretendia, mas a vontade de compartilhar duas coisas com vocês hoje me fez voltar.

Ontem fui a Frankfurt, assistir a mais uma palestra do meu amigo Felipe Tadeu, jornalista que vem realizando uma série maravilhosa de palestras sobre música brasileira no Consulado Geral do Brasil, interpretadas para o alemão sempre pelo ótimo Michael Kegler. Quem estiver na Alemanha lendo isso, fique de olho no site do consulado e do Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, que organizam o evento, para não perder a próxima. O trabalho que o Felipe vem fazendo, divulgando o que há de melhor na nossa música, é admirável.

Vejam só a foto linda que escolheram para o cartaz.

Vejam só a foto linda que escolheram para o cartaz.

Mas o que eu queria era ainda falar de como foi interessante assistir também à atuação do Michael como intérprete. Além de já terem trabalhado juntos em vários projetos, ele e o Felipe são amigos. Então havia ali uma perfeita sintonia entre os dois, o que gerava um clima de bate-papo entre amigos em toda a sala. O Felipe é um cara cheio de histórias para contar, o que é ótimo, mas também um desafio para o intérprete. Ele começa a falar de um assunto, entremeia a coisa com alguma anedota, lembra de mais outra história para contar e tece mais uns dois ou três comentários, antes de fechar a linha de pensamento com chave de ouro. Tudo isso vem recheado de datas, títulos de álbuns, nomes de bandas e de músicos. E, como vocês já devem estar imaginando, os períodos de fala são longos. O intérprete tem que estar muito concentrado, não se perder nas anotações, acompanhar o ritmo da dança e manter o bom humor característico de tudo o que o Felipe diz.

Eu curto muito acompanhar o trabalho de colegas nessas oportunidades, não para criticá-los, mas para aprender com eles. Para mim, o prazer ontem foi dobrado. Tive a palestra e uma aula.

Outro excelente motivo para voltar e escrever esse post é o novo bate-papo no site do Tradcast: o primeiro podcast brasileiro de tradução. Foi ao ar ontem uma entrevista com o tradutor Renato Motta, uma pessoa que eu admiro demais. O Renato é uma dessas pessoas que a gente gosta de cara, sempre sorrindo, fala baixinho e é capaz de te dar profundas lições de vida com apenas quatro ou cinco palavras, mas sem nenhum tom professoral. É um tradutor e tanto, sempre disposto a compartilhar suas experiências, e é justamente isso que ele faz no podcast. É também uma aula, mas você vai ouvir com a impressão de estar com ele e o resto do pessoal no bar da esquina. O resto do pessoal é a turma que vem fazendo esse projeto fantástico que é o Tradcast: a Érika Lessa, a Claudia Mello Belhassof, o Marcelo Neves e o Roney Belhassof. Agora, dêem uma olhada nos sorrisos aí embaixo, passem lá, clicando aqui, e vejam se eu exagerei na descrição do clima.

Claudia, Marcelo, Érika (virtual), Roney e seu convidado, Renato.

Claudia, Marcelo, Érika (virtual), Roney e seu convidado, Renato.

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Literatura que não assusta

Tem gente que corre ao ouvir “crítico literário”. Mas existe um programa na Alemanha que prova que ainda há esperança para quem simplesmente gosta de ler e procura informação e conteúdo sem ter que aturar a vaidade dos outros: Druckfrisch.

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De longe, o melhor programa sobre literatura que conheço e certamente o único que não tem nada de pretensioso. Denis Scheck, além de excelente crítico e apresentador bem humorado, é um ótimo tradutor. E tudo no programa é bom, desde a edição até a trilha sonora, que muda sempre. Já descobri bandas ótimas enquanto assistia. O programa de hoje tem uma entrevista curta e deliciosa com Julian Barnes, infelizmente ainda não disponível em vídeo. Mas vale a pena ficar de olho no arquivo de vídeos e podcasts.

É em alemão, mas se isso não assusta você, não perca!

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Já acabou?

Eu não sei vocês, mas pra mim esse ano passou quase que num piscar de olhos.

Estava aqui vendo minhas anotações de ideias, planos, mudanças, coisas que pretendia ter realizado durante o ano e fui adiando por falta tempo. A minha sensação é de que eu mal comecei, mas a verdade é que faltam poucos dias para o ano acabar. Não foram 12 semanas, mas 12 meses que já se passaram desde que essas ideias foram para o papel – e algumas de lá não saíram.

Acho que todo profissional tem essa síndrome-de-fim-de-ano. Além de fazer as contas e traduzir em números aquilo que a gente vinha intuindo durante a correria do trabalho (Foi bom mesmo? Podia ter sido melhor, ou pior? Sobrou alguma coisa? E o que vai dar pra fazer com isso?), é  o momento em que a gente tenta parar pra tomar fôlego e ver se está indo na direção certa, antes que a próxima rodada comece.

Esse ano, acho que minha maior falha foi não ter controlado melhor minha agenda. Sim, eu confesso que sempre me dei mal com calendários, tenho uma péssima capacidade de avaliar o tempo e as agendas acabam se tornando belos cadernos de notas na minha mesa, ou na minha bolsa. Junte a isso um ano cheio de viagens, de idas e vindas, de novos projetos, novos horários e mudanças de clientes, e você talvez entenda a razão da minha surpresa com a chegada repentina do Natal.

O ano não foi mal e não faltou trabalho, pelo contrário. Por isso mesmo, e por não ter me preparado melhor pra isso, passei a maior parte do tempo correndo atrás, com várias laranjas no ar e outras passando pelas mãos rapidamente. Acho que umas duas caíram no chão, sem grandes estragos. Mas se eu quiser tirar aquelas ideias do papel (que são muito boas pra desperdiçar) e juntá-las às minhas laranjas, vou ter que me organizar melhor, definir melhor meus prazos, fazer da minha agenda a minha melhor amiga e confidente. E talvez, quem sabe, arrumar um assistente de malabarista, alguém que, pelo menos, me jogue as laranjas na hora certa e segure a tempo aquelas que estão a caminho do chão.

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Os riscos da vida de intérprete

Um colega me enviou uma notícia que gostaria de compartilhar com vocês, depois de um longo tempo afastada do blog.

Em Colônia, corre atualmente um processo que ficou conhecido como “Mord ohne Leiche”, ou “Homicídio sem corpo”. Três réus são acusados do assassinato de uma mulher filipina, cujo corpo ainda não foi encontrado. O processo estava em vias de ser concluído, com a condenação dos réus, quando o tribunal tomou conhecimento de que a intérprete havia participado de passeatas pedindo justiça para a desaparecida, distribuído panfletos na entrada do tribunal, é membro de uma associação em defesa das mulheres filipinas e tinha contato com algumas das testemunhas do processo. O advogado de defesa entrou com petição para que a intérprete seja dispensada por conflito de interesses, pedindo que todas as testemunhas sejam ouvidas novamente, já que há suspeita de que não tenha atuado com imparcialidade. A juíza aprovou a petição e determinou que as testemunhas sejam ouvidas novamente, o que exigirá cerca de nove dias adicionais para o processo. A intérprete corre o risco de ter que arcar com parte das custas processuais, que podem chegar a 50 mil euros.

O caso ilustra bem a responsabilidade do trabalho do intérprete em tribunais, que vai muito além do mero comportamento profissional na sala de audiências.

No caso em questão, há alguns detalhes que chamam a atenção. O tribunal e a promotoria não se informaram antecipadamente sobre um possível envolvimento emocional da intérprete com o caso. A intérprete deveria ter chamado a atenção do tribunal para o fato de ser ativa na defesa dos direitos de mulheres filipinas. Em vez disso, ela se mostrou surpresa com a reação do tribunal e afirma que vive numa “sociedade livre” e tem o direito de expressar sua opinião, argumentando que agiu corretamente durante os depoimentos, interpretando fielmente todos os testemunhos prestados.

Não sei o que vocês acham, mas a história me fez lembrar de uma decisão que tomei há vários anos, quando servia de intérprete para hospitais em Stuttgart. Era um trabalho que me dava pouco retorno financeiro, mas que fazia por achar que estava prestando uma ajuda às muitas famílias que não conseguiam se comunicar, talvez justamente nos momentos mais difíceis de suas vidas, com um ente querido doente. Era um trabalho honroso, mas difícil e que me deixava sempre um pouco abalada, pelos dramas presenciados. Um dia, depois de interpretar em um caso particularmente triste, do qual saí aos prantos (eram eu, os médicos, a família, todos chorando), resolvi não continuar e passei a recusar esses serviços. Cheguei à conclusão de que não estaria em condições de ajudar ninguém, pois não conseguia manter a distância necessária para isso. Acredito que se um dia tivesse que ser intérprete no caso de alguma brasileira assassinada, envolvendo pessoas que eu talvez conheça, estaria numa situação semelhante e preferiria recusar e me envolver de outra forma.

E vocês, o que acham?

Se quiserem ler as notícias sobre o caso (em alemão), cliquem aqui ou aqui.

 

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Saem as vírgulas, entram os travessões e dois pontos

Vinte e tantos anos atrás, aprender alemão e decifrar os textos de jornais e revistas, como Der Spiegel, foi um desafio. Recém chegada na Alemanha, com poucos anos de experiência como redatora na bagagem, eu tinha aprendido que um bom texto jornalístico deve ser claro e enxuto. Mas a língua de Goethe parecia resistir heroicamente a essa ideia moderna. Eu abria o jornal e me deparava com um alinhavado de orações subordinadas e frases que só terminavam ao fim de um parágrafo com mais de dez linhas. Uma loucura, mas a gente se acostuma com tudo nessa vida.

Depois de tanto tempo, as coisas mudaram. A Alemanha mudou e a língua, é claro, também. Primeiro veio uma nova geração de redatores que já não consideravam frases sem vírgula uma heresia. Depois vieram a internet, os celulares com torpedos, e parece que todo mundo resolveu aderir à regra do quanto-mais-curto-e-menos-vírgula-melhor.

Mas havia um problema. Como evitar subordinadas sem deixar de fora informações importantes, numa língua em que o verbo quase sempre tem que vir lá no final da frase? Foi aí que que começaram a abusar dos dois pontos e do travessão.

A quantidade de dois pontos e travessões que um tradutor encontra em textos alemães de marketing, por exemplo, é um espanto! Aquele parágrafo de dez linhas, que antes era uma frase só, hoje pode ter várias, todas cortadas por uns quatro travessões e mais uns tantos dois pontos (acabei de ver um assim, por isso esse post).

Talvez os alemães não vejam outra alternativa, na sua luta contra as frases quilométricas. Eu acho que há, mas a língua é deles, eles mandam. A boa notícia é que a nossa língua não precisa disso. Não tenho nada contra os dois pontos. Mas taurino não gosta de gastar à toa e, acreditem, muitas vezes um ponto brasileiro substitui perfeitamente dois dos alemães. A boa e velha vírgula também nem sempre é sinal de frase complicada, pelo menos em português. E travessões são ótimos, mas, usados em excesso, perdem o efeito. E enquanto isso, os alemães vão desaprendendo a usar as vírgulas, que antes reinavam absolutas no pedaço.

Conclusão (agora sim, lá vêm eles): o texto que você vai traduzir pode estar todo enfeitado com dois pontos e travessões, mas o seu não precisa disso para ficar bom e ser fiel ao original.

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Freiras, reservas e nosso condicionamento cultural

Situação comum durante uma viagem de trem na Alemanha: alguns lugares reservados, outros livres, os passageiros vão entrando e procurando onde sentar. Atrás de mim, sentam-se uma jovem, com lugar reservado, e uma freira de cabelos brancos, sem reserva. O trem parte.

Na primeira parada, entra uma mulher alemã, bem vestida, entre 35 e 40 anos. Vem com a passagem na mão, para na fileira de trás e diz que tem uma reserva. A jovem diz que também tem e pergunta pelo número do vagão. A mulher confere, é o mesmo e o assento reservado é onde está a freira. A jovem ainda tenta sugerir que a mulher poderia sentar ao lado, há muitos lugares livres, mas a freira já levantou, cedeu o lugar e pegou outro assento.

Na estação seguinte, entra outra mulher, passagem na mão, procurando o lugar. Também bem vestida, com aparência de estrangeira, talvez indonésia. Ela para, olha para a passagem, encontra seu lugar e vê nele a freira. Hesita, olha em torno, vê um assento livre ao seu lado, pergunta à moça da janela se está livre e senta-se ali.

Quando vi os olhos da mulher com cara de estrangeira encontrarem a freira, tive quase certeza de que ela iria procurar outro lugar. Talvez eu esteja errada e a mulher nem fosse estrangeira. E não deixa de ser preconceito da minha parte, assumir que 1) ela era de origem estrangeira e 2) reagiria de forma diferente de uma alemã. Também não me interessa julgar aqui se suas reações foram certas ou erradas, até porque acho que quem fez sua reserva tem todo o direito de se sentar no lugar que lhe deram, não importa se foi o Papa quem chegou primeiro.

O que me chamou a atenção foi apenas o comportamento diferente das duas. Fiquei matutando, lembrando de situações parecidas que já vi por aí e de coisas que andei estudando. Se estou certa e as duas eram mesmo alemã e (digamos) indonésia, acredito que alguns aspectos culturais explicam as reações diferentes.

Primeiro: que efeito exercem uma roupa religiosa e cabelos brancos em cada um de nós? Tive a impressão de que, para a alemã, o fato de a pessoa sentada no seu lugar ser uma freira e ter cabelos brancos não fez diferença. Em nenhum momento ela titubeou, nem pediu desculpas, ou disse um “lamento o incômodo”. Estava meramente exercendo seu direito e por que haveria de se sentir constrangida por isso?

A outra, ao contrário, ficou um momento imobilizada, baixou o olhar e buscou uma alternativa sem nem chegar perto da freira. Não sei se teria feito o mesmo se a pessoa que encontrou no seu assento não simbolizasse religião e idade, com suas roupas e seus cabelos brancos — estou quase certa que não.

Esses dois comportamentos diferentes podem ser, é claro, resultado da personalidade de cada uma. Mas me pergunto se não há também uma carga cultural por trás disso. Na Alemanha, ninguém se sente constrangido em pedir algo que é seu de direito, mesmo que isso signifique incomodar alguém. Aliás, o fato de que a outra pessoa terá de procurar outro lugar não é visto como incômodo, é normal e a outra provavelmente também levantará sem reclamar, pois já contava com essa possibilidade. Alguns estudos que definem dimensões culturais, como os de Gerd Hofstede, colocam a Alemanha com um índice de 67 no grupo de culturas mais individualistas (núcleos familiares pequenos, dizer abertamente o que se pensa é certo, usa-se mais o “eu”, as regras e contratos prevalecem). Nesse países, se você tem uma reserva, não há motivo algum para se sentar em outro lugar e provavelmente, mesmo que o vagão esteja vazio e você não goste do assento que lhe deram, vai ficar ali quietinha, esperando a próxima estação chegar, pois pode entrar alguém para controlar e pega mal.

Se a outra passageira era mesmo da Indonésia, vale lembrar que esse país ficou no fim da lista de Hofstede, com um índice de individualismo de 14, o que o coloca entre as culturas do coletivismo – onde, aliás, se encontrava também o Brasil, com um índice de 38, quando os estudos foram realizados, nos anos 70/80. Nessas culturas, prevalecem as grandes famílias, usa-se mais o “nós”, busca-se a harmonia nos grupos e as regras e contratos são menos importantes do que as pessoas com estamos em contato. Vendo por esse prisma, é muito mais fácil procurar outro lugar, com tantos sobrando, do que tirar a pobrezinha da freira do seu conforto. E se vier algum funcionário controlar – esses chatos que não têm o que fazer – aí sim você pode mostrar sua reserva e seu lugar está garantido.

Eu acredito que esses índices mudem ao longo do tempo, nossa história e o contato entre diferentes culturas geram mudanças.

Pensei no que eu teria feito e descobri que já me tornei um híbrido dessas duas culturas com as quais convivo. Se entrasse no trem e visse a freira no meu lugar, teria procurado outro assento, já que havia tantos outros livres. Mas se fosse no avião, acho que pediria educadamente que a santa mulher fosse sentar noutro lugar. Tenho uma superstição irracional com assentos de avião e não troco de jeito nenhum com ninguém. No máximo, com o marido. Já me olharam feio, muito feio por causa disso. Mas nessas horas eu faço que nem a filha de uma amiga minha, que cresceu bilíngue e quando a vó brasileira ralhava com ela, respondia num francês chiquérrimo nos seus 4 aninhos: “Je ne comprends pas, vovó”. Pois é, eu também não.

P.S. Faltou falar do efeito das roupas religiosas, mas esse artigo já está tão longo, vai ficar para outra vez.

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Oficina de Tradução no Festival de Poesia de Berlim

Começou hoje o Festival de Poesia de Berlim, se não me engano é sua 13a edição. Mais uma vez, não vou acompanhar de perto, mas o festival tem uma Oficina de Tradução que ficou famosa pela sua proposta. Ela reúne tradutores de diversas nacionalidades que trabalham em pares, com a ajuda de tradutores e intérpretes, para elaborar versões de seus poemas. Ou seja, são poetas recriando poesias de outros poetas e os tradutores lá como parte do processo criativo. Como eu gostaria de fazer algo parecido!

Esse ano há seis poetas brasileiros participando da oficina e da programação, que tem desde mesas-redondas até apresentações gratuitas em praças e parques da cidade. Vale a pena visitar o site aqui, nem que seja só para dar água na boca. E para quem tem medo do alemão (acreditem, é possível fazer mais do que filosofar em alemão, poesia também rola), o site também está disponível em inglês.

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Não é só no Brasil

Sabem aqueles e-mails que a gente recebe de vez em quando, com fotografias de placas e cartazes absurdos encontrados Brasil afora? Pois é, a Alemanha também tem seus exemplares. E a foto aí embaixo é um deles.

A propaganda é a alma do negócio.

Isso foi ainda durante a feira Cebit, em Hannover. O cara estava vendendo aqueles pãezinhos enroscados típicos da Alemanha, Brezel, e como bom comerciante colocou lá sua propaganda: Warme Brezel – Brezel quentinhos! A uma temperatura abaixo de zero, quem não sentia vontade de parar e comprar os tais pãezinhos, nem que fosse para aquecer as mãos geladas? Mas, péraí. Zero grau, o cara ali parado com uma montanha de Brezels ao ar livre, quentes? Naquela geladeira? Oi?

Tiramos a foto e o cara, gelado e curioso, perguntou se a gente tinha gostado da barraca. Explicamos que a atração foi a placa. Quando saímos da feira e passamos por ali novamente, o cara ainda estava lá, firme e forte com os seus Brezels. Mas a placa tinha sumido. Vai ver ele ficou com medo de que algum brasileiro maluco resolvesse processá-lo por propaganda enganosa. Vida de vendedor de rua na Alemanha é muito mais complicada, minha gente!

P.S. Fiquei espantada com os Brezels de Hannover, enormes e totalmente diferentes dos que se encontram em Stuttgart. Munique também tem os seus, mais fininhos e crocantes. Mas isso eu explico outra hora.

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