Arquivo do mês: novembro 2009

Festival Film erzählt Musik

Vou usar esse espaço para fazer propaganda de um projeto bonito iniciado por amigos e que espero que dê muito certo.

Começa no próximo domingo o primeiro festival de cinema e música brasileira em Stuttgart, o Film erzählt Musik. Em menos de seis meses, os organizadores conseguiram montar uma programação de fazer inveja a muitos eventos já consagrados, ganharam o apoio da prefeitura e de patrocinadores importantes para levar à frente um projeto de catacterísticas inéditas na Alemanha. Como o nome já diz, o objetivo é apresentar filmes, na maioria documentários, que mostrem a variedade da música brasileira. Mas a atração especial é a série de shows que complementa o programa. Depois de assistir ao show de Naná Vasconcelos, por exemplo, o público poderá ver o filme Diário de Naná no dia seguinte. Ou ouvir de perto a música fantástica de Chico Chagas depois de ter sido apresentado ao acordeão brasileiro na véspera, no documentário O Milagre de Santa Luzia.

Na minha lista pessoal, já está marcado o Palavra Encantada, que ainda não vi.

A festa de encerramento será o show de Simoninha e Max de Castro na sexta-feira 13 — número de sorte, ao contrário do que muitos pensam. O filme sobre seu pai —  Simonal, Ninguém sabe o duro que dei — estará na mostra um dia antes.

Estou torcendo para que o festival seja um sucesso. Além da qualidade da programação, o carinho e a dedicação das pessoas envolvidas no projeto merecem uma recompensa.

Uma visita ao site também vale a pena, mesmo para quem não entende alemão. Ele ficou lindo.

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Beijos

Vou confessar: nunca gostei muito que me chamassem de querida. Sempre me pareceu um palavra desperdiçada, na maioria das vezes dita sem muita convicção. E também nunca fui de mandar beijos para qualquer um, prefiro terminar minhas mensagens com um honesto “abraço”.

Talvez por isso tenha me adaptado bem àquilo que muitos brasileiros chamam de “o jeito frio” dos alemães, mas que eu prefiro chamar de pragmatismo. No trabalho, acho muito mais prático receber um telefonema e a pessoa já ir logo dizendo: bom dia, sou fulano de tal e gostaria de saber isso assim e assado. Principalmente naqueles dias em que o prazo é curto e você já nem sabe para onde correr, não há nada pior do que atender o telefone e a conversa começar assim:

– Escritório de tradução, bom dia.

­– Bom dia, com quem eu falo?

– Bete.

– Bete, querida! Eu estou com um probleminha, será que você pode me ajudar?

E aí vem primeiro a história da vida de alguém que eu nem conheço e que, na verdade, precisa apenas da tradução da carteira de motorista. Podia ser resolvido em cinco minutos, mas vira quase uma conversa de comadres e termina com “beijos e obrigada, viu, querida?”.

O que não significa que eu prefira grosserias e patadas, como as que um cliente uma vez tentou me dar por achar que meu preço por linha era absurdo. O homem soltou uma carreira de insultos e palavrões, que me deixou parva por alguns segundos – afinal, um palavrão bem dito em alemão não é bolinho. Mas eu até que reagi bem, levantei com calma, abri a porta da sala e pedi que ele se retirasse e procurasse alguém que cobrasse menos e não se importasse com o palavreado dele. Quase o chamei de querido, mas achei que ele poderia engrossar de vez e não disse nada.

Mas o que eu queria mesmo dizer sobre beijos e abraços na Alemanha é que essas coisas mudaram muito nos últimos anos. Quando cheguei aqui, fora a avó do meu marido e ele próprio, quase ninguém me abraçava e beijava (aliás, é interessante notar que justamente uma pessoa da antiga geração era mais generosa com carinhos, apesar de toda a disciplina e rigor da época em que foi educada). Lembro que quando conheci o casal de melhores amigos do meu marido e os cumprimentei com beijinhos e abraços, os dois ficaram quase que petrificados, sem saber o que fazer. Com o tempo se acostumaram e até exageravam no aperto dos abraços.

Hoje, porém, todo mundo se beija e se abraça neste país. Principalmente os mais jovens. Parece que as coisas tomaram o rumo oposto e as demonstrações de afeto em público passaram a ser a ordem do dia.

Faz uns dias, estava conversando sobre isso com uma amiga alemã que morou vários anos no Brasil e conhece bem a nossa cultura. Ela contou que tinha um namorado brasileiro, muito antes de conhecer o Brasil. Um dia, levou-o para conhecer a cidadezinha onde tinha nascido e seus amigos de infância e juventude. Passaram uma noite em um barzinho, bebendo, conversando, programa típico de universitários. Quando saíram de lá, ele estava meio chateado, achando que as pessoas não tinham sido muito atenciosas. Ela estranhou, tinha achado todos normais, e ele só disse: “Espere até você ir ao Brasil, aí você vai entender”. Pois foi o que aconteceu. Depois de passar um tempo no Brasil e ter a experiência do contato caloroso com as pessoas, ela mesma estranhava alguns costumes na Alemanha.

Enfim, continuo não gostando que me chamem de querida. Mas é muito bom constatar que um abraço bem dado deixou de ser exceção por aqui.

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