Beijos

Vou confessar: nunca gostei muito que me chamassem de querida. Sempre me pareceu um palavra desperdiçada, na maioria das vezes dita sem muita convicção. E também nunca fui de mandar beijos para qualquer um, prefiro terminar minhas mensagens com um honesto “abraço”.

Talvez por isso tenha me adaptado bem àquilo que muitos brasileiros chamam de “o jeito frio” dos alemães, mas que eu prefiro chamar de pragmatismo. No trabalho, acho muito mais prático receber um telefonema e a pessoa já ir logo dizendo: bom dia, sou fulano de tal e gostaria de saber isso assim e assado. Principalmente naqueles dias em que o prazo é curto e você já nem sabe para onde correr, não há nada pior do que atender o telefone e a conversa começar assim:

– Escritório de tradução, bom dia.

­– Bom dia, com quem eu falo?

– Bete.

– Bete, querida! Eu estou com um probleminha, será que você pode me ajudar?

E aí vem primeiro a história da vida de alguém que eu nem conheço e que, na verdade, precisa apenas da tradução da carteira de motorista. Podia ser resolvido em cinco minutos, mas vira quase uma conversa de comadres e termina com “beijos e obrigada, viu, querida?”.

O que não significa que eu prefira grosserias e patadas, como as que um cliente uma vez tentou me dar por achar que meu preço por linha era absurdo. O homem soltou uma carreira de insultos e palavrões, que me deixou parva por alguns segundos – afinal, um palavrão bem dito em alemão não é bolinho. Mas eu até que reagi bem, levantei com calma, abri a porta da sala e pedi que ele se retirasse e procurasse alguém que cobrasse menos e não se importasse com o palavreado dele. Quase o chamei de querido, mas achei que ele poderia engrossar de vez e não disse nada.

Mas o que eu queria mesmo dizer sobre beijos e abraços na Alemanha é que essas coisas mudaram muito nos últimos anos. Quando cheguei aqui, fora a avó do meu marido e ele próprio, quase ninguém me abraçava e beijava (aliás, é interessante notar que justamente uma pessoa da antiga geração era mais generosa com carinhos, apesar de toda a disciplina e rigor da época em que foi educada). Lembro que quando conheci o casal de melhores amigos do meu marido e os cumprimentei com beijinhos e abraços, os dois ficaram quase que petrificados, sem saber o que fazer. Com o tempo se acostumaram e até exageravam no aperto dos abraços.

Hoje, porém, todo mundo se beija e se abraça neste país. Principalmente os mais jovens. Parece que as coisas tomaram o rumo oposto e as demonstrações de afeto em público passaram a ser a ordem do dia.

Faz uns dias, estava conversando sobre isso com uma amiga alemã que morou vários anos no Brasil e conhece bem a nossa cultura. Ela contou que tinha um namorado brasileiro, muito antes de conhecer o Brasil. Um dia, levou-o para conhecer a cidadezinha onde tinha nascido e seus amigos de infância e juventude. Passaram uma noite em um barzinho, bebendo, conversando, programa típico de universitários. Quando saíram de lá, ele estava meio chateado, achando que as pessoas não tinham sido muito atenciosas. Ela estranhou, tinha achado todos normais, e ele só disse: “Espere até você ir ao Brasil, aí você vai entender”. Pois foi o que aconteceu. Depois de passar um tempo no Brasil e ter a experiência do contato caloroso com as pessoas, ela mesma estranhava alguns costumes na Alemanha.

Enfim, continuo não gostando que me chamem de querida. Mas é muito bom constatar que um abraço bem dado deixou de ser exceção por aqui.

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4 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Hábitos

4 Respostas para “Beijos

  1. André

    Pensei que era só eu que achava estranha a excessiva familiaridade com que algumas agências tratam seus freelancers, mas evidentemente estava errado.
    Uma agência com a qual trabalho tinha uma PM que sempre começava toda ligação com uma (como você bem descreveu) “conversa de comadres”:
    “Oi, como foi o fim de semana? Passeou muito? Descansou?…”
    Eu com mil coisas para fazer, prazos superapertados e tendo que ouvir toda aquela ladainha.
    Sem falar que toda mensagem e telefonema acabava com “beijo”.
    Eiiii!!! Eu não quero beijos de gente que eu nem conheço, nunca vi, que são apenas colegas de trabalho e com as quais, se tivesse contato direto, eu talvez nem simpatizasse.
    Acho que essas pessoas se esquecem que é possível ser simpático sem ser íntimo demais, sendo profissional e indo direto ao ponto.
    Pelo amor de Deus, não desperdicem o meu tempo com blá-blá-blá desnecessário!
    Obrigado e bom trabalho!
    (Viu como dá para ser educado sem “beijos”!)

    • André, com as agências até que isso nunca me aconteceu. Geralmente, todos estão tão atarefados quanto eu, ou até mais.

      Uma conversa fiada, às vezes, até que é bom. Da relação com alguns clientes já nasceram boas amizades. Mas tudo tem sua hora, não é?

  2. Marion

    Agora entendi o que você quis dizer, Bete. Acho perfeitamente aceitável sua recusa de “ser beijada” ou chamada de “querida” por desconhecidos. Eu mesma não me importo muito, entra por uma orelha e sai pela outra.

    Aliás, adorei o seu blog, você escreve muito bem. Ele já está nos meus Favoritos.

    Abração,

    Marion 😉

    • Obrigada, Marion!

      Que bom que você gostou do blog! Vindo de você, fico especialmente feliz, já que você está na minha seleta lista de queridas de verdade. 😉

      Beijo
      Bete

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