Arquivo do mês: maio 2010

Nós e o contexto

Todo bom tradutor sabe o quanto o contexto é importante para o serviço sair bem feito. Mas  vocês já ouviram falar também de culturas de “alto” ou “baixo contexto”?

Outro dia, durante um serviço como intérprete nas negociações entre empresários brasileiros e alemães, eu ouvi da boca de um brasileiro uma frase que me deixou matutando sobre certas premissas que se aprendem por aí em cursos de comunicação intercultural. Depois de muito vai-e-vem e de ter finalmente esclarecido alguns mal-entendidos que estavam dificultando a realização de um projeto, o engenheiro brasileiro vira-se para os companheiros do seu grupo e diz: “Mas por que é que não disseram isso logo? Teriam evitado a confusão.”

Um comentário, a meu ver, muito natural e bem a meu gosto. Mesmo assim, confesso que achei a situação um pouco inusitada. Ele queria que os alemães, justamente eles, que têm fama de ser impiedosamente diretos até a medula, tivessem dito algo de cara, sem rodeios, logo no início das negociações. O que tinha saído errado?

Pensando nisso, lembrei de uma coisa chamada high context ou low context culture. É um dos aspectos levantados nos estudos do antropólogo Edward Hall, que já citei aqui antes – nota-se que me interessei pelo assunto. Pois bem, Hall aborda a ideia de cultura partindo do conceito de comunicação. Para ele, cultura seria “um sistema que existe para gerar, transmitir, guardar e processar informação” e, portanto, a comunicação seria “o fio da meada que atravessa todas as culturas” (tradução livre minha de um trecho citado em alemão no livro de Michael Schugk).

Dentre outros aspectos, como a história dos policrônicos e monocrônicos no outro post, ele define culturas que têm formas distintas de se comunicar. As chamadas culturas de “baixo contexto” levam esse nome porque dão menos importância ao contexto, que, para Hall, é toda e qualquer informação que acompanha a mensagem — desde o espaço físico e as condições climáticas até experiências passadas. Nesses grupos, prevalece a comunicação verbal direta, explícita, linear. Nas suas observações, é aqui que ele enquadra os alemães.

Nós, brasileiros, ficamos no grupo das culturas de “alto contexto”. Nossa comunicação é circular, enviamos mensagens mais cifradas, esperando o retorno para mandar mais uma peça do mosaico que vai se formar no fim da conversa. Isso quando não paramos antes, já intuindo o resto da informação a partir do contexto. Não chegamos a ser tão exímios nessa arte quanto os asiáticos, mas temos uma forte tendência a deixar certas coisas implícitas e não exprimir tudo necessariamente em palavras.

O que eu suponho ter acontecido nas negociações que presenciei é simples: treinamento intercultural é algo muito comum na Alemanha quando funcionários são preparados para o contato com parceiros estrangeiros. Há cursos para sugerir estratégias de como se sair bem dentro dos novos parâmetros culturais. Posso bem imaginar o gerente de projeto alemão fazendo o possível para se controlar e não espantar o cliente com frases como “não vai dar”, “não fazemos isso”, “tivemos um problema e vamos atrasar a entrega”, ou  “só se vocês pagarem o dobro”. De tanto tentar fazer a coisa certa, ele acabou se enrolando ainda mais.

Acontece que nossos profissionais também já se internacionalizaram e aprenderam a negociar sem grandes rodeios. Quando lidam com alemães, esperam um comportamente objetivo, acreditam que o que está sendo dito é 100% confiável e nada ficou faltando. Daí a decepção do nosso engenheiro lá no começo.

Mas também pode ser que essa imagem do brasileiro cheio de dedos seja coisa do passado, ou nunca tenha sido realidade. Pessoalmente, sempre achei que generalizar é mau negócio. O alemão disciplinado, o brasileiro bom de bola, o inglês pontual, o argentino arrogante, tudo isso são etiquetas que podem dar boas piadas, mas raramente ajudam a compreender realmente as diferenças culturais que encontramos. Fato é que o mundo está ficando muito complicado.

E quem deixou isso aqui hoje fui eu de novo, a Bete.

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Mercado casamenteiro

As estatísticas dizem que cada vez mais casamentos acabam em divórcio. Mas parece que o pessoal não desanima e o número de casais dispostos a assinar o papel e trocar alianças não diminui.

Eu podia começar a contar agora casos do intercâmbio casamenteiro Brasil-Alemanha, o tema certamente dá bons tópicos. Mas vi hoje uma reportagem na TV alemã que me chamou a atenção e vou falar de um lugar que nem conheço: Israel.

Eu já sabia que existe na Dinamarca um verdadeiro turismo nupcial de casais, geralmente brasileiras e alemães frustrados com os obstáculos da burocracia alemã. E os casamentos “exóticos” em ilhas do Caribe ou do Oceano Índico também não são mais novidade. Mas agora fiquei sabendo que em Israel o casamento civil não existe, ou melhor, este e vários outros atos civis estão subordinados à religião. Casar, só com cerimônia religiosa judaica. Só que nem todo mundo lá é judeu. E esse pessoal, faz o quê?

Esse pessoal compra uma passagem para o Chipre. São apenas 40 minutos de viagem, compra-se o pacote completo, com registro civil, champanhe e hotel, e o assunto está resolvido. Pode não ser muito romântico, as filas podem ser grandes e a cerimônia não dura mais que uns cinco minutos, sem falar que repetir a fala do juiz cipriota em inglês é uma experiência quase tão inesquecível quanto o próprio casamento — sério, vendo a reportagem, não entendi uma palavra. Enfim, a coisa funciona, os casais voltam felizes e o Chipre descobriu uma nova fonte de renda. Em algumas cidades, os negócios gerados pelos casamentos de casais israelenses já representam 25% do orçamento.

É pena o vídeo não estar disponível, mas o texto da reportagem está no site do canal ZDF para quem quiser conferir.

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