Agências amigas

Falta de tempo para escrever no blog pode ser um bom sinal. No nosso caso, tem sido simplesmente excesso de trabalho, o que é muito melhor do que a falta dele. Eu preferiria retomar o blog com um dos muitos temas que tenho anotado, esperando o momento chegar. Mas algumas experiências vividas nas últimas semanas merecem furar a fila e entrar aqui primeiro.

Como a maioria dos tradutores, eu também já trabalhei, trabalho e provavelmente ainda vou trabalhar com algumas agências de tradução. Pessoalmente, acredito que as agências podem ser ótimos clientes, dependendo de qual é seu perfil profissional e do que você procura no mercado. Se você quer trabalhar com cliente final, muitas vezes vai ter que oferecer mais do que simplesmente “tradução”. DTP, gerenciamento de projetos, diferentes programas, bons revisores e até uma equipe de colegas que cubram outras áreas de especialização, outras línguas, são alguns exemplos. Sem falar nos investimentos maiores em equipamentos, talvez um servidor, enfim, mais um monte de coisas das quais eu não entendo muito, pois ainda não precisei. E vai ter que ser, acima de tudo, um bom administrador.

Não que essas coisas não existam na vida de qualquer tradutor profissional, mas não tenho dúvida que o grau de exigência numa boa agência é maior. Ou, pelo menos, deveria ser. Algumas das agências com as quais trabalho tentam seguir esses critérios e facilitam, com isso, meu trabalho. Essa é, para mim, a grande vantagem de trabalhar com elas. Quando recebo o projeto, alguém já analisou e preparou o texto, já selecionou uma memória atualizada e outras referências e já negociou com o cliente. Meu preço será mais baixo por isso: boa parte do trabalho é feita por eles e eu posso me concentrar em traduzir. Nada contra o preço ser mais baixo, se for justo. Afinal, eles também têm contas a pagar.

Mas o que vejo acontecer nos últimos tempos é que essa função facilitadora das agências está em vias de extinção. É comum receber projetos com memórias fragmentadas e totalmente desatualizadas. Projetos concluídos na semana anterior, nos quais você investiu umas horinhas “acertando” a memória, voltam com novos textos, acompanhados daquela velha memória que você esperava já estar enterrada e sendo comida pelas baratas. E junto com ela, vem uma legião de referências zumbis, aquelas que morreram e não sabem, e que só servem para ocupar espaço e fazer você perder tempo consultando fontes inúteis. E depois de quebrar o coquinho, tirar o suco e fazer uma tradução decente, ainda pedem para você consertar a formatação.

Tudo isso chateia, mas chatearia menos, se não viesse também acompanhado de uma choramingada com direito a beicinho quando você arrisca pedir  x% sobre o preço usual pelo trabalho adicional.

Preço, aliás, parece ter se tornado o único critério relevante para muitas agências. Há poucos dias, recebi uma proposta. Não me mandaram um teste, o que teria achado normal. Mas me pediam para preencher um extenso formulário on-line e, adicionalmente, mais uns dois ou três questionários, que deveria enviar depois assinados, com foto e os dados da minha conta bancária. E entre toda a papelada que eu deveria assinar, estava lá um detalhe em que eu me comprometia a não trabalhar diretamente com nenhum dos clientes atuais e antigos da agência por um período de até dois anos depois de ter saído do quadro de tradutores. Isso, vejam bem, sem que tivessem nenhuma prova da qualidade do meu trabalho, ou seja, correndo o risco de nunca receber qualquer serviço deles. No fim de tudo isso, depois de dar a eles um raio-x completo da minha vida, eu ainda tinha que concordar em receber meu dinheirinho até 60 dias depois de passar minha conta e aceitar que, caso o serviço chegasse com qualquer atraso ou razão de insatisfação, eles se reservam o direito de não pagar, ou pagar com desconto! Wie bitte?

O André também recebeu uma ótima: um servicinho pequeno, simples, na verdade. Só que ele tinha que verificar e acertar a formatação e o preço, em vez de aumentar, ficou ainda menor, porque descontaram um monte de repetições.

Talvez seja apenas a minha impressão pessoal, mas a tendência que tenho observado é redução de preços e aumento de exigências.  Estamos assumindo funções que, a meu ver, cabem aos gerentes de projeto. Nada contra, se é disso que precisam — e isso é algo que o Google Translator não vai tirar da gente, por enquanto.Mas então,  reconheçam o valor desse trabalho.

De todo modo, essa situação é também motivo para repensar as vantagens de trabalhar com agências. Eu vou começar esquecendo aquele monte de questionários que me enviaram.

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4 Comentários

Arquivado em Agências, Clientes

4 Respostas para “Agências amigas

  1. André

    Oi Bete!
    Que legal que você escreveu sobre a nossa conversa de hoje!! Sabe, acabei escrevendo para aquela agência e dizendo que não faria o trabalho por aquela quantia. Estão ficando uns abusados! Passam trabalho sem referências ou faltando e ainda temos que refazer a formatação, Spell-Check e não sei mais que diabos…
    Vou começar a “rodar a baiana”, como diz um amigo meu, e se quisererem que trabalhe para eles, que façam eles esses trabalhinhos, pois não ganho para isso.
    Vamos fazer um levante!!!
    beijos e até a próxima ligação! 🙂

  2. Marion L. Pfeffer

    Oi, Bete – estou abismada. Então continua assim, é?

    Antigamente eu trabalhava para agências, mas já faz uns 3 ou 4 anos que não trabalho mais exatamente pelas razões que você apontou. Chega a irritar mesmo, não é? São exigências descabidas e eu não sei como pode haver tradutores que aceitam essas condições. Ainda mais com a ameaça de descontos pairando sobre a cabeça. Eu me lembro que perguntei a uma agência qual era o critério, quer dizer, se o tradutor teria como argumentar e defender a tradução feita. Eles disseram que não, se o cliente rejeitasse, não pagariam e pronto. Aí eu perguntei, e como vocês me provariam que o cliente não aceitou? Não souberam responder.

    Outra coisa é aquele compromisso de não trabalhar com os clientes deles. Ora, sou autônoma, meu nome está na internet, em grupos como o Go Translator, empresas me procuram, vou lá eu saber se são clientes deles também? Na época, simplesmente me recusei a assinar e vou me virando com clientes diretos.

    Dou todo meu apoio de repensar a sua disposição de trabalhar para agências. Enquanto se comportarem assim, nada feito.

    Como disse o André acima: vamos fazer um levante! Rsrsrsrs

    Abraços.

  3. Bete, essa questão do preço pago (ou melhor, aceito) pelas agências é um caso sério. Canso de receber, quase todos os dias, propostas absolutamente ridículas, com os mais variados e criativos motivos para pagar menos. O que não gosto nas agências é principalmente aquela tabela de descontos por repetições, que, via de regra, não aceito porque já tenho trabalho suficiente de clientes que não têm tabelas de desconto nenhuma.

    Também detesto a imposição de ferramentas CAT. Não tenho problemas com testes de tradução, desde que haja boas chances de ele resultar em trabalhos concretos. Aliás, os meus melhores clientes dos últimos anos me deram um teste, eu passei e eles me mandam regularmente trabalhos suculentos, prazerosos e bem-pagos.

    Mas devo confessar que todos os meus clientes-agências são da Europa ou, no máximo, dos Estados Unidos – nunca do Brasil, que eu tô fora de trabalhar por R$ 0,000000nada por palavra.

    É preciso enfatizar também que há agências tão profissionais e tão sérias que às vezes tenho a sensação de que eu é que deveria pagar a eles pelos trabalhos que me dão. 🙂 Fico admirado e aliviado quando me deparo com agências com um sistema de pagamentos automatizado, project managers simpaticíssimas (para algumas eu até mando cartão postal quando estou em férias) e sobretudo com um processo de qualidade de alto nível (isto é, que sabem preparar o texto, que fazem perguntas sobre aspectos do texto e sobre a minha experiência anterior com esse tipo de texto, que contratam revisores competentes, que dão retorno sobre a qualidade da minha tradução, que valorizam as qualificações do profissional e que sabem que qualidade tem seu preço). Por tudo isso, as minhas agências de tradução ocupam um lugar bem especial no meu mundinho de freelancer, bem ao lado de clientes diretos empresariais descomplicados. 🙂

    • Primeiramente, obrigada pela visita e pelos comentários, já estava com saudades disso aqui! 🙂

      Fábio, ainda bem que você fez essa ressalva. Terminei o texto no calor da indignação e talvez tenha deixado a impressão de que vou abrir guerra contra todas as agências desse mundo. Não é o caso. Eu comecei o artigo dizendo que ainda trabalho e vou continuar trabalhando com agências porque há, sim, algumas excelentes agências no mercado. Também tenho a sorte de ter algumas na minha carteira de clientes com as quais pretendo ser feliz até que a morte — ou o Google Translator 😉 – nos separe.
      Mas, como diz a Marion, experiências como essas deixam a gente ressabiada. Também acredito que as próprias agências vêm sofrendo com a pressão para baixar preços no mercado, os gerentes de projeto também estão sobrecarregados e poucos recebem um salário justo. Acabam passando essa carga para os nossos ombros.

      Acho que isso ainda vai ser assunto de vários posts!

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