Arquivo do mês: agosto 2010

Wir sind der Bahnhof!

Stuttgart não é nenhuma metrópole. Às vezes ela é chamada de Heizkessel, caldeira, mas isso é porque a cidade fica em um vale e o termômetro aqui está sempre alguns graus acima da temperatura medida nos arredores. Fervilhante não é um adjetivo que se use para descrever essa cidade.

Nos últimos tempos, porém, a cidade está realmente fervendo. A culpa não é do verão, mas de Stuttgart 21, um projeto urbanístico gigantesco que vai transformar a cidade em um canteiro de obras pelo menos nos próximos dez anos. Para modernizar as vias ferroviárias, alegando que isso permitirá encurtar as viagens, os governos municipal, estadual e federal, juntamente com a companhia ferroviária Deutsche-Bahn, decidiram reformar a estação central, que hoje é do tipo terminal, ou seja, de fim de linha, e transformá-la em uma estação subterrânea de passagem direta para os trens. Para isso, metade do prédio da antiga estação, tombado pelo patrimônio histórico, será demolido e um grande número de árvores do atual parque municipal será derrubado para as escavações. Não bastasse isso, os gastos astronômicos previstos para o projeto no início do planejamento, mais de dez anos atrás, já chegaram a mais de 4 bilhões de euros e continuam aumentando. E há também um grande risco de que o complexo sistema de fontes de águas minerais existente na região seja prejudicado seriamente.

Pouco a pouco, foi se formando uma resistência ao projeto na população. A reação inicial dos políticos locais foi aquela que todos conhecem: ignorar solemente. Só muito tarde começaram uma campanha em prol do projeto, informando sobre suas supostas vantagens. Não convenceram e o que antes era o movimento de um grupo tachado de „verdes alternativos“ virou uma ação popular em massa.

Há passeatas no mínimo duas vezes por semana. Na última falava-se de 30 mil participantes, amanhã espera-se ainda mais gente. Todos os dias, às 19 horas, centenas de pessoas pegam um apito, uma vuvuzela, um tambor, panelas ou simplesmente a própria garganta e fazem um barulho desgraçado em sinal de protesto. A cerca que protege a área onde começarão as obras lembra o muro de Berlim, coberta de cartazes, caricaturas de políticos, faixas e até cartas e desenhos de crianças. E ontem, quando a primeira ala lateral da estação começou a ser demolida, os manifestantes tomaram conta das ruas e o trânsito parou na cidade.

Começo da demoliçã6

A foto é péssima, mas quem pegar uma lupa talvez veja alguns manifestantes no telhado, em vias de pendurar uma faixa de protesto.

O que acho mais curioso nisso tudo é que as pessoas mobilizadas nesse protesto são os típicos pacatos moradores da cidade – gente de meia-idade,  famílias com crianças, aposentados, cujo sangue só entrou em ebulição porque se sentem ludibriados por políticos conservadores em quem eles mesmos votaram. O partido conservador CDU sempre foi o dono do pedaço nessa região. A oposição  no parlamento varia, os verdes têm uma boa fatia de eleitores, mas quando há eleições, ninguém duvida que a maioria será novamente do CDU, só o percentual varia. Mas parece que isso pode mudar com Stuttgart 21. Pela primeira vez em décadas, as pesquisas indicam que o partido perderia a maioria se as eleições fossem hoje. Não são, mas serão no ano que vem, quando o canteiro de obras estará a todo vapor.

Ontem, a televisão mostrou um senhor de cabeça branca treinando para se acorrentar a uma das árvores centenárias do parque municipal quando as primeiras escavadeiras chegarem. Taí uma cena que não quero perder.

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Ruhrko 2010 – A língua como fator econômico

Para mim é novidade e espero que seja interessante para alguns de vocês. No final de outubro, nos dias 23 e 24, será realizada pela terceira vez a conferência Ruhrko, em Dortmund, para profissionais da área de tradução. Tema esse ano será o papel da língua como fator econômico.

A conferência é organizada pela empresa Ralf Lemster Financial Translations GmbH, com apoio da associação profissional dos tradutores alemães, a BDÜ. O programa previsto parece interessante e inclui temas como certificação, direitos autorais, captação de clientes, gerenciamento de projetos e palestras com títulos que despertam a curiosidade, como “Language as communication currency of the globalized world”.

Quem estiver interessado encontra todos os detalhes aqui.

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Assoando o nariz

Taí uma coisa que pode parecer insignificante, mas faz uma diferença danada quando você sai da zona de conforto da sua própria cultura. Em que situações, onde e principalmente como você assoa o nariz?

Ninguém costuma pensar nessas coisas que se aprendem na infância, em casa, no berço, instintivamente. Ainda tenho lembrança da minha mãe com um lencinho bordado nas mãos, apertando minhas narinas delicadamente e dizendo para eu soprar. O bordardo eram uns bonequinhos com roupas típicas portuguesas e eu tentava mirar de um jeito que eles não ficassem sujos.

Esses lencinhos já dão uma ideia de como nós, brasileiros, lidamos com o assunto: com cuidado e discreção. É difícil ver alguém no Brasil assoando o nariz com alarde. Em público, as pessoas geralmente tentam fazê-lo sem chamar a atenção. Muitos nem assoam, apenas passam o lenço no nariz para evitar o pior.

É compreensível que isso seja diferente na Alemanha, já que aqui faz frio a maior parte do tempo e estar resfriado é quase rotina. Mas nariz escorrendo é tabu nesse país. Ninguém funga. Em compensação, mesmo depois de ter vivido mais de 20 anos nessa terra, eu ainda me espanto com assoadas assombrosas que me pegam de surpresa. Aqui ninguém assoa o nariz como quem não quer nada. Se você tira o lenço do bolso, é para assoar com convicção, não é segredo. E os lenços são lenços de verdade, um mero lencinho não daria conta do negócio. Aliás, nem é lenço, é Tempo, mas isso eu explico depois.

Só fui me dar conta dessa diferença depois de já estar casada um tempo com um alemão de nariz grande. Estávamos em casa, no Rio, e de repente ouviu-se um som que fez meu sobrinho pequeno olhar para mim e perguntar com os olhos espantados:

— O que foi isso?

— Seu tio assoando o nariz.

O sobrinho deu risada, enquanto meu pai só comentou: “Benza Deus!”

O outro lado da moeda é sobreviver na Alemanha sem lenços, nem lencinhos na bolsa. Toda mulher alemã que se preza tem um estoque de lenços de papel distribuído em todas as suas bolsas preferidas. Tempo é como o nosso band-aid, a marca tornou-se sinônimo de lenço de papel. Se você sair para jantar com o marido (ou namorado) numa noite fria, pode contar que depois da sopa vem a pergunta: Hast Du ein Tempo?

O último exemplar, encontrado no bolso de um casaco.

Eu nunca tenho porque sou da terra dos lencinhos e saio da mesa para assoar o nariz no banheiro, embora já tenha passado apertos por causa disso, interpretando almoços de negócios. Mas não adianta, minha bolsa de mulher é atípica na Alemanha. O que já daria outro tópico, mas por hoje, é só.

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Oferta do MemoQ para a América Latina

Acabei de receber uma mensagem do pessoal da Kilgray anunciando um desconto de 40% na compra do MemoQ Pro para a América Latina. A oferta é válida a partir de hoje até 6 de setembro. Quem estiver interessado encontra mais detalhes aqui.

Eu comprei a minha licença durante uma oferta dessas e valeu cada centavo do investimento. Juro que não estou levando comissão para dizer isso, mas estou muito satisfeita com o programa. Vale testar e conferir, antes que a oferta acabe.

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Palestras do Guilherme Braga

Há pouco tempo assisti a duas palestras online oferecidas pelo Guilherme Braga. Embora os temas fossem voltados para a tradução literária, que não é a minha área, achei que poderiam ser úteis para textos de propaganda e marketing. E, sabendo da qualidade do trabalho do Guilherme, tinha certeza que valeria a pena. Não me enganei e recomendo a todos.

Não vou repetir aqui o conteúdo das palestras, sugiro consultar o blog do Guilherme, Traduções Improváveis, e participar das próximas. Mas dentre as muitas coisas que aprendi, deixo aqui duas considerações que talvez não sejam novidade, mas  é bom ter em mente:

– Às vezes, a melhor maneira de ser fiel ao original é se afastar dele. O respeito ao original não deve se tornar medo de tomar rumos imprevistos e  impedir você de encontrar justamente o que o texto merece: seu correspondente na lingua de chegada.

– Quando fizer sua escolha de uma solução, saiba por que a fez. A maioria de nós trabalha correndo contra o relógio e as decisões muitas vezes são tomadas sem espaço para a reflexão. Mas, mesmo que você não esteja traduzindo um romance, poder argumentar com segurança pela solução usada vai ajudar você a lidar com as dúvidas do cliente — e pode garantir novos serviços.

As palestras valeram cada centavo investido e provam que também pode ser bom dar um passeio de vez em quando fora da sua área de especialização.

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