Arquivo do mês: maio 2011

Dá uma forcinha aí, vai?

Isso era para ser uma resposta aos comentários da Candice e do André no último post, mas achei que merecia um espaço maior. A Candice comenta que “infelizmente, há muito amadorismo por aí” e o André levanta a hipótese que a intérprete do nosso caso talvez tivesse sido vítima da típica situação de quem vai “dar uma força” para um amigo ou colega.

Concordo com as opiniões, mas acho que tem mais coisa nisso. Acredito que tudo depende de como você encara o que faz na vida, seja a sua profissão ou qualquer outra coisa. O que falta, geralmente, é seriedade, no bom sentido.

Não estou falando de tradutores sisudos, ou gente mal humorada. Também não estou falando de  perfeição, até porque conheço pouca gente tão desligada e capaz de cometer erros como eu. Nem estou falando de não correr riscos e só seguir caminhos que você já conhece. Seria a última pessoa a criticar quem se arrisca a enveredar pelas trilhas da tradução ou interpretação sem ter formação na área, já que eu mesma não a tenho.

Estou falando de levar a sério aquilo você resolve fazer, seja um pãozinho de queijo para o café ou a tradução de um contrato. Estou falando de tentar fazer o melhor que você é capaz, mesmo sabendo que não vai ser perfeito. E estou falando de dar valor àquilo que você (e os outros) fazem.

Um exemplo: a primeira tradução da minha vida foi feita “dando uma forcinha” para um amigo. Ele era poeta, ia publicar um livrinho e queria que eu o ajudasse a traduzir trechos de um texto em alemão que ele pretendia citar na sua introdução. Eu topei porque era meu amigo. Levamos mais de um mês trabalhando juntos naquilo. A mulher dele, alemã, nos ajudou. Eu acabei até lendo mais coisas do tal autor alemão, para saber mais sobre ele e entender melhor o que estávamos fazendo. A gente batalhou, se divertiu, não ganhamos nada com aquilo, mas terminamos todos felizes e satisfeitos com o resultado. Isso é seriedade.

Outro exemplo: eu trabalhava no consulado do Brasil fazia uns anos e um dia me ligou a coordenadora de eventos de uma instituição cultural em Stuttgart, que eu conhecia de outras oportunidades. Estavam organizando um evento em que grupos culturais sul-americanos se apresentariam e haveria palestras de experts sobre diversos países. Ela queria que o cônsul fizesse uma palestra sobre o Brasil, sua história, política, economia.  Ele não podia, então ela perguntou se eu não poderia “dar uma forcinha”. Nem pensei duas vezes, agradeci e disse que não. Ela ficou indignada, achando que eu não queria colaborar. Não adiantou eu explicar que não entendo nada de política e economia, que a palestra ia ser em alemão e eu não me sentia segura para aquilo, que de forma alguma eu podia comparecer como representante oficial do consulado para vender mal o peixe do meu país e era melhor ela procurar um verdadeiro expert. O comentário final dela foi que “se fosse eu, me sentiria honrada e a gente sempre pode falar qualquer coisa sobre o próprio país”. Lamento, mas falar qualquer coisa não é sério.

Último exemplo: um dia, uma amiga, querendo me “dar uma forcinha”, perguntou se eu não queria ser a intérprete de um congresso acadêmico. Os organizadores já tinham feito contato com um intérprete, mas o colega era caro, eu podia me apresentar e oferecer um preço menor. Disse que não faço simultânea, então não dava, e achei melhor nem comentar a questão do “preço menor”. Ela ainda insistiu que eu tenho experiência, seria uma boa oportunidade. Aí expliquei que simultânea é outra coisa, eu não domino a técnica e se seu aceitasse, ia queimar meu filme e o deles, fazendo um serviço mal feito. Era melhor ela contratar o colega. A resposta foi “que pena, mas você tem razão”. Isso é sério.

Pode parecer que eu sempre faço a coisa certa. Não é verdade. De vez em quando faço besteira e bato com a cabeça na parede novamente, para não esquecer que errar é um direito de todos. Mas é por isso mesmo que vivo pensando nessas coisas e tentando desviar das paredes. Dor de cabeça atrapalha a produção!

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Arquivado em Profissionalismo

Ele disse que você disse que…

O cenário é um saguão de hotel em São Paulo. Na área reservada para computadores e mesas de trabalho, estão sentados dois árabes, um brasileiro e uma intérprete, também brasileira, a julgar pelo sotaque. Um dos árabes fala inglês com a intérprete, que traduz para e do português. O outro árabe só fala diretamente com o parceiro.

A cena é corriqueira, aparentemente uma negociação entre parceiros de negócios. Mas da forma que a presenciei seria um bom exemplo do como um intérprete NÃO deve atuar. O inglês da moça parecia bom, pelo menos a pronúncia era excelente. Só que corriam diálogos mais ou menos assim:

Brasileiro: Eu tenho certeza absoluta que discuti essa cláusula do contrato durante a nossa primeira conversa.

Intérprete: He said he mentioned this during your first conversation.

Árabe (depois de uma discussão em árabe com seu parceiro e com semblante irritadíssimo): We had agreed on 10%! It was never said there would be any other taxes!

Brasileiro: O que foi que ele disse?

Intérprete: Que vocês estão cobrando mais do que combinaram.

E por aí vai. Dava para fazer aqui um exercício aberto, do tipo “descubra os sete erros nessa cena”. Eu estava tentando ler meus e-mails em um computador ao lado, mas cada vez que ouvia mais um “ele disse que você disse”, tinha vontade de levantar e ir lá perguntar se podia ajudar.

Não é que eu me ache uma ótima intérprete. Pelo contrário, sofro de uma insegurança crônica que só consigo controlar enquanto estou trabalhando. Antes e depois, eu sou uma caixinha de perguntas, dúvidas eternas e autocrítica. Por isso mesmo, essa cena, que vi há meses, não me sai da cabeça e ilustra muito bem tudo o que pode dar errado se você não fizer o serviço direitinho durante uma negociação.

Talvez aquele árabe não ficasse tão irritado se as respostas às suas perguntas tivessem o mesmo tom e, acima de tudo, exatamente o mesmo conteúdo das respostas dadas pelo brasileiro. Vai ver as tais taxas extras sumiram já durante a interpretação das negociações anteriores.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o evidente desinteresse da moça pelo que estava se passando ali. Enquanto os três homens tinham o olhar desperto e estavam sentados bem próximos da mesa, sinalizando contato com os gestos, ela estava recostada na poltrona e mal movia a cabeça quando falava com um ou outro. Talvez eu esteja errada, mas acredito que a postura do intérprete também influencia o resultado e linguagem não-verbal faz parte da mensagem. Não basta o cabelo arrumadinho e a roupa certa, se o corpo e os olhos estão dizendo “acabem logo com isso que eu quero ir para casa”.

Mas é possível também uma outra versão da história. E se a moça nem for intérprete profissional? E se aquilo era um trabalho voluntário? Ou, pior, se tiverem dito a ela que seria coisinha pouca e passado a conversa para ela fazer um precinho camarada? E se ela estivesse ali se sentindo enganada, presa numa armadilha da qual não podia mais sair? Acontece também, não é? Já estive em situações assim, mas tenho o mau costume de querer fazer as coisas direito, mesmo sendo mal paga. Mas cliente que não vê a importância do intérprete para o sucesso da negociação, talvez mereça mesmo levar para casa umas pragas rogadas em bom árabe!

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