Arquivo do mês: dezembro 2012

Literatura que não assusta

Tem gente que corre ao ouvir “crítico literário”. Mas existe um programa na Alemanha que prova que ainda há esperança para quem simplesmente gosta de ler e procura informação e conteúdo sem ter que aturar a vaidade dos outros: Druckfrisch.

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De longe, o melhor programa sobre literatura que conheço e certamente o único que não tem nada de pretensioso. Denis Scheck, além de excelente crítico e apresentador bem humorado, é um ótimo tradutor. E tudo no programa é bom, desde a edição até a trilha sonora, que muda sempre. Já descobri bandas ótimas enquanto assistia. O programa de hoje tem uma entrevista curta e deliciosa com Julian Barnes, infelizmente ainda não disponível em vídeo. Mas vale a pena ficar de olho no arquivo de vídeos e podcasts.

É em alemão, mas se isso não assusta você, não perca!

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Arquivado em Livros

Já acabou?

Eu não sei vocês, mas pra mim esse ano passou quase que num piscar de olhos.

Estava aqui vendo minhas anotações de ideias, planos, mudanças, coisas que pretendia ter realizado durante o ano e fui adiando por falta tempo. A minha sensação é de que eu mal comecei, mas a verdade é que faltam poucos dias para o ano acabar. Não foram 12 semanas, mas 12 meses que já se passaram desde que essas ideias foram para o papel – e algumas de lá não saíram.

Acho que todo profissional tem essa síndrome-de-fim-de-ano. Além de fazer as contas e traduzir em números aquilo que a gente vinha intuindo durante a correria do trabalho (Foi bom mesmo? Podia ter sido melhor, ou pior? Sobrou alguma coisa? E o que vai dar pra fazer com isso?), é  o momento em que a gente tenta parar pra tomar fôlego e ver se está indo na direção certa, antes que a próxima rodada comece.

Esse ano, acho que minha maior falha foi não ter controlado melhor minha agenda. Sim, eu confesso que sempre me dei mal com calendários, tenho uma péssima capacidade de avaliar o tempo e as agendas acabam se tornando belos cadernos de notas na minha mesa, ou na minha bolsa. Junte a isso um ano cheio de viagens, de idas e vindas, de novos projetos, novos horários e mudanças de clientes, e você talvez entenda a razão da minha surpresa com a chegada repentina do Natal.

O ano não foi mal e não faltou trabalho, pelo contrário. Por isso mesmo, e por não ter me preparado melhor pra isso, passei a maior parte do tempo correndo atrás, com várias laranjas no ar e outras passando pelas mãos rapidamente. Acho que umas duas caíram no chão, sem grandes estragos. Mas se eu quiser tirar aquelas ideias do papel (que são muito boas pra desperdiçar) e juntá-las às minhas laranjas, vou ter que me organizar melhor, definir melhor meus prazos, fazer da minha agenda a minha melhor amiga e confidente. E talvez, quem sabe, arrumar um assistente de malabarista, alguém que, pelo menos, me jogue as laranjas na hora certa e segure a tempo aquelas que estão a caminho do chão.

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Arquivado em Profissionalismo, Vida profissional

Os riscos da vida de intérprete

Um colega me enviou uma notícia que gostaria de compartilhar com vocês, depois de um longo tempo afastada do blog.

Em Colônia, corre atualmente um processo que ficou conhecido como “Mord ohne Leiche”, ou “Homicídio sem corpo”. Três réus são acusados do assassinato de uma mulher filipina, cujo corpo ainda não foi encontrado. O processo estava em vias de ser concluído, com a condenação dos réus, quando o tribunal tomou conhecimento de que a intérprete havia participado de passeatas pedindo justiça para a desaparecida, distribuído panfletos na entrada do tribunal, é membro de uma associação em defesa das mulheres filipinas e tinha contato com algumas das testemunhas do processo. O advogado de defesa entrou com petição para que a intérprete seja dispensada por conflito de interesses, pedindo que todas as testemunhas sejam ouvidas novamente, já que há suspeita de que não tenha atuado com imparcialidade. A juíza aprovou a petição e determinou que as testemunhas sejam ouvidas novamente, o que exigirá cerca de nove dias adicionais para o processo. A intérprete corre o risco de ter que arcar com parte das custas processuais, que podem chegar a 50 mil euros.

O caso ilustra bem a responsabilidade do trabalho do intérprete em tribunais, que vai muito além do mero comportamento profissional na sala de audiências.

No caso em questão, há alguns detalhes que chamam a atenção. O tribunal e a promotoria não se informaram antecipadamente sobre um possível envolvimento emocional da intérprete com o caso. A intérprete deveria ter chamado a atenção do tribunal para o fato de ser ativa na defesa dos direitos de mulheres filipinas. Em vez disso, ela se mostrou surpresa com a reação do tribunal e afirma que vive numa “sociedade livre” e tem o direito de expressar sua opinião, argumentando que agiu corretamente durante os depoimentos, interpretando fielmente todos os testemunhos prestados.

Não sei o que vocês acham, mas a história me fez lembrar de uma decisão que tomei há vários anos, quando servia de intérprete para hospitais em Stuttgart. Era um trabalho que me dava pouco retorno financeiro, mas que fazia por achar que estava prestando uma ajuda às muitas famílias que não conseguiam se comunicar, talvez justamente nos momentos mais difíceis de suas vidas, com um ente querido doente. Era um trabalho honroso, mas difícil e que me deixava sempre um pouco abalada, pelos dramas presenciados. Um dia, depois de interpretar em um caso particularmente triste, do qual saí aos prantos (eram eu, os médicos, a família, todos chorando), resolvi não continuar e passei a recusar esses serviços. Cheguei à conclusão de que não estaria em condições de ajudar ninguém, pois não conseguia manter a distância necessária para isso. Acredito que se um dia tivesse que ser intérprete no caso de alguma brasileira assassinada, envolvendo pessoas que eu talvez conheça, estaria numa situação semelhante e preferiria recusar e me envolver de outra forma.

E vocês, o que acham?

Se quiserem ler as notícias sobre o caso (em alemão), cliquem aqui ou aqui.

 

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