A vida (do intérprete) como ela é

Voltando de um dia de interpretação na semana passada, aproveitei a viagem de trem para pensar em preto e branco, anotando tudo para compartilhar aqui com vocês.

Depois de meses sem fazer simultânea, foi difícil largar meu bloquinho amigo da consecutiva e tentar me concentrar em outros detalhes – controlar os meus ahns, não ouvir o coração bater mais forte quando perco alguma coisa e seguir em frente, lembrar que os números estão projetados na tela e que há um colega ao lado para me ajudar. No final do dia, já estava engrenando e me acostumando novamente, mas já sei que a próxima vez não será muito diferente, se não vierem outros serviços nas próximas semanas.

O dia correu bem. O grupo de ouvintes era pequeno e formado por gente simpática, o colega que me contratou para fazer dupla não podia ser melhor, e a jornada a dois, com pausas para cafés e almoço, foi bem razoável. Mas cada experiência é mais uma lição, e desta vez fiquei pensando naquilo que aprendemos nos cursos e na realidade que encontramos depois no exercício da nossa profissão.

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)


A gente estuda e se prepara para uma situação padrão: evento, cabines montadas, palestrantes com microfone lá na frente e transparências projetadas. No melhor dos mundos, você recebeu algum material informativo antes e teve tempo suficiente para se preparar. No paraíso, talvez até algum palestrante tenha enviado sua apresentação antes. Mas todos nós sabemos que a realidade, muitas vezes, é outra. E é preciso estar preparado para isso também.

O evento da vez era internacional e dirigido a um público principalmente acadêmico. Foi definido que seria realizado somente em inglês, sem intérpretes. O grupo para o qual interpretamos estava em viagem pela Alemanha, fazendo visitas técnicas, e participou apenas do primeiro dia do evento. Economicamente, não era viável instalar cabines apenas por um dia, para um grupo de não mais que dez pessoas. A solução foi usar equipamento portátil.

Para completar o quadro, o local do evento era um estádio de basquete. O palco das seções plenárias foi montado na quadra, com o público (e nós, intérpretes) sentado na arquibancada, tudo escuro como numa sala de cinema e uns holofotes de uma luz azul penetrante direcionados para a plateia. Acústica zero – precisa dizer? – acompanhada daquele inglês língua franca(mente-faça-me-o-favor!) que faz você pensar que aquela prova de compreensão auditiva do CPE, com um escocês doido falando, era de tirar de letra. As salas das comunicações, pelo menos, eram bem iluminadas, mas aí o problema era enxergar lá longe as transparências cheias de texto, gráficos e números minúsculos, e falar bem baixinho, para não atrapalhar o resto do público. Bastava você se empolgar só um pouquinho com a entonação e logo algumas caras feias se viravam para trás e lançavam aquele olhar fulminante na sua direção.

Todas essas dificuldades são mencionadas nos nossos cursos – ou, pelo menos, deveriam ser. Pessoalmente, acho até que aprendi mais, durante o curso, com os áudios de má qualidade, pois eles nos preparam melhor para essas tempestades que vêm pela frente. Mas uma coisa é você lidar com isso enquanto está pagando para aprender, outra é encarar a possibilidade de erro quando alguém está pagando pelo seu desempenho.

Nos próximos posts ainda vou comentar mais alguns detalhes que, pelo menos para mim, são importantes. Mas agora, me contem: por quais agruras vocês já passaram nessa vida de intérprete?

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1 comentário

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Uma resposta para “A vida (do intérprete) como ela é

  1. Fláviua

    Bete, parabéns mesmo! Mas eu NUNCA faria isso.

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