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Não é só no Brasil

Sabem aqueles e-mails que a gente recebe de vez em quando, com fotografias de placas e cartazes absurdos encontrados Brasil afora? Pois é, a Alemanha também tem seus exemplares. E a foto aí embaixo é um deles.

A propaganda é a alma do negócio.

Isso foi ainda durante a feira Cebit, em Hannover. O cara estava vendendo aqueles pãezinhos enroscados típicos da Alemanha, Brezel, e como bom comerciante colocou lá sua propaganda: Warme Brezel – Brezel quentinhos! A uma temperatura abaixo de zero, quem não sentia vontade de parar e comprar os tais pãezinhos, nem que fosse para aquecer as mãos geladas? Mas, péraí. Zero grau, o cara ali parado com uma montanha de Brezels ao ar livre, quentes? Naquela geladeira? Oi?

Tiramos a foto e o cara, gelado e curioso, perguntou se a gente tinha gostado da barraca. Explicamos que a atração foi a placa. Quando saímos da feira e passamos por ali novamente, o cara ainda estava lá, firme e forte com os seus Brezels. Mas a placa tinha sumido. Vai ver ele ficou com medo de que algum brasileiro maluco resolvesse processá-lo por propaganda enganosa. Vida de vendedor de rua na Alemanha é muito mais complicada, minha gente!

P.S. Fiquei espantada com os Brezels de Hannover, enormes e totalmente diferentes dos que se encontram em Stuttgart. Munique também tem os seus, mais fininhos e crocantes. Mas isso eu explico outra hora.

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Inteligência seletiva, ou complicando o que já não era fácil

A língua alemã tem fama de ser exata. O mito de que “só é possível filosofar em alemão” continua assombrando muita gente por aí, não só na canção do Caetano. De minha parte, estou convencida de que nem mesmo a matemática é tão exata quanto parece, 2 + 2 nem sempre será 4, que dirá o alemão expressar tudo sem deixar sombra de dúvida. Querem um exemplo?

No lugar onde eu trabalho, há uma pequena cozinha no andar, com geladeira, pia, máquina de café e a infalível lata de lixo com coleta seletiva. Nela , há três compartimentos: um para embalagens (Verpackungen), outro para lixo orgânico (Biomüll) e um que leva o nome aparentemente bem prático de Restmüll, o que seria o “lixo restante”, traduzindo literalmente. Parece lógico, não é? Mas vejam só: todos os dias, para colocar o meu motor em funcionamento, minha primeira providência é tomar um café, um expresso duplo, para ser mais exata. Quando a máquina termina de encher a xícara com o meu combustível, eu abro um saquinho de açúcar e jogo metade do conteúdo na xícara. Na hora de abrir a lata de lixo e jogar fora o resto, vem a dúvida: para qual compartimento vai o saquinho? Jogo o resto do açúcar no lixo orgânico e o saquinho nas embalagens? Ou jogo tudo no “resto de lixo”?

Coleta seletiva: pense bem antes de abrir!

Pode parecer banal, mas é um desafio começar o dia com uma pergunta dessas, antes mesmo do primeiro gole de café! E acho que não sou a única, pois ao abrir a lata, sempre encontro os saquinhos azuis espalhados por todos os compartimentos. Afinal, o saquinho é embalagem, portanto, não deveria estar no “resto”. Mas se eu jogo apenas o açúcar no Biomüll, a menina que faz a limpeza (a propósito, uma brasileira) certamente vai xingar a pobre da minha mãe, que não tem nada a ver com isso, por causa do fundo caramelizado que se cria na lata de lixo. Pois, como todo mundo sabe, os alemães são muito consequentes (outro mito, mas ainda não virou música), por isso nossa lata de lixo seletiva não é forrada com sacos plásticos, senão não seria assim tão seletiva.

Os saquinhos na lata da discórdia.

O que nos leva de volta a essa língua tão exata: o que vem a ser exatamente “Restmüll”? Existem verdadeiras enciclopédias sobre a coleta de lixo na Alemanha e há nomes para tudo. Oficialmente, “Restmüll” é tudo o que não pode ser reciclado. Mas as listas de exemplos citados em vários sites de prefeituras e órgãos público, em vez de esclarecer, confundem ainda mais. Uma delas cita, por exemplo, produtos têxteis sujos. Ora, a máquina de lavar não recicla isso?

Eu resolvi simplificar minha vida, pelo menos nesse aspecto, e interpreto Restmüll simplesmente como “resto”, tudo o que sobra vai para ali. Não é embalagem? Não é orgânico? Restmüll! É um pouquinho de cada um? Restmüll! É uma coisa na qual ninguém pensou quando inventaram a lata de lixo maquiavélica? Restmüll! Confesso que às vezes tenho um receio paranóico de ser pega jogando o saquinho no lugar errado. Mas, querem saber de uma coisa? Se um dia reclamarem, vou começar uma discussão sobre o verdadeiro significado da palavra “resto” e sou capaz de apostar que ficaremos ali olhando pensativos para aquela lata de lixo, sem resposta definitiva para as grandes questões do universo. E se os alemães querem mesmo tudo nos lugares certos, eles que inventem uma palavra melhor. Afinal, essa língua é ou não é tão exata?

PS: Falando em maneiras complicadas de começar o dia na Alemanha, a Ligia Fascioni escreveu há tempos um artigo no seu blog que vale a pena ler. Passe lá, clicando aqui.

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Safari na selva da integração

O canal alemão ARD começou a transmitir um programa com o título Entweder Broder – Die Deutschland Safari que, na minha opinião, é a melhor resposta à atual discussão sobre a integração de emigrantes na Alemanha. A ideia é tão simples quanto genial: um judeu e um muçulmano, ambos naturalizados alemães, viajam pelo país em um carro  colorido, visitando lugares históricos, entrevistando gente de todos os tipos e discutindo, com muito humor, o que afinal de contas vem a ser essa tal de integração.

Para quem não sabe, nos últimos meses a questão da integração dos estrangeiros na sociedade alemã, principalmente dos muçulmanos, tornou-se centro de uma discussão um tanto absurda, impulsionada pelo lançamento do livro Deutschland schafft sich ab (A Alemanha está acabando consigo mesma), de Thilo Sarrazin. O economista acabou abandonando seu posto na diretoria do Bundesbank, por conta da polêmica surgida após suas declarações, consideradas racistas. O livro, porém, continua na lista dos mais vendidos e o tema não sai da pauta em todas as mídias.

O jornalista judeu Henrik M. Broder e o cientista político egípcio Hamed Abdel-Samad são o outro lado da moeda. No seu safári pela Alemanha, acompanhados da cachorrinha Wilma de Broder, eles conseguem tratar com um humor inteligente essa questão tão complexa e delicada. Há cenas imperdíveis, como a visita a uma palestra do partido de extrema direita NPD, quando os dois protagonistas se dirigem ao prédio do partido sob os gritos de “Fora nazistas!” dos manifestantes que protestam na rua. Ou quando Broder, depois de uma ação provocante no monumento ao Holocausto, em Berlim, pergunta a Hamed se existem também monumentos aos muçulmanos e este responde: “Não, nós não construímos monumentos, nós construímos palácios!”. E leva o amigo para visitar uma mesquita cuja construção custou mais de três milhões de euros.

O programa vem sendo transmitido desde 4 de novembro, serão ao todo cinco domingos, e eu estou colecionando algumas frases, como essas:

“Integração é quando você age como um cafajeste, mas ninguém te leva a mal.”

“A grande vantagem da modernidade é você poder se afastar das suas origens.”

“A chave para a integração é  o humor.”

Se alguém quiser assistir, já há trechos no youtube. Os primeiros 15 minutos estão aqui:

O programa de hoje terminou com os dois participando de uma festa de rua numa cidadezinha da Baviera, onde a mesquita e a igreja vivem abertas para quem quiser entrar e todo mundo se entende numa boa. Depois de muita comida, alguma cerveja, muita conversa com bávaros de bermuda de couro e até Hamed regendo a orquestra local, que tocava música folclórica, os dois saíram da barraca convencidos: “Isso foi melhor que Yom Kippur e Ramadan juntos!” Concordo.

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Wir sind der Bahnhof!

Stuttgart não é nenhuma metrópole. Às vezes ela é chamada de Heizkessel, caldeira, mas isso é porque a cidade fica em um vale e o termômetro aqui está sempre alguns graus acima da temperatura medida nos arredores. Fervilhante não é um adjetivo que se use para descrever essa cidade.

Nos últimos tempos, porém, a cidade está realmente fervendo. A culpa não é do verão, mas de Stuttgart 21, um projeto urbanístico gigantesco que vai transformar a cidade em um canteiro de obras pelo menos nos próximos dez anos. Para modernizar as vias ferroviárias, alegando que isso permitirá encurtar as viagens, os governos municipal, estadual e federal, juntamente com a companhia ferroviária Deutsche-Bahn, decidiram reformar a estação central, que hoje é do tipo terminal, ou seja, de fim de linha, e transformá-la em uma estação subterrânea de passagem direta para os trens. Para isso, metade do prédio da antiga estação, tombado pelo patrimônio histórico, será demolido e um grande número de árvores do atual parque municipal será derrubado para as escavações. Não bastasse isso, os gastos astronômicos previstos para o projeto no início do planejamento, mais de dez anos atrás, já chegaram a mais de 4 bilhões de euros e continuam aumentando. E há também um grande risco de que o complexo sistema de fontes de águas minerais existente na região seja prejudicado seriamente.

Pouco a pouco, foi se formando uma resistência ao projeto na população. A reação inicial dos políticos locais foi aquela que todos conhecem: ignorar solemente. Só muito tarde começaram uma campanha em prol do projeto, informando sobre suas supostas vantagens. Não convenceram e o que antes era o movimento de um grupo tachado de „verdes alternativos“ virou uma ação popular em massa.

Há passeatas no mínimo duas vezes por semana. Na última falava-se de 30 mil participantes, amanhã espera-se ainda mais gente. Todos os dias, às 19 horas, centenas de pessoas pegam um apito, uma vuvuzela, um tambor, panelas ou simplesmente a própria garganta e fazem um barulho desgraçado em sinal de protesto. A cerca que protege a área onde começarão as obras lembra o muro de Berlim, coberta de cartazes, caricaturas de políticos, faixas e até cartas e desenhos de crianças. E ontem, quando a primeira ala lateral da estação começou a ser demolida, os manifestantes tomaram conta das ruas e o trânsito parou na cidade.

Começo da demoliçã6

A foto é péssima, mas quem pegar uma lupa talvez veja alguns manifestantes no telhado, em vias de pendurar uma faixa de protesto.

O que acho mais curioso nisso tudo é que as pessoas mobilizadas nesse protesto são os típicos pacatos moradores da cidade – gente de meia-idade,  famílias com crianças, aposentados, cujo sangue só entrou em ebulição porque se sentem ludibriados por políticos conservadores em quem eles mesmos votaram. O partido conservador CDU sempre foi o dono do pedaço nessa região. A oposição  no parlamento varia, os verdes têm uma boa fatia de eleitores, mas quando há eleições, ninguém duvida que a maioria será novamente do CDU, só o percentual varia. Mas parece que isso pode mudar com Stuttgart 21. Pela primeira vez em décadas, as pesquisas indicam que o partido perderia a maioria se as eleições fossem hoje. Não são, mas serão no ano que vem, quando o canteiro de obras estará a todo vapor.

Ontem, a televisão mostrou um senhor de cabeça branca treinando para se acorrentar a uma das árvores centenárias do parque municipal quando as primeiras escavadeiras chegarem. Taí uma cena que não quero perder.

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Aus aktuellem Anlass: a Europa está fervendo!

O post de ontem, sobre minha atual birra com algumas agências, merece uma continuação. Mas vou fazer um intervalo e contar para vocês um pouco de um tema gravíssimo que tem concentrado a atenção da população na Alemanha (e, provavelmente, no resto da Europa também): está fazendo um calor de matar nessa terra!

Não estou exagerando, é de matar mesmo! Quando o verão chega com força aqui, a taxa de mortalidade entre idosos realmente sobe com o termômetro. Mas as temperaturas das últimas semana têm estado sempre acima de 30, o que é um espanto, e já chegaram aos 40 mais de uma vez. Oficialmente, a temperatura mais alta medida até agora foi de 38 graus à sobra em Berlim. Nesse dia, os termômetros expostos ao sol na Potsdamer Platz chegaram a marcar 46 graus e um repórter da TV, otimista, demonstrou o lado prático da coisa fritando um ovo na placa de metal que revestia o teto de um prédio.

Os centros das cidades foram invadidos por legiões de pernas e braços ao léu. Quem não tem que manter a gravata e o paletó, por alguma obrigação cruel,  entrou para o time das bermudas e sandálias. Até nos bancos, esses redutos de sisudez, tenho visto mulheres trabalhando de bermudas. O que dá margem a combinações de vestiário das mais supreendentes nesse povo que está mais acostumado a botas e cachecóis. Sol e calor costumam ser sinônimo de férias, por aqui. Então, a ordem tem sido tirar o guarda-roupa de férias da mala e usá-lo para a próxima reunião do departamento. Um desfile que, às vezes,  me diverte, como ver alguém com uma pasta de couro na mão, camisa colorida, bermuda bege, sapato de couro marrom com meias combinando com a bermuda.

Se eu conseguisse arrumar um tempinho no fim de semana, certamente iria nadar. Mas as piscinas públicas andam abarrotadas de gente à procura de algum refresco e a água não deve andar lá muito convidativa. Pena, pois a visita a uma piscina pública, para brasileiros, é sempre um programa divertido. Assim como os cariocas seguem todo um ritual quando vão à praia — a escolha do figurino, o lugar onde sentar, quando e como “dar um mergulho” — os rituais germânicos também existem e alguns são de arrepiar, apesar do calor.

Meu exemplo preferido é o troca-troca de biquíni, calção e maiô. Lembrando que estamos num país onde o normal é fazer frio, aqui niguém sai da água e fica molhado na sombra para se refrescar. Não senhor, onde é que estamos? Isso é problema nos rins na certa, resfriado, dores de ouvido, a bexiga se vinga e lá vem a temida infecção — Blasenentzündung! Aqui você tem que ter dois biquínis na bolsa: uma para ficar sequinha no sol, outro para nadar. Então, antes de cair na água, todo mundo se enrola na toalha, primeiro a parte de cima, depois a de baixo, sai um biquíni vermelho, entra um azul, sai o calção de florzinhas, entra a sunga, e por aí vai. E não pensem que isso é feito nas cabines. Não, é ali mesmo, no gramado, com todo mundo em volta. Não sei como eles conseguem, pois é preciso habilidade, mas a toalha cobre o essencial, desde que o vizinho não esteja deitado diretamente ao lado e caia na besteira de abrir o olho na hora errada. Já levei sustos homéricos ao me virar na grama e dar de cara com um desses contorcionistas no momento errado.

Já começo também a notar que as pessoas têm adotado um hábito que conheço do Brasil: entrar nas lojas, bancos ou centros comerciais só para se refrescar no ar condicionado. Obviamente, essa grande invenção ainda não existe aqui em muitos prédios, já que era desnecessária até agora. Mas se as mudanças climáticas continuarem desse jeito, e tudo leva a crer que sim, alguma coisa terá que acontecer. Há alguns dias, o ar-condicionado de um trem ICE quebrou. O trem parou numa estação e todos os passageiros foram transferidos para outro ICE que, além de ficar superlotado, também estava sem ar-condicionado. Resultado: um monte de gente passou mal, tiveram que chamar ambulâncias, interromper a viagem e a Deutsche Bahn está em vias de ser levada à justiça.

Eu também não tenho ar-condicionado. Aliás, nem geladeira no meu escritório eu tenho. É um lindo prédio antigo, romântico e totalmente impróprio para trabalhar no verão. Por isso, eu adotei a moda e hoje vim trabalhar de bermuda e sandália. Mas o ventinho quente do meu ventilador não está dando conta e minha água mineral, apesar de ser sem gás, já ficou efervescente. Por isso, vou pegar minha pastinha de couro, com meu laptop e meus papeis, e vou para casa, desfilando nas ruas com a última moda alemã.

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Futebol e integração

Fiquei quase um mês sem escrever porque a coisa aqui andou pegando. Mas a Copa começou e, com ela, a lista de assuntos interessantes para o blog está crescendo. Então resolvi dar o meu pontapé inicial.

Os estrangeiros que se naturalizam na Alemanha passam por um teste de alemão, oferecido por uma empresa parceira do governo federal, a TELC. Essa empresa organiza não só as provas, mas também os chamados cursos de integração oferecidos aos emigrantes estrangeiros, um misto de curso de lingua e introdução à cultura alemã.

Hoje essa empresa me enviou um cartaz fazendo propaganda desses cursos com um brasileiro, o jogador Cacau que no domingo passado fez um belo gol pela seleção alemã. Cacau joga no time de Stuttgart, é um dos pouquíssimos jogadores brasileiros que fala bem alemão e se naturalizou no país. Ele próprio afirma que a língua foi um dos fatores que o ajudou a se integrar na sociedade alemã e, por isso mesmo, foi escolhido pela TELC como “embaixador do multilinguismo e da integração”.

Não há dúvida que ele tem razão. Ninguém pode se sentir em casa enquanto não for capaz de se comunicar com os outros moradores. Mas eu acho que o que abriu o coração dos alemães para o Cacau entrar, além do sorriso simpático e o jeito simples que ele tem, foram os gols. Ele literalmente vestiu a camisa do Stuttgart e briga para ganhar com o time. E está fazendo o mesmo na seleção alemã. Aí, ninguém mais quer saber se ele nasceu no lado de cá ou de lá do Atlântico. Para os alemães, ele nasceu no campo do Stuttgart. E ainda por cima tem um nome fácil de pronunciar! (Agora mesmo, com o o primeiro jogo do Brasil em vias de começar, a repórter alemã corrigiu Oliver Khan, que havia pronunciado Grafite corretamente, para dizer que o certo é “Grafitê”; Robinho também virou “Rôbinhô”.)

Mas a seleção alemã está cheia de nomes nada germânicos, o que é mais que uma simples curiosidade e vai ficar para o próximo post porque agora, se me dão licença, vou ali pegar minha bandeirinha verde-amarela e torcer pelo meu time.

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Lançamento do livro do Fabio M. Said

Oi pessoal!

Um lembrete. Não se esqueçam do lançamento do livro do Fabio Said neste fim de semana, dia 30 de abril. Pelo sumário é possível ter uma ideia do conteúdo do livro que vai tratar da tradução pelo seu lado prático, o que, pelo menos para mim, é mais interessante do que vários livros de teoria da tradução. Quem quiser saber mais sobre o lançamento e o livro clique aqui.

Abraços do André.

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E com vocês, o verdadeiro HB-Männchen!

Nos posts anteriores, nos esquecemos de apresentar a personagem mais importante nessa história: o HB-Männchen.  Esse senhor era a figura principal da antiga campanha publicitária dos cigarros HB na Alemanha — aliás, nem sei mais se essa marca existe. A campanha seria impensável nesses nossos tempos de leis antitabagismo. Mostra um homenzinho (por isso Männchen) às voltas com problemas absurdos, que vai se esquentando até explodir como um foguete. E a única coisa que o acalma é fumar um HB. A figura virou sinônimo de gente esquentada. Mas vejam vocês mesmos uma propaganda original.

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HB-Frauchen

A vantagem de ter dois autores no blog é essa: nem sempre somos da mesma opinião. E como a nossa proposta é mesmo trazer para cá as nossas conversas e partilhá-las com vocês, é isso que eu, Bete, vou fazer agora.

Concordo com o André quando diz que mulheres, infelizmente, nem sempre são levadas a sério quando reclamam ou exigem seus direitos. Mas questiono se isso é uma característica particularmente brasileira e, principalmente, se as coisas na Alemanha são assim tão diferentes. E mais: mesmo correndo o risco de levar paulada, pergunto se essa “falta de respeito” não é resultado também da postura que muitas de nós, mulheres, assumimos voluntariamente, tentando ser boazinhas e educadas (e não me excluo desse grupo). Mas vamos por partes.

Quando saí do Brasil, com 23 anos, eu não era exatamente um exemplo de mulher emancipada. Para falar a verdade, essa questão nunca me interessou muito e continua me interessando pouco. Afinal, o que é “emancipada”? Ganhar seu próprio dinheiro, morar sozinha, viver com o namorado mesmo sem casar, fazer topless na praia, comprar briga sem medo? Só isso? Eu morava com meus pais, exercia uma profissão que me dava satisfação e pouco dinheiro, tinha os amigos que queria, estudava o que queria, estava razoavelmente satisfeita com a vida que levava. Isso devia ser emancipação suficiente.

Nos primeiros anos de Alemanha, como meu marido ainda estudava e naquela época os cursos à noite ainda não haviam chegado nesse país tremendamente desenvolvido, quem ganhou dinheiro para pagar aluguel e despesas da casa fui eu. Minhas amigas brasileiras achavam isso muito natural. As alemãs perguntavam por quanto tempo eu ainda planejava fazer isso e o que faria quando engravidasse. Foi a primeira vez que ouvi essa pergunta — filhos ou trabalho? Na minha terra e no círculo de pessoas com quem eu convivia, não era preciso escolher,  era normal seguir a vida com as duas coisas, dá-se um jeito. Para minha surpresa, muitas alemãs emancipadas, que levavam o namoradinho para dormir com elas em casa já aos 17 anos, desistiam de suas profissões assim que um marido aparecia acenando com um bom salário. Já meu pai, um cara extremamente conservador, que se contorcia ao ver as filhas de saia curta e reclamava quando elas chegavam em casa depois da meia-noite, mesmo depois dos 18 anos, queria que as filhas tivessem uma profissão para “não depender de marido se um dia ele tratar ela mal”. Onde está aqui a emancipação?

Conheci muitas brasileiras que sofreram no mercado de trabalho alemão por não serem tratadas da mesma forma que os homens. Principalmente nas profissões técnicas e nas grandes empresas alemãs, as mulheres ainda são vistas frequentemente em cargos com menos responsabilidade e quase sempre ganhando menos que os colegas que exercem exatamente a mesma função. De fato, a diferença entre os salários de homens e mulheres vem aumentando nos últimos anos e hoje gira em torno de 23%, como mostra um artigo na revista Der Spiegel. Embora esse fenômeno não seja exclusivamente alemão, já que ele existe também em muitos outros países, isso talvez corrija um pouco a imagem da alemã emancipada. O mesmo artigo indica, por exemplo, que essa diferença é menor em países europeus tidos como mais “machistas”, como Portugal e Itália (que tem o menor índice, com apenas 4,9%).

Mais que isso, o que me chama a atenção na sociedade alemã é a associação feita entre mulher bem-sucedida e comportamento masculinizado (uso a palavra na falta de coisa melhor no momento). Explico com uma historinha vivida há muitos anos e que me ensinou como as coisas funcionam por aqui. Eu estava na fila da sorveteria, esperando ser atendida. Quando chegou a minha vez, um grandalhão atrás de mim soltou a voz de tenor pedindo o sorvete dele. Eu olhei para trás e disse que eu estava na frente. Ele respondeu que eu não tinha dito nada, então eu perguntei: “O senhor quer que eu faça o quê, que eu grite?”. E a resposta foi “Na klar!”  (claro!).  Ali eu aprendi que os alemães levam você  mais a sério se você falar alto. Entendi por que meu marido tinha brigas homéricas com a mãe por causa de merrecas e por que minha sogra era uma pessoa que se exaltava ao telefone para pedir uma simples informação. As pessoas na Alemanha falam alto para serem realmente ouvidas. E isso é uma característica que se encontra também no mundo profissional. Muitas das mulheres em cargos de chefia nas empresas alemãs têm um perfil dominante e são às vezes mais temidas que seus colegas homens. Para serem vistas, ouvidas, “respeitadas”, elas tendem a exagerar.

Pessoalmente, tenho dúvidas se essa é uma estratégia que funciona bem no Brasil. A começar pelo fato de que falar alto nem sempre dá bons resultados entre brasileiros, seja o grito dado por um homem ou uma mulher. Muitas vezes o que pode acontecer é o tiro sair pela culatra e você não receber o que é seu direito, justamente porque gritou.

Minha mãe, por exemplo, adora gritar, pelo menos dentro de casa e principalmente com a empregada. E vive reclamando que tudo ficou difícil depois que meu pai morreu, que uma mulher não é levada a sério pelos homens, que se fosse meu pai resolvendo as coisas, os problemas não existiriam. Mas, outro dia, ela precisou ir à Cedae resolver um problema de abastecimento de água no apartamento de um inquilino. Primeiro, foi sozinha, conversou com um rapaz “muito educadinho”, jogou aquela conversa dos cabelos brancos, a dor na coluna, o dinheiro pouco da aposentadoria. O rapaz explicou lá para ela um jeito de resolver a coisa e pediu que voltasse outro dia com mais um documento qualquer. Ela voltou, dessa vez levando o inquilino, pois achava que ele, como homem, saberia explicar e entender melhor a coisa. Deu uma confusão danada, o inquilino é um tipo esquentado, o rapaz “educadinho” esqueceu dos bons modos e mandou o inquilino ver se ele estava na esquina. Ontem minha mãe me disse que vai voltar à Cedae. Quando eu perguntei se vai levar o inquilino, a resposta veio rápida: “Deus que me livre! Ele só ia complicar ainda mais, eu vou sozinha!”.

Ou seja, a HB-Frauchen pode funcionar bem na Alemanha. Mas no Brasil, tenho minhas dúvidas.

O que precisamos, sejamos nós mulheres ou homens, é simplesmente ter mais consciência de nossos direitos e não ter medo de exigi-los quando chegar a hora. Se isso vai ser feito no grito ou não, é uma escolha pessoal. Eu não gosto de gritar, faz mal à garganta. Mas dizem que minha veia na testa cresce quando a coisa começa a ficar séria.

Haveria outras coisas para discutir, como a imagem dos homens alemães que colaboram nos afazeres domésticos e os brasileiros boas-vidas que mal sabem fritar um ovo. Há muito folclore nisso, mas é conversa demais para um post só. Por isso, passo a palavra para quem quiser comentar.

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O calote

Fala o André

Esta semana me deparei com uma situação que até o momento só havia ouvido falar por terceiros – “alguém me contou uma vez que tinha um amigo que levou um calote”. E eu pensava “bem, coitado dele, ainda bem que nunca aconteceu comigo…”. Pois bem, esse dia chegou! Chegou a minha vez…

Não tenho como descrever o sentimento. Recebi o e-mail da cliente dizendo os motivos “O senhor entregou o trabalho com alguns dias de atraso”, e eu respondi “mas Frau XXXX, a senhora já sabia dos motivos do atraso quando me passou o trabalho, eu lhe disse que viajaria ao Brasil e estava certo de que não haveria tempo suficiente para entregar a tradução. De mais a mais, lhe disse também que a tradução anterior estava muito mal feita, mandei a lista de erros crassos e levei algum tempo revisando a tradução anterior”. E o pior foi ficar escutando a “dita cuja” no telefone querendo me convencer de que eu estava errado!!!! Que desaforo!!! E depois ainda fiquei com raiva de mim mesmo porque fui idiota o bastante para querer impressionar um novo cliente (era o primeiro trabalho para a tal agência), “achando” que estava fazendo um bom trabalho, adicionando a revisão! Certo estava um chefe holandês que eu tinha e dizia “Quem acha não sabe nada!”.

O pior foi escutar o que a “infeliz” disse quando a avisei que iria acionar meu advogado para ingressar com um processo de cobrança judicial – “Ich freue mich drauf!” (“Não estou nem aí”). Não tenho palavras para explicar o sentimento de impotência no momento…

Já sei que o erro cometido foi não ter escrito e pedido a confirmação do adiamento da data de entrega. Em vez disso, como com tantos outros clientes, com os quais trabalho até hoje e que sempre se portaram com profissionalismo, a conversa ficou só no telefone. Nunca tive problemas nos pouco mais de dez anos que trabalho como tradutor. Na Alemanha, aprendi que a palavra do outro tem muito valor e os alemães me ensinaram a respeitar isso. Pois bem, encontrei a ovelha negra entre eles…

Mas não quero que pensem que calote é algo normal. Como já disse, nunca havia me acontecido antes. E tenho orgulho dos meus clientes, pois sempre me pagaram corretamente.

O meu consolo esta semana veio de alguns artigos escritos pelo Danilo Nogueira no seu blog. Um deles principalmente, que não encontro para citar literalmente no momento, mas cuja essência era essa – “não fique chorando pelo trabalho não pago porque você vai perder um tempo que poderia estar empregando em fazer captação de clientes”.

Assim, segui os conselhos deste profissional. Depois de conversar com uma outra profissional que respeito muito e amiga de muitos anos, a Bete Köninger, me convenci a postar este artigo. Estava mesmo com vergonha de escrever sobre isso, achando que estava errado. Mas meu erro foi querer oferecer um bom trabalho para um cliente que não dá o mínimo valor a isso. E que, quem sabe, talvez já estivesse agindo de má-fé antes mesmo de me mandar o trabalho.

Só posso dizer que estou muito triste por isso tudo e o dinheiro, que não é pouco, vai me fazer falta. Mas espero recebê-lo um dia. Enquanto não o recebo, vou atrás de clientes melhores…

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