Arquivo da categoria: Brasil

Lançamento do livro do Fabio M. Said

Oi pessoal!

Um lembrete. Não se esqueçam do lançamento do livro do Fabio Said neste fim de semana, dia 30 de abril. Pelo sumário é possível ter uma ideia do conteúdo do livro que vai tratar da tradução pelo seu lado prático, o que, pelo menos para mim, é mais interessante do que vários livros de teoria da tradução. Quem quiser saber mais sobre o lançamento e o livro clique aqui.

Abraços do André.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Livros

HB-Frauchen

A vantagem de ter dois autores no blog é essa: nem sempre somos da mesma opinião. E como a nossa proposta é mesmo trazer para cá as nossas conversas e partilhá-las com vocês, é isso que eu, Bete, vou fazer agora.

Concordo com o André quando diz que mulheres, infelizmente, nem sempre são levadas a sério quando reclamam ou exigem seus direitos. Mas questiono se isso é uma característica particularmente brasileira e, principalmente, se as coisas na Alemanha são assim tão diferentes. E mais: mesmo correndo o risco de levar paulada, pergunto se essa “falta de respeito” não é resultado também da postura que muitas de nós, mulheres, assumimos voluntariamente, tentando ser boazinhas e educadas (e não me excluo desse grupo). Mas vamos por partes.

Quando saí do Brasil, com 23 anos, eu não era exatamente um exemplo de mulher emancipada. Para falar a verdade, essa questão nunca me interessou muito e continua me interessando pouco. Afinal, o que é “emancipada”? Ganhar seu próprio dinheiro, morar sozinha, viver com o namorado mesmo sem casar, fazer topless na praia, comprar briga sem medo? Só isso? Eu morava com meus pais, exercia uma profissão que me dava satisfação e pouco dinheiro, tinha os amigos que queria, estudava o que queria, estava razoavelmente satisfeita com a vida que levava. Isso devia ser emancipação suficiente.

Nos primeiros anos de Alemanha, como meu marido ainda estudava e naquela época os cursos à noite ainda não haviam chegado nesse país tremendamente desenvolvido, quem ganhou dinheiro para pagar aluguel e despesas da casa fui eu. Minhas amigas brasileiras achavam isso muito natural. As alemãs perguntavam por quanto tempo eu ainda planejava fazer isso e o que faria quando engravidasse. Foi a primeira vez que ouvi essa pergunta — filhos ou trabalho? Na minha terra e no círculo de pessoas com quem eu convivia, não era preciso escolher,  era normal seguir a vida com as duas coisas, dá-se um jeito. Para minha surpresa, muitas alemãs emancipadas, que levavam o namoradinho para dormir com elas em casa já aos 17 anos, desistiam de suas profissões assim que um marido aparecia acenando com um bom salário. Já meu pai, um cara extremamente conservador, que se contorcia ao ver as filhas de saia curta e reclamava quando elas chegavam em casa depois da meia-noite, mesmo depois dos 18 anos, queria que as filhas tivessem uma profissão para “não depender de marido se um dia ele tratar ela mal”. Onde está aqui a emancipação?

Conheci muitas brasileiras que sofreram no mercado de trabalho alemão por não serem tratadas da mesma forma que os homens. Principalmente nas profissões técnicas e nas grandes empresas alemãs, as mulheres ainda são vistas frequentemente em cargos com menos responsabilidade e quase sempre ganhando menos que os colegas que exercem exatamente a mesma função. De fato, a diferença entre os salários de homens e mulheres vem aumentando nos últimos anos e hoje gira em torno de 23%, como mostra um artigo na revista Der Spiegel. Embora esse fenômeno não seja exclusivamente alemão, já que ele existe também em muitos outros países, isso talvez corrija um pouco a imagem da alemã emancipada. O mesmo artigo indica, por exemplo, que essa diferença é menor em países europeus tidos como mais “machistas”, como Portugal e Itália (que tem o menor índice, com apenas 4,9%).

Mais que isso, o que me chama a atenção na sociedade alemã é a associação feita entre mulher bem-sucedida e comportamento masculinizado (uso a palavra na falta de coisa melhor no momento). Explico com uma historinha vivida há muitos anos e que me ensinou como as coisas funcionam por aqui. Eu estava na fila da sorveteria, esperando ser atendida. Quando chegou a minha vez, um grandalhão atrás de mim soltou a voz de tenor pedindo o sorvete dele. Eu olhei para trás e disse que eu estava na frente. Ele respondeu que eu não tinha dito nada, então eu perguntei: “O senhor quer que eu faça o quê, que eu grite?”. E a resposta foi “Na klar!”  (claro!).  Ali eu aprendi que os alemães levam você  mais a sério se você falar alto. Entendi por que meu marido tinha brigas homéricas com a mãe por causa de merrecas e por que minha sogra era uma pessoa que se exaltava ao telefone para pedir uma simples informação. As pessoas na Alemanha falam alto para serem realmente ouvidas. E isso é uma característica que se encontra também no mundo profissional. Muitas das mulheres em cargos de chefia nas empresas alemãs têm um perfil dominante e são às vezes mais temidas que seus colegas homens. Para serem vistas, ouvidas, “respeitadas”, elas tendem a exagerar.

Pessoalmente, tenho dúvidas se essa é uma estratégia que funciona bem no Brasil. A começar pelo fato de que falar alto nem sempre dá bons resultados entre brasileiros, seja o grito dado por um homem ou uma mulher. Muitas vezes o que pode acontecer é o tiro sair pela culatra e você não receber o que é seu direito, justamente porque gritou.

Minha mãe, por exemplo, adora gritar, pelo menos dentro de casa e principalmente com a empregada. E vive reclamando que tudo ficou difícil depois que meu pai morreu, que uma mulher não é levada a sério pelos homens, que se fosse meu pai resolvendo as coisas, os problemas não existiriam. Mas, outro dia, ela precisou ir à Cedae resolver um problema de abastecimento de água no apartamento de um inquilino. Primeiro, foi sozinha, conversou com um rapaz “muito educadinho”, jogou aquela conversa dos cabelos brancos, a dor na coluna, o dinheiro pouco da aposentadoria. O rapaz explicou lá para ela um jeito de resolver a coisa e pediu que voltasse outro dia com mais um documento qualquer. Ela voltou, dessa vez levando o inquilino, pois achava que ele, como homem, saberia explicar e entender melhor a coisa. Deu uma confusão danada, o inquilino é um tipo esquentado, o rapaz “educadinho” esqueceu dos bons modos e mandou o inquilino ver se ele estava na esquina. Ontem minha mãe me disse que vai voltar à Cedae. Quando eu perguntei se vai levar o inquilino, a resposta veio rápida: “Deus que me livre! Ele só ia complicar ainda mais, eu vou sozinha!”.

Ou seja, a HB-Frauchen pode funcionar bem na Alemanha. Mas no Brasil, tenho minhas dúvidas.

O que precisamos, sejamos nós mulheres ou homens, é simplesmente ter mais consciência de nossos direitos e não ter medo de exigi-los quando chegar a hora. Se isso vai ser feito no grito ou não, é uma escolha pessoal. Eu não gosto de gritar, faz mal à garganta. Mas dizem que minha veia na testa cresce quando a coisa começa a ficar séria.

Haveria outras coisas para discutir, como a imagem dos homens alemães que colaboram nos afazeres domésticos e os brasileiros boas-vidas que mal sabem fritar um ovo. Há muito folclore nisso, mas é conversa demais para um post só. Por isso, passo a palavra para quem quiser comentar.

2 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Comportamento, Uncategorized

Curso no CITRAT

O CITRAT estará oferecendo de 12.04 a 24.05 um curso sobre novas tecnologias aplicadas à tradução.

Nunca tive a oportunidade de fazer um curso lá, mas a USP é uma instituição de respeito, então creio que deva valer a pena. Quem quiser saber mais, clique aqui.

Também agradeço se alguém, que tiver feito cursos lá, fizer comentários aqui no blog.

Escreveu o André

Deixe um comentário

Arquivado em Brasil, Cursos

Stress ou estresse?

É a Bete falando.

Estava eu outro dia no skype, contando ao meu marido as peripécias dos meus últimos confrontos com a baderna e a burocracia brasileiras, quando ele de repente me diz:  “Mas o que há com você? Nunca te vi tão estressada!” Eu olhei para a minha imagem no cantinho do monitor e vi que ele tinha razão. Aquela mulher meio descabelada e tensa ali não era eu.  Ou será que era?

Sempre pensei que estresse era uma coisa que só aparecia na minha vida quando estava na Alemanha. Explico: lá eu tenho uma sensação constante de premência, de correr atrás do tempo, de estar resolvendo uma coisa já pensando nas que vêm pela frente. Há teorias que explicam isso. O antropólogo Edward T. Hall, por exemplo, afirma que um dos aspectos importantes para entender uma cultura é a sua percepção de tempo. Ele divide culturas em policrônicas e monocrônicas. Os alemães pertenceriam ao último grupo. Para eles, o tempo é uma coisa linear, com começo, meio e fim definidos. Por isso,  a agenda, o planejamento e a execução de tarefas uma após a outra, dentro do tempo previsto,  são tão importantes. Se você vive nesse sistema e quer ver as coisas funcionando para o seu lado, é melhor adaptar seu reloginho interno a essa realidade.

O mesmo autor situa culturas “latinas” — e lá estamos nós, brasileiros — no lado dos policrônicos. Para esses, o tempo é como borracha, uma coisa mais ou menos amorfa que você pode esticar ou espremer, conforme a necessidade do momento. Para essas pessoas, o que acontece agora geralmente tem prioridade e elas são capazes de realizar várias tarefas ao mesmo tempo sem sofrer muito com isso. Aquelas expressões  “o que passou, passou” ou “o que será, será” não são apenas clichê, elas exprimem verdadeiramente um jeito de estar no mundo.

Para mim, que cresci em meio a um bando de policrônicos, é natural que a convivência com monocrônicos produza estresse. Eu não sabia a diferença que um mísero minuto pode fazer, até chegar no ponto de ônibus às 14.43 e descobrir que tinha perdido o das 14.42 e teria que ficar esperando 20 minutos na neve e a uma temperatura abaixo de zero. Isso é stress, à moda alemã. Porque estresse é outra coisa.

Estresse é o que eu estava sentindo enquanto relatava meu desespero no skype. O que tinha acontecido para eu ficar naquele estado foi mais ou menos isso:

Há semanas eu vinha tentando solucionar um problema simples com minha operadora de celular. Depois de ter tentado várias vezes pela internet, de ter mandado e-mails e telefonado, haviam me dito que eu poderia resolver tudo facilmente numa loja da operadora. Beleza, pensei! Eu tinha um compromisso no centro da cidade. Dali, pegaria o ônibus até um shopping onde, segundo a atendente havia me garantido,  havia uma loja para resolver meu problema. Lá chegando, porém, nada feito. Embora a loja fosse aquela mesmo, a questão tinha que ser resolvida pela central de atendimento telefônico. Ou seja, eu teria que ligar pela centésima vez, repetir toda a ladainha, começar tudo de novo. Aquilo já durava mais de um mês! Em vez de pular no pescoço do funcionário, eu disse que então preferia cancelar meu plano. E a resposta foi que isso também era coisa que só a famigerada central de atendimento poderia resolver. Saí dali fumegando, atravessei a cidade, peguei uma barca lotada, cheguei em casa encharcada pela chuva e resolvi esquecer a coisa por uns dias, pois ia passar o fim de semana na casa da minha irmã, pertinho da praia. Tinha um serviço pequeno para entregar na segunda-feira, que levei comigo e terminei sem problemas. No domingo, voltei de ônibus para a Ilha com minha mãe e escapamos de um toró que fechou o aeroporto. Só que, chegando em casa, não havia luz. Sem luz, necas de internet. Tudo bem, pensei, amanhã cedo a luz já voltou e eu mando o serviço. Mas, como vocês já devem estar adivinhando, a luz não voltou. Depois de uma noite passada com um calor infernal, com portas e janelas da varanda fechadas, pelo risco de assalto na escuridão, saí cedo para o próximo shopping, na esperança de encontrar uma praça da alimentação com tomadas para recarregar o notebook e acesso à internet. As tomadas estavam lá, mas a internet resolveu tirar férias naquele dia. Tomei um guaraná, para não sair dali de mãos abanando, e voltei frustrada, angustiada com a entrega do serviço e totalmente estressada. Horas depois, a luz chegou e foi então que liguei para o meu marido.

Estresse no Brasil, para mim, é isso: a convivência diária com a mais total insegurança. Não a tão falada insegurança ligada à violência. Essa, obviamente, também tem seu papel — não fosse por ela, eu teria dormido melhor com as janelas abertas. Mas o duro mesmo é você acordar de manhã pensando que vai fazer isso e aquilo e descobrir que você não decide nada, e que deve dar graças a Ele lá em cima se conseguir voltar para casa, pelo menos, de pés secos. É a insegurança de tentar planejar, sabendo que tudo pode e provavelmente vai sair ao contrário. A insegurança de saber dos seus direitos, mas saber também que nem todo mundo está ligando para isso. Coisas pequenas, como pagar 25 reais por uma recarga do seu pré-pago, o código ser recusado como inválido e ninguém dar jeito nisso, mesmo que você tenha feito tudo direitinho. Coisas como ver a insulina da sua mãe se estragar na geladeira e não conseguir falar com alguém na Light para ter uma previsão de quando a luz vai voltar. Coisas como pedir uma informação em órgão público e ouvir três respostas diferentes no mesmo departamento.  Isso é estresse.

Para relaxar, eu tento ver o que eu ganho no meio disso tudo. O jogo de cintura policrônico já foi vantagem várias vezes na Alemanha. Por outro lado, foram os monocrônicos que me ensinaram a usar de verdade uma agenda, e foi com eles que descobri que uma hora não tem mais ou menos 60 minutos. São 60 e ponto final. Não acredita? Então pergunte a um motorista de ônibus alemão!

7 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Cultura, Hábitos, Uncategorized

Congresso da ABRATES

O congresso estava muito bom e se tivesse findado no sábado, já teria valido todo o investimento. O cansaço da viagem, o atraso do voo, pegar táxi, ir para o hotel, deixar a bagagem e partir para o evento sem tempo para descansar ou almoçar, já deixa cansado só de ler, mas a recompensa é clara e deixa um gostinho de “tomara que o próximo não demore muito!”.

Conhecer colegas com os quais só tenho a oportunidade de falar virtualmente,  rever outros que já passaram da relação do mundo virtual para o mundo real, ver as boas palestras realizadas com muito profissionalismo, enfim fazer bons contatos e, mais do que tudo, trocar experiências válidas, dando umas boas risadas de algumas histórias.

A palestra do Keynote Speaker João Roque Dias “A Babel Global: Crise ou Loucura” foi excelente e colaborou para elevar o sentimento de que o congresso estava muito bom. Espero mesmo que a ABRATES disponibilize as palestas em CD-ROM ou para baixar. Seria ótimo poder ver todas as palestras e aprender um pouco mais.

Foi o primeiro congresso do qual participei e confesso que fui meio receoso com relação ao resultado. Esse receio acabou e espero convencer outros colegas a participar da próxima vez.

Aproveito para recomendar o congresso da TRADULÍNGUAS em Lisboa. O João Roque Dias está organizando o „International Technical Translation Conference“ marcado para os dias 28 e 29 de maio e informou que será um evento com participação limitada (somente 190 participantes). Para acessar a página do evento clique aqui.

Abro parênteses para fazer um comentário. Ouvi dizer que a Renate estava muito aborrecida em Berlim por não poder ir a Porto Alegre. Bem, o próximo congresso não tardará e a Renate com certeza vai poder estar lá, nos dando o prazer da sua companhia.

Vou ficando por aqui e desejando a todos um bom início de semana para aqueles que já voltaram e um bom resto de congresso para os que ficaram em Porto Alegre.

Como ainda não descobrimos como assinar cada artigo, informo que esse aqui é do André.

1 comentário

Arquivado em Brasil, Eventos

Silvester e São Silvestre

Quando estamos na Alemanha, nossas passagens de ano costumam ser assim: um frio de rachar, todo mundo na varanda, envolto em luvas e cachecóis, com uma taça de champanhe na mão, batendo os dentes, contagem regressiva até os fogos estourarem pela cidade, todos se abraçam, “Alles Gute im neuen Jahr!” e ficamos ali tiritando e vendo o céu ser tomado por chuvas brilhantes de todas as cores. Depois de dez minutos, ninguém mais aguenta e voltamos para a sala quentinha, onde mais champanhe nos aguarda e uma sopa de lentilha, para aquecer e dar sorte. Isso é Silvester.

No Brasil, é óbvio, ninguém fica tiritando na varanda. Estamos pouco abaixo do Equador, onde, sabidamente, todos andam quase pelados e suando em bicas. Eu nunca fui muito chegada a festas de arromba e só virei o ano uma única vez em Copacabana – honra seja feita, gostei. Mas minha maneira preferida de festejar a chegada do ano novo, quando estou no Brasil, é na beira de alguma praia menos visitada, de bermuda, camiseta e havaianas, com minha família e alguns amigos por perto. Sem alardes, sem grandes expectativas, com alguma tranquilidade, abraços sinceros e uma bebida gelada para matar a sede. Para mim, isso é começar o ano com o pé direito.

Este ano, porém, nem uma coisa, nem outra. Nossa viagem para a Alemanha foi justamente na noite do dia 31. Pela primeira vez, íamos passar a meia-noite longe de tudo, numa cabine de avião. Muita gente tentou nos consolar, dizendo que as companhias aéreas costumam servir champanhe ou algum extra por conta da data especial. Outros nos olhavam com uma certa compaixão. Mas nós estávamos satisfeitos, sabendo que íamos economizar uns 400 euros por pessoa escolhendo esta data. Só não contávamos com um detalhe: a chuva torrencial que assolou o Brasil em dezembro e transformou a nossa partida numa pequena aventura.

Já no dia anterior, depois de passar a manhã na praia, um temporal nos obrigou a ficar em Niterói até tarde da noite, esperando a situação nas ruas melhorar. Enquanto isso não acontecia, o carro da minha irmã enguiçou e teve de ser rebocado, deixando-a na chuva com um grupo de visitantes vindos do Nordeste para o fim de ano na cidade maravilhosa. Levei uma parte do grupo para casa no meu carro, mostrando algumas das nossas maravilhas: ruas inundadas, camuflando buracos insuspeitados, e motoristas de ônibus decididos a nos mostrar quem manda nas ruas, quer dizer, eles. Em um trecho particularmente cheio d’água, um ônibus vindo no sentido contrário e dois que nos ultrapassavam pela direita me deram a sensação de estar dirigindo sob as Cataratas do Iguaçú. Durante alguns segundos, não vimos nada além de água, muita água por todos os lados. Momentos inesquecíveis para os turistas dentro do carro, inclusive o meu alemão, que já é de casa, mas que, naquele momento, perdeu todo o bronzeado adquirido na praia.

Chuva à vista

Até aqui, estava tudo bem.

Depois de passar a tarde e parte da noite esperando a chuva estiar, lá fomos nós a caminho da ponte e da Linha Vermelha, rezando para que a água já tivesse baixado e para não encontrar pelo caminho os motoristas dos três ônibus assassinos. Chegamos sãos, salvos e secos. A chuva continuou durante toda a noite.

No dia seguinte, céu nublado, mas sem chuva, fizemos as malas e nos preparamos para sair de casa com antecedência. O caminho de casa até o Galeão não leva mais que uns 15 minutos, então saímos umas três horas antes. O que não sabíamos é que tinha começado a chover novamente no outro lado da cidade e que a Avenida Brasil estava, mais uma vez, alagada. E Avenida Brasil intransitável significa ruas interditadas na Ilha do Governador. Antes de chegar à via principal do bairro, já enxergamos o mega engarrafamento de longe. Dei meia volta e peguei uma via alternativa, mesmo não gostando da ideia de passar por uma favela e temendo os efeitos da chuva ali também. No meio do caminho, depois da favela, deparamos com um grupo de carros parados. Quando vimos alguns subindo na calçada, já sabíamos: água. E não era pouca. Um carro da polícia tentava atravessar pela calçada, também já coberta pela água. Havia três carros atolados na lama do canteiro central, depois de tentar atravessar para a pista na contramão, um deles uma picape. De cara para o mar barrento à minha frente, fiquei esperando enquanto uma outra caminhonete atravessava o aguaceiro, deixando atrás uma pequena pororoca. Quando o fenômeno acabou, respirei fundo, engatei a primeira e lá fui eu com o pé no acelerador e todos os santos ajudando, mais a torcida do marido que repetia “vai, vai , vai, vai”. Quando cheguei do outro lado e o carro continuou andando, senti falta de um pódio para subir e pegar meu troféu. Mas era cedo para isso.

Faltando uns 100 metros para pegar a rua que leva ao aeroporto, ficamos presos num trecho do engarrafamento gigante que paralisava o trânsito na Ilha. Levamos uma meia hora para sair dali, usando de todos os recursos para nos adiantar: cortar caminho pelo ponto de ônibus, subir um trecho na calçada, buzinadas, xingamentos, súplicas e a mão pela janela, com o polegar para cima, dando um “aí, valeu” a todos que nos deixavam passar. Quando finalmente entramos para o Antonio Carlos Jobim, juro que tive vontade de cantar o Samba do Avião, pois minha alma realmente cantava, embora o motivo não fosse a água brilhando, mas a pista chegando.

No fim, tudo deu certo. Carro entregue, vistoria feita sem problemas, check-in rápido, deu até tempo de comer um último pão de queijo e comprar revistas na sala de embarque. Foi a nossa corrida de São Silvestre.

O epílogo foi menos emocionante. Pegamos a conexão em São Paulo e ficamos aguardando a decolagem na pista, vendo os fogos da meia-noite pela janelinha. A tripulação anunciou uma taça de espumante como cortesia para todos os passageiros, mas devem ter calculado mal a quantidade, pois a nossa e outras fileiras vizinhas ficaram só na vontade. Foi o primeiro ensinamento do ano: não adianta ficar sentado esperando, tem que correr atrás para conseguir o que se quer. Que venha 2010!

7 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Hábitos, Viagem

Beijos

Vou confessar: nunca gostei muito que me chamassem de querida. Sempre me pareceu um palavra desperdiçada, na maioria das vezes dita sem muita convicção. E também nunca fui de mandar beijos para qualquer um, prefiro terminar minhas mensagens com um honesto “abraço”.

Talvez por isso tenha me adaptado bem àquilo que muitos brasileiros chamam de “o jeito frio” dos alemães, mas que eu prefiro chamar de pragmatismo. No trabalho, acho muito mais prático receber um telefonema e a pessoa já ir logo dizendo: bom dia, sou fulano de tal e gostaria de saber isso assim e assado. Principalmente naqueles dias em que o prazo é curto e você já nem sabe para onde correr, não há nada pior do que atender o telefone e a conversa começar assim:

– Escritório de tradução, bom dia.

­– Bom dia, com quem eu falo?

– Bete.

– Bete, querida! Eu estou com um probleminha, será que você pode me ajudar?

E aí vem primeiro a história da vida de alguém que eu nem conheço e que, na verdade, precisa apenas da tradução da carteira de motorista. Podia ser resolvido em cinco minutos, mas vira quase uma conversa de comadres e termina com “beijos e obrigada, viu, querida?”.

O que não significa que eu prefira grosserias e patadas, como as que um cliente uma vez tentou me dar por achar que meu preço por linha era absurdo. O homem soltou uma carreira de insultos e palavrões, que me deixou parva por alguns segundos – afinal, um palavrão bem dito em alemão não é bolinho. Mas eu até que reagi bem, levantei com calma, abri a porta da sala e pedi que ele se retirasse e procurasse alguém que cobrasse menos e não se importasse com o palavreado dele. Quase o chamei de querido, mas achei que ele poderia engrossar de vez e não disse nada.

Mas o que eu queria mesmo dizer sobre beijos e abraços na Alemanha é que essas coisas mudaram muito nos últimos anos. Quando cheguei aqui, fora a avó do meu marido e ele próprio, quase ninguém me abraçava e beijava (aliás, é interessante notar que justamente uma pessoa da antiga geração era mais generosa com carinhos, apesar de toda a disciplina e rigor da época em que foi educada). Lembro que quando conheci o casal de melhores amigos do meu marido e os cumprimentei com beijinhos e abraços, os dois ficaram quase que petrificados, sem saber o que fazer. Com o tempo se acostumaram e até exageravam no aperto dos abraços.

Hoje, porém, todo mundo se beija e se abraça neste país. Principalmente os mais jovens. Parece que as coisas tomaram o rumo oposto e as demonstrações de afeto em público passaram a ser a ordem do dia.

Faz uns dias, estava conversando sobre isso com uma amiga alemã que morou vários anos no Brasil e conhece bem a nossa cultura. Ela contou que tinha um namorado brasileiro, muito antes de conhecer o Brasil. Um dia, levou-o para conhecer a cidadezinha onde tinha nascido e seus amigos de infância e juventude. Passaram uma noite em um barzinho, bebendo, conversando, programa típico de universitários. Quando saíram de lá, ele estava meio chateado, achando que as pessoas não tinham sido muito atenciosas. Ela estranhou, tinha achado todos normais, e ele só disse: “Espere até você ir ao Brasil, aí você vai entender”. Pois foi o que aconteceu. Depois de passar um tempo no Brasil e ter a experiência do contato caloroso com as pessoas, ela mesma estranhava alguns costumes na Alemanha.

Enfim, continuo não gostando que me chamem de querida. Mas é muito bom constatar que um abraço bem dado deixou de ser exceção por aqui.

4 Comentários

Arquivado em Alemanha, Brasil, Hábitos