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Freiras, reservas e nosso condicionamento cultural

Situação comum durante uma viagem de trem na Alemanha: alguns lugares reservados, outros livres, os passageiros vão entrando e procurando onde sentar. Atrás de mim, sentam-se uma jovem, com lugar reservado, e uma freira de cabelos brancos, sem reserva. O trem parte.

Na primeira parada, entra uma mulher alemã, bem vestida, entre 35 e 40 anos. Vem com a passagem na mão, para na fileira de trás e diz que tem uma reserva. A jovem diz que também tem e pergunta pelo número do vagão. A mulher confere, é o mesmo e o assento reservado é onde está a freira. A jovem ainda tenta sugerir que a mulher poderia sentar ao lado, há muitos lugares livres, mas a freira já levantou, cedeu o lugar e pegou outro assento.

Na estação seguinte, entra outra mulher, passagem na mão, procurando o lugar. Também bem vestida, com aparência de estrangeira, talvez indonésia. Ela para, olha para a passagem, encontra seu lugar e vê nele a freira. Hesita, olha em torno, vê um assento livre ao seu lado, pergunta à moça da janela se está livre e senta-se ali.

Quando vi os olhos da mulher com cara de estrangeira encontrarem a freira, tive quase certeza de que ela iria procurar outro lugar. Talvez eu esteja errada e a mulher nem fosse estrangeira. E não deixa de ser preconceito da minha parte, assumir que 1) ela era de origem estrangeira e 2) reagiria de forma diferente de uma alemã. Também não me interessa julgar aqui se suas reações foram certas ou erradas, até porque acho que quem fez sua reserva tem todo o direito de se sentar no lugar que lhe deram, não importa se foi o Papa quem chegou primeiro.

O que me chamou a atenção foi apenas o comportamento diferente das duas. Fiquei matutando, lembrando de situações parecidas que já vi por aí e de coisas que andei estudando. Se estou certa e as duas eram mesmo alemã e (digamos) indonésia, acredito que alguns aspectos culturais explicam as reações diferentes.

Primeiro: que efeito exercem uma roupa religiosa e cabelos brancos em cada um de nós? Tive a impressão de que, para a alemã, o fato de a pessoa sentada no seu lugar ser uma freira e ter cabelos brancos não fez diferença. Em nenhum momento ela titubeou, nem pediu desculpas, ou disse um “lamento o incômodo”. Estava meramente exercendo seu direito e por que haveria de se sentir constrangida por isso?

A outra, ao contrário, ficou um momento imobilizada, baixou o olhar e buscou uma alternativa sem nem chegar perto da freira. Não sei se teria feito o mesmo se a pessoa que encontrou no seu assento não simbolizasse religião e idade, com suas roupas e seus cabelos brancos — estou quase certa que não.

Esses dois comportamentos diferentes podem ser, é claro, resultado da personalidade de cada uma. Mas me pergunto se não há também uma carga cultural por trás disso. Na Alemanha, ninguém se sente constrangido em pedir algo que é seu de direito, mesmo que isso signifique incomodar alguém. Aliás, o fato de que a outra pessoa terá de procurar outro lugar não é visto como incômodo, é normal e a outra provavelmente também levantará sem reclamar, pois já contava com essa possibilidade. Alguns estudos que definem dimensões culturais, como os de Gerd Hofstede, colocam a Alemanha com um índice de 67 no grupo de culturas mais individualistas (núcleos familiares pequenos, dizer abertamente o que se pensa é certo, usa-se mais o “eu”, as regras e contratos prevalecem). Nesse países, se você tem uma reserva, não há motivo algum para se sentar em outro lugar e provavelmente, mesmo que o vagão esteja vazio e você não goste do assento que lhe deram, vai ficar ali quietinha, esperando a próxima estação chegar, pois pode entrar alguém para controlar e pega mal.

Se a outra passageira era mesmo da Indonésia, vale lembrar que esse país ficou no fim da lista de Hofstede, com um índice de individualismo de 14, o que o coloca entre as culturas do coletivismo – onde, aliás, se encontrava também o Brasil, com um índice de 38, quando os estudos foram realizados, nos anos 70/80. Nessas culturas, prevalecem as grandes famílias, usa-se mais o “nós”, busca-se a harmonia nos grupos e as regras e contratos são menos importantes do que as pessoas com estamos em contato. Vendo por esse prisma, é muito mais fácil procurar outro lugar, com tantos sobrando, do que tirar a pobrezinha da freira do seu conforto. E se vier algum funcionário controlar – esses chatos que não têm o que fazer – aí sim você pode mostrar sua reserva e seu lugar está garantido.

Eu acredito que esses índices mudem ao longo do tempo, nossa história e o contato entre diferentes culturas geram mudanças.

Pensei no que eu teria feito e descobri que já me tornei um híbrido dessas duas culturas com as quais convivo. Se entrasse no trem e visse a freira no meu lugar, teria procurado outro assento, já que havia tantos outros livres. Mas se fosse no avião, acho que pediria educadamente que a santa mulher fosse sentar noutro lugar. Tenho uma superstição irracional com assentos de avião e não troco de jeito nenhum com ninguém. No máximo, com o marido. Já me olharam feio, muito feio por causa disso. Mas nessas horas eu faço que nem a filha de uma amiga minha, que cresceu bilíngue e quando a vó brasileira ralhava com ela, respondia num francês chiquérrimo nos seus 4 aninhos: “Je ne comprends pas, vovó”. Pois é, eu também não.

P.S. Faltou falar do efeito das roupas religiosas, mas esse artigo já está tão longo, vai ficar para outra vez.

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Não é só no Brasil

Sabem aqueles e-mails que a gente recebe de vez em quando, com fotografias de placas e cartazes absurdos encontrados Brasil afora? Pois é, a Alemanha também tem seus exemplares. E a foto aí embaixo é um deles.

A propaganda é a alma do negócio.

Isso foi ainda durante a feira Cebit, em Hannover. O cara estava vendendo aqueles pãezinhos enroscados típicos da Alemanha, Brezel, e como bom comerciante colocou lá sua propaganda: Warme Brezel – Brezel quentinhos! A uma temperatura abaixo de zero, quem não sentia vontade de parar e comprar os tais pãezinhos, nem que fosse para aquecer as mãos geladas? Mas, péraí. Zero grau, o cara ali parado com uma montanha de Brezels ao ar livre, quentes? Naquela geladeira? Oi?

Tiramos a foto e o cara, gelado e curioso, perguntou se a gente tinha gostado da barraca. Explicamos que a atração foi a placa. Quando saímos da feira e passamos por ali novamente, o cara ainda estava lá, firme e forte com os seus Brezels. Mas a placa tinha sumido. Vai ver ele ficou com medo de que algum brasileiro maluco resolvesse processá-lo por propaganda enganosa. Vida de vendedor de rua na Alemanha é muito mais complicada, minha gente!

P.S. Fiquei espantada com os Brezels de Hannover, enormes e totalmente diferentes dos que se encontram em Stuttgart. Munique também tem os seus, mais fininhos e crocantes. Mas isso eu explico outra hora.

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Assoando o nariz

Taí uma coisa que pode parecer insignificante, mas faz uma diferença danada quando você sai da zona de conforto da sua própria cultura. Em que situações, onde e principalmente como você assoa o nariz?

Ninguém costuma pensar nessas coisas que se aprendem na infância, em casa, no berço, instintivamente. Ainda tenho lembrança da minha mãe com um lencinho bordado nas mãos, apertando minhas narinas delicadamente e dizendo para eu soprar. O bordardo eram uns bonequinhos com roupas típicas portuguesas e eu tentava mirar de um jeito que eles não ficassem sujos.

Esses lencinhos já dão uma ideia de como nós, brasileiros, lidamos com o assunto: com cuidado e discreção. É difícil ver alguém no Brasil assoando o nariz com alarde. Em público, as pessoas geralmente tentam fazê-lo sem chamar a atenção. Muitos nem assoam, apenas passam o lenço no nariz para evitar o pior.

É compreensível que isso seja diferente na Alemanha, já que aqui faz frio a maior parte do tempo e estar resfriado é quase rotina. Mas nariz escorrendo é tabu nesse país. Ninguém funga. Em compensação, mesmo depois de ter vivido mais de 20 anos nessa terra, eu ainda me espanto com assoadas assombrosas que me pegam de surpresa. Aqui ninguém assoa o nariz como quem não quer nada. Se você tira o lenço do bolso, é para assoar com convicção, não é segredo. E os lenços são lenços de verdade, um mero lencinho não daria conta do negócio. Aliás, nem é lenço, é Tempo, mas isso eu explico depois.

Só fui me dar conta dessa diferença depois de já estar casada um tempo com um alemão de nariz grande. Estávamos em casa, no Rio, e de repente ouviu-se um som que fez meu sobrinho pequeno olhar para mim e perguntar com os olhos espantados:

— O que foi isso?

— Seu tio assoando o nariz.

O sobrinho deu risada, enquanto meu pai só comentou: “Benza Deus!”

O outro lado da moeda é sobreviver na Alemanha sem lenços, nem lencinhos na bolsa. Toda mulher alemã que se preza tem um estoque de lenços de papel distribuído em todas as suas bolsas preferidas. Tempo é como o nosso band-aid, a marca tornou-se sinônimo de lenço de papel. Se você sair para jantar com o marido (ou namorado) numa noite fria, pode contar que depois da sopa vem a pergunta: Hast Du ein Tempo?

O último exemplar, encontrado no bolso de um casaco.

Eu nunca tenho porque sou da terra dos lencinhos e saio da mesa para assoar o nariz no banheiro, embora já tenha passado apertos por causa disso, interpretando almoços de negócios. Mas não adianta, minha bolsa de mulher é atípica na Alemanha. O que já daria outro tópico, mas por hoje, é só.

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Aus aktuellem Anlass: a Europa está fervendo!

O post de ontem, sobre minha atual birra com algumas agências, merece uma continuação. Mas vou fazer um intervalo e contar para vocês um pouco de um tema gravíssimo que tem concentrado a atenção da população na Alemanha (e, provavelmente, no resto da Europa também): está fazendo um calor de matar nessa terra!

Não estou exagerando, é de matar mesmo! Quando o verão chega com força aqui, a taxa de mortalidade entre idosos realmente sobe com o termômetro. Mas as temperaturas das últimas semana têm estado sempre acima de 30, o que é um espanto, e já chegaram aos 40 mais de uma vez. Oficialmente, a temperatura mais alta medida até agora foi de 38 graus à sobra em Berlim. Nesse dia, os termômetros expostos ao sol na Potsdamer Platz chegaram a marcar 46 graus e um repórter da TV, otimista, demonstrou o lado prático da coisa fritando um ovo na placa de metal que revestia o teto de um prédio.

Os centros das cidades foram invadidos por legiões de pernas e braços ao léu. Quem não tem que manter a gravata e o paletó, por alguma obrigação cruel,  entrou para o time das bermudas e sandálias. Até nos bancos, esses redutos de sisudez, tenho visto mulheres trabalhando de bermudas. O que dá margem a combinações de vestiário das mais supreendentes nesse povo que está mais acostumado a botas e cachecóis. Sol e calor costumam ser sinônimo de férias, por aqui. Então, a ordem tem sido tirar o guarda-roupa de férias da mala e usá-lo para a próxima reunião do departamento. Um desfile que, às vezes,  me diverte, como ver alguém com uma pasta de couro na mão, camisa colorida, bermuda bege, sapato de couro marrom com meias combinando com a bermuda.

Se eu conseguisse arrumar um tempinho no fim de semana, certamente iria nadar. Mas as piscinas públicas andam abarrotadas de gente à procura de algum refresco e a água não deve andar lá muito convidativa. Pena, pois a visita a uma piscina pública, para brasileiros, é sempre um programa divertido. Assim como os cariocas seguem todo um ritual quando vão à praia — a escolha do figurino, o lugar onde sentar, quando e como “dar um mergulho” — os rituais germânicos também existem e alguns são de arrepiar, apesar do calor.

Meu exemplo preferido é o troca-troca de biquíni, calção e maiô. Lembrando que estamos num país onde o normal é fazer frio, aqui niguém sai da água e fica molhado na sombra para se refrescar. Não senhor, onde é que estamos? Isso é problema nos rins na certa, resfriado, dores de ouvido, a bexiga se vinga e lá vem a temida infecção — Blasenentzündung! Aqui você tem que ter dois biquínis na bolsa: uma para ficar sequinha no sol, outro para nadar. Então, antes de cair na água, todo mundo se enrola na toalha, primeiro a parte de cima, depois a de baixo, sai um biquíni vermelho, entra um azul, sai o calção de florzinhas, entra a sunga, e por aí vai. E não pensem que isso é feito nas cabines. Não, é ali mesmo, no gramado, com todo mundo em volta. Não sei como eles conseguem, pois é preciso habilidade, mas a toalha cobre o essencial, desde que o vizinho não esteja deitado diretamente ao lado e caia na besteira de abrir o olho na hora errada. Já levei sustos homéricos ao me virar na grama e dar de cara com um desses contorcionistas no momento errado.

Já começo também a notar que as pessoas têm adotado um hábito que conheço do Brasil: entrar nas lojas, bancos ou centros comerciais só para se refrescar no ar condicionado. Obviamente, essa grande invenção ainda não existe aqui em muitos prédios, já que era desnecessária até agora. Mas se as mudanças climáticas continuarem desse jeito, e tudo leva a crer que sim, alguma coisa terá que acontecer. Há alguns dias, o ar-condicionado de um trem ICE quebrou. O trem parou numa estação e todos os passageiros foram transferidos para outro ICE que, além de ficar superlotado, também estava sem ar-condicionado. Resultado: um monte de gente passou mal, tiveram que chamar ambulâncias, interromper a viagem e a Deutsche Bahn está em vias de ser levada à justiça.

Eu também não tenho ar-condicionado. Aliás, nem geladeira no meu escritório eu tenho. É um lindo prédio antigo, romântico e totalmente impróprio para trabalhar no verão. Por isso, eu adotei a moda e hoje vim trabalhar de bermuda e sandália. Mas o ventinho quente do meu ventilador não está dando conta e minha água mineral, apesar de ser sem gás, já ficou efervescente. Por isso, vou pegar minha pastinha de couro, com meu laptop e meus papeis, e vou para casa, desfilando nas ruas com a última moda alemã.

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Nós e o contexto

Todo bom tradutor sabe o quanto o contexto é importante para o serviço sair bem feito. Mas  vocês já ouviram falar também de culturas de “alto” ou “baixo contexto”?

Outro dia, durante um serviço como intérprete nas negociações entre empresários brasileiros e alemães, eu ouvi da boca de um brasileiro uma frase que me deixou matutando sobre certas premissas que se aprendem por aí em cursos de comunicação intercultural. Depois de muito vai-e-vem e de ter finalmente esclarecido alguns mal-entendidos que estavam dificultando a realização de um projeto, o engenheiro brasileiro vira-se para os companheiros do seu grupo e diz: “Mas por que é que não disseram isso logo? Teriam evitado a confusão.”

Um comentário, a meu ver, muito natural e bem a meu gosto. Mesmo assim, confesso que achei a situação um pouco inusitada. Ele queria que os alemães, justamente eles, que têm fama de ser impiedosamente diretos até a medula, tivessem dito algo de cara, sem rodeios, logo no início das negociações. O que tinha saído errado?

Pensando nisso, lembrei de uma coisa chamada high context ou low context culture. É um dos aspectos levantados nos estudos do antropólogo Edward Hall, que já citei aqui antes – nota-se que me interessei pelo assunto. Pois bem, Hall aborda a ideia de cultura partindo do conceito de comunicação. Para ele, cultura seria “um sistema que existe para gerar, transmitir, guardar e processar informação” e, portanto, a comunicação seria “o fio da meada que atravessa todas as culturas” (tradução livre minha de um trecho citado em alemão no livro de Michael Schugk).

Dentre outros aspectos, como a história dos policrônicos e monocrônicos no outro post, ele define culturas que têm formas distintas de se comunicar. As chamadas culturas de “baixo contexto” levam esse nome porque dão menos importância ao contexto, que, para Hall, é toda e qualquer informação que acompanha a mensagem — desde o espaço físico e as condições climáticas até experiências passadas. Nesses grupos, prevalece a comunicação verbal direta, explícita, linear. Nas suas observações, é aqui que ele enquadra os alemães.

Nós, brasileiros, ficamos no grupo das culturas de “alto contexto”. Nossa comunicação é circular, enviamos mensagens mais cifradas, esperando o retorno para mandar mais uma peça do mosaico que vai se formar no fim da conversa. Isso quando não paramos antes, já intuindo o resto da informação a partir do contexto. Não chegamos a ser tão exímios nessa arte quanto os asiáticos, mas temos uma forte tendência a deixar certas coisas implícitas e não exprimir tudo necessariamente em palavras.

O que eu suponho ter acontecido nas negociações que presenciei é simples: treinamento intercultural é algo muito comum na Alemanha quando funcionários são preparados para o contato com parceiros estrangeiros. Há cursos para sugerir estratégias de como se sair bem dentro dos novos parâmetros culturais. Posso bem imaginar o gerente de projeto alemão fazendo o possível para se controlar e não espantar o cliente com frases como “não vai dar”, “não fazemos isso”, “tivemos um problema e vamos atrasar a entrega”, ou  “só se vocês pagarem o dobro”. De tanto tentar fazer a coisa certa, ele acabou se enrolando ainda mais.

Acontece que nossos profissionais também já se internacionalizaram e aprenderam a negociar sem grandes rodeios. Quando lidam com alemães, esperam um comportamente objetivo, acreditam que o que está sendo dito é 100% confiável e nada ficou faltando. Daí a decepção do nosso engenheiro lá no começo.

Mas também pode ser que essa imagem do brasileiro cheio de dedos seja coisa do passado, ou nunca tenha sido realidade. Pessoalmente, sempre achei que generalizar é mau negócio. O alemão disciplinado, o brasileiro bom de bola, o inglês pontual, o argentino arrogante, tudo isso são etiquetas que podem dar boas piadas, mas raramente ajudam a compreender realmente as diferenças culturais que encontramos. Fato é que o mundo está ficando muito complicado.

E quem deixou isso aqui hoje fui eu de novo, a Bete.

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HB-Frauchen

A vantagem de ter dois autores no blog é essa: nem sempre somos da mesma opinião. E como a nossa proposta é mesmo trazer para cá as nossas conversas e partilhá-las com vocês, é isso que eu, Bete, vou fazer agora.

Concordo com o André quando diz que mulheres, infelizmente, nem sempre são levadas a sério quando reclamam ou exigem seus direitos. Mas questiono se isso é uma característica particularmente brasileira e, principalmente, se as coisas na Alemanha são assim tão diferentes. E mais: mesmo correndo o risco de levar paulada, pergunto se essa “falta de respeito” não é resultado também da postura que muitas de nós, mulheres, assumimos voluntariamente, tentando ser boazinhas e educadas (e não me excluo desse grupo). Mas vamos por partes.

Quando saí do Brasil, com 23 anos, eu não era exatamente um exemplo de mulher emancipada. Para falar a verdade, essa questão nunca me interessou muito e continua me interessando pouco. Afinal, o que é “emancipada”? Ganhar seu próprio dinheiro, morar sozinha, viver com o namorado mesmo sem casar, fazer topless na praia, comprar briga sem medo? Só isso? Eu morava com meus pais, exercia uma profissão que me dava satisfação e pouco dinheiro, tinha os amigos que queria, estudava o que queria, estava razoavelmente satisfeita com a vida que levava. Isso devia ser emancipação suficiente.

Nos primeiros anos de Alemanha, como meu marido ainda estudava e naquela época os cursos à noite ainda não haviam chegado nesse país tremendamente desenvolvido, quem ganhou dinheiro para pagar aluguel e despesas da casa fui eu. Minhas amigas brasileiras achavam isso muito natural. As alemãs perguntavam por quanto tempo eu ainda planejava fazer isso e o que faria quando engravidasse. Foi a primeira vez que ouvi essa pergunta — filhos ou trabalho? Na minha terra e no círculo de pessoas com quem eu convivia, não era preciso escolher,  era normal seguir a vida com as duas coisas, dá-se um jeito. Para minha surpresa, muitas alemãs emancipadas, que levavam o namoradinho para dormir com elas em casa já aos 17 anos, desistiam de suas profissões assim que um marido aparecia acenando com um bom salário. Já meu pai, um cara extremamente conservador, que se contorcia ao ver as filhas de saia curta e reclamava quando elas chegavam em casa depois da meia-noite, mesmo depois dos 18 anos, queria que as filhas tivessem uma profissão para “não depender de marido se um dia ele tratar ela mal”. Onde está aqui a emancipação?

Conheci muitas brasileiras que sofreram no mercado de trabalho alemão por não serem tratadas da mesma forma que os homens. Principalmente nas profissões técnicas e nas grandes empresas alemãs, as mulheres ainda são vistas frequentemente em cargos com menos responsabilidade e quase sempre ganhando menos que os colegas que exercem exatamente a mesma função. De fato, a diferença entre os salários de homens e mulheres vem aumentando nos últimos anos e hoje gira em torno de 23%, como mostra um artigo na revista Der Spiegel. Embora esse fenômeno não seja exclusivamente alemão, já que ele existe também em muitos outros países, isso talvez corrija um pouco a imagem da alemã emancipada. O mesmo artigo indica, por exemplo, que essa diferença é menor em países europeus tidos como mais “machistas”, como Portugal e Itália (que tem o menor índice, com apenas 4,9%).

Mais que isso, o que me chama a atenção na sociedade alemã é a associação feita entre mulher bem-sucedida e comportamento masculinizado (uso a palavra na falta de coisa melhor no momento). Explico com uma historinha vivida há muitos anos e que me ensinou como as coisas funcionam por aqui. Eu estava na fila da sorveteria, esperando ser atendida. Quando chegou a minha vez, um grandalhão atrás de mim soltou a voz de tenor pedindo o sorvete dele. Eu olhei para trás e disse que eu estava na frente. Ele respondeu que eu não tinha dito nada, então eu perguntei: “O senhor quer que eu faça o quê, que eu grite?”. E a resposta foi “Na klar!”  (claro!).  Ali eu aprendi que os alemães levam você  mais a sério se você falar alto. Entendi por que meu marido tinha brigas homéricas com a mãe por causa de merrecas e por que minha sogra era uma pessoa que se exaltava ao telefone para pedir uma simples informação. As pessoas na Alemanha falam alto para serem realmente ouvidas. E isso é uma característica que se encontra também no mundo profissional. Muitas das mulheres em cargos de chefia nas empresas alemãs têm um perfil dominante e são às vezes mais temidas que seus colegas homens. Para serem vistas, ouvidas, “respeitadas”, elas tendem a exagerar.

Pessoalmente, tenho dúvidas se essa é uma estratégia que funciona bem no Brasil. A começar pelo fato de que falar alto nem sempre dá bons resultados entre brasileiros, seja o grito dado por um homem ou uma mulher. Muitas vezes o que pode acontecer é o tiro sair pela culatra e você não receber o que é seu direito, justamente porque gritou.

Minha mãe, por exemplo, adora gritar, pelo menos dentro de casa e principalmente com a empregada. E vive reclamando que tudo ficou difícil depois que meu pai morreu, que uma mulher não é levada a sério pelos homens, que se fosse meu pai resolvendo as coisas, os problemas não existiriam. Mas, outro dia, ela precisou ir à Cedae resolver um problema de abastecimento de água no apartamento de um inquilino. Primeiro, foi sozinha, conversou com um rapaz “muito educadinho”, jogou aquela conversa dos cabelos brancos, a dor na coluna, o dinheiro pouco da aposentadoria. O rapaz explicou lá para ela um jeito de resolver a coisa e pediu que voltasse outro dia com mais um documento qualquer. Ela voltou, dessa vez levando o inquilino, pois achava que ele, como homem, saberia explicar e entender melhor a coisa. Deu uma confusão danada, o inquilino é um tipo esquentado, o rapaz “educadinho” esqueceu dos bons modos e mandou o inquilino ver se ele estava na esquina. Ontem minha mãe me disse que vai voltar à Cedae. Quando eu perguntei se vai levar o inquilino, a resposta veio rápida: “Deus que me livre! Ele só ia complicar ainda mais, eu vou sozinha!”.

Ou seja, a HB-Frauchen pode funcionar bem na Alemanha. Mas no Brasil, tenho minhas dúvidas.

O que precisamos, sejamos nós mulheres ou homens, é simplesmente ter mais consciência de nossos direitos e não ter medo de exigi-los quando chegar a hora. Se isso vai ser feito no grito ou não, é uma escolha pessoal. Eu não gosto de gritar, faz mal à garganta. Mas dizem que minha veia na testa cresce quando a coisa começa a ficar séria.

Haveria outras coisas para discutir, como a imagem dos homens alemães que colaboram nos afazeres domésticos e os brasileiros boas-vidas que mal sabem fritar um ovo. Há muito folclore nisso, mas é conversa demais para um post só. Por isso, passo a palavra para quem quiser comentar.

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HB-Männchen I

Quando estava bravo, meu pai costumava dizer “estou fulo da vida”. Era a expressão daquela época, fim dos anos 70, começo dos 80. Pois assim estou eu hoje.

Quando fui para a Alemanha, em Janeiro de 1996, ainda não tinha nem ideia do quanto as mulheres eram respeitadas e tinham o seu lugar na sociedade por lá, como continuam sendo e tendo (ainda que algumas amigas alemãs digam que não é bem assim). E devo ser sincero, também aprendi a respeitar mais ainda esse aspecto, pois cresci no meio de mulheres, já que em casa éramos 3 irmãos e a família: eu, minhas 2 irmãs, minha mãe e minha avó (meu pai era viajante e estava sempre fora). E, como se diz em alemão, eu era “o galo no cesto” (“der Hahn im Korb sein” – uma expressão usada para dizer que a pessoa é o único homem entre várias mulheres), sendo bastante bajulado pela minha avó e minha mãe (não preciso dizer o que minhas irmãs achavam disso…). Mas ainda assim me lembro que ajudava em certas tarefas da casa que meus amigos da escola não faziam.

Crescendo assim no meio delas, também aprendi a respeitá-las mais ainda e aprimorei esse respeito nos 13 anos que passei na Alemanha. Quando voltei ao Brasil, vi que muitos aspectos da sociedade tinham melhorado e que outros continuavam como antes. O desrespeito às mulheres é um destes aspectos que continua como antes, salvo algumas exceções.

Explico – minha namorada-esposa está tendo aulas de direção na Auto-Escola para perder o medo de conduzir e poder aproveitar melhor a vida dirigindo por Ribeirão Preto sem ter que depender do transporte público da cidade que, como em qualquer outra cidade brasileira, é muito ruim. Só que o instrutor dela, apesar de ser muito competente e estar conseguindo fazer com que ela perca o medo, não respeita os horários, desmarca as aulas quando bem entende, marca aula e não vem, deixando claro que, como ela é mulher, ela pode esperar e tem de aceitar as suas explicações.

Pois um dia desses, ele faltou, não avisou e quando foi questionado sobre não ter vindo dar aula à ela, deu uma desculpa qualquer e achou que ia ficar por isso mesmo. Ligou no outro dia antes das oito da manhã (!!!!) e queria marcar aula para ela. Eu, muito educadamente, soltei o verbo. Disse-lhe tudo que pensava, sendo interrompido por uns “ah, não é bem assim”, “você está interpretando mal”, “não, eu me enganei sobre o dia” e “mas eu vou repor esses minutos em falta”, entre outras frases com intenção de se desculpar. Depois dessa conversa espero que não aconteça nada mais, pois outro aspecto que tenho constatado é que eles respeitam mais quando um homem fala do outro lado da linha.

A Bete me contou sobre um comercial de cigarros na Alemanha que passava antes de eu botar meus pés por lá e disse que eu devo parecer com o tal homenzinho, HB-Männchen, quando estou nervoso. Pois pareço mesmo, só que me seguro, pois isso de “dar piti” e “fazer barraco” gasta muita energia. Mas é mesmo um absurdo o quanto eles vão desrespeitando e mais, e mais, até que a pessoa fica brava e começa uma discussão, pois não aguenta mais “tanta folgação”.

E aqui começo a falar das exceções que são respeitadas no Brasil, as mulheres que são ouvidas. Costumam ser as tais “barraqueiras” ou aquelas que ficam bravas e não deixam as faltas de respeito passarem despercebidas. Aí os homens latino-americanos começam a tratá-las melhor e suas palavras são ordens. Me lembro da minha irmã que mudou bastante e não permitiu que fizessem isso com ela nunca mais, tornando-se uma “barraqueira”, mas a verdade é que se elas não adotam essa posição, nunca são ouvidas. Há outros meios também, no entanto, tenho constatado que esse é o mais eficaz (para não falar de uma amiga que é delegada e quando a tratam mal, ela sabe muito bem o que fazer). Infelizmente é assim, pois realmente custa muita energia, nervos e mal-estar. É o preço a se pagar para ser respeitada.

Imagino certas amigas alemãs passando uma situação destas. Tenho certeza que elas fariam “picadinho” do sujeito.

Espero que isso mude um dia, enquanto eu ainda esteja neste mundo para poder presenciar.

Vou ficando por aqui.

Abraços do André

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