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Assoando o nariz

Taí uma coisa que pode parecer insignificante, mas faz uma diferença danada quando você sai da zona de conforto da sua própria cultura. Em que situações, onde e principalmente como você assoa o nariz?

Ninguém costuma pensar nessas coisas que se aprendem na infância, em casa, no berço, instintivamente. Ainda tenho lembrança da minha mãe com um lencinho bordado nas mãos, apertando minhas narinas delicadamente e dizendo para eu soprar. O bordardo eram uns bonequinhos com roupas típicas portuguesas e eu tentava mirar de um jeito que eles não ficassem sujos.

Esses lencinhos já dão uma ideia de como nós, brasileiros, lidamos com o assunto: com cuidado e discreção. É difícil ver alguém no Brasil assoando o nariz com alarde. Em público, as pessoas geralmente tentam fazê-lo sem chamar a atenção. Muitos nem assoam, apenas passam o lenço no nariz para evitar o pior.

É compreensível que isso seja diferente na Alemanha, já que aqui faz frio a maior parte do tempo e estar resfriado é quase rotina. Mas nariz escorrendo é tabu nesse país. Ninguém funga. Em compensação, mesmo depois de ter vivido mais de 20 anos nessa terra, eu ainda me espanto com assoadas assombrosas que me pegam de surpresa. Aqui ninguém assoa o nariz como quem não quer nada. Se você tira o lenço do bolso, é para assoar com convicção, não é segredo. E os lenços são lenços de verdade, um mero lencinho não daria conta do negócio. Aliás, nem é lenço, é Tempo, mas isso eu explico depois.

Só fui me dar conta dessa diferença depois de já estar casada um tempo com um alemão de nariz grande. Estávamos em casa, no Rio, e de repente ouviu-se um som que fez meu sobrinho pequeno olhar para mim e perguntar com os olhos espantados:

— O que foi isso?

— Seu tio assoando o nariz.

O sobrinho deu risada, enquanto meu pai só comentou: “Benza Deus!”

O outro lado da moeda é sobreviver na Alemanha sem lenços, nem lencinhos na bolsa. Toda mulher alemã que se preza tem um estoque de lenços de papel distribuído em todas as suas bolsas preferidas. Tempo é como o nosso band-aid, a marca tornou-se sinônimo de lenço de papel. Se você sair para jantar com o marido (ou namorado) numa noite fria, pode contar que depois da sopa vem a pergunta: Hast Du ein Tempo?

O último exemplar, encontrado no bolso de um casaco.

Eu nunca tenho porque sou da terra dos lencinhos e saio da mesa para assoar o nariz no banheiro, embora já tenha passado apertos por causa disso, interpretando almoços de negócios. Mas não adianta, minha bolsa de mulher é atípica na Alemanha. O que já daria outro tópico, mas por hoje, é só.

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Aus aktuellem Anlass: a Europa está fervendo!

O post de ontem, sobre minha atual birra com algumas agências, merece uma continuação. Mas vou fazer um intervalo e contar para vocês um pouco de um tema gravíssimo que tem concentrado a atenção da população na Alemanha (e, provavelmente, no resto da Europa também): está fazendo um calor de matar nessa terra!

Não estou exagerando, é de matar mesmo! Quando o verão chega com força aqui, a taxa de mortalidade entre idosos realmente sobe com o termômetro. Mas as temperaturas das últimas semana têm estado sempre acima de 30, o que é um espanto, e já chegaram aos 40 mais de uma vez. Oficialmente, a temperatura mais alta medida até agora foi de 38 graus à sobra em Berlim. Nesse dia, os termômetros expostos ao sol na Potsdamer Platz chegaram a marcar 46 graus e um repórter da TV, otimista, demonstrou o lado prático da coisa fritando um ovo na placa de metal que revestia o teto de um prédio.

Os centros das cidades foram invadidos por legiões de pernas e braços ao léu. Quem não tem que manter a gravata e o paletó, por alguma obrigação cruel,  entrou para o time das bermudas e sandálias. Até nos bancos, esses redutos de sisudez, tenho visto mulheres trabalhando de bermudas. O que dá margem a combinações de vestiário das mais supreendentes nesse povo que está mais acostumado a botas e cachecóis. Sol e calor costumam ser sinônimo de férias, por aqui. Então, a ordem tem sido tirar o guarda-roupa de férias da mala e usá-lo para a próxima reunião do departamento. Um desfile que, às vezes,  me diverte, como ver alguém com uma pasta de couro na mão, camisa colorida, bermuda bege, sapato de couro marrom com meias combinando com a bermuda.

Se eu conseguisse arrumar um tempinho no fim de semana, certamente iria nadar. Mas as piscinas públicas andam abarrotadas de gente à procura de algum refresco e a água não deve andar lá muito convidativa. Pena, pois a visita a uma piscina pública, para brasileiros, é sempre um programa divertido. Assim como os cariocas seguem todo um ritual quando vão à praia — a escolha do figurino, o lugar onde sentar, quando e como “dar um mergulho” — os rituais germânicos também existem e alguns são de arrepiar, apesar do calor.

Meu exemplo preferido é o troca-troca de biquíni, calção e maiô. Lembrando que estamos num país onde o normal é fazer frio, aqui niguém sai da água e fica molhado na sombra para se refrescar. Não senhor, onde é que estamos? Isso é problema nos rins na certa, resfriado, dores de ouvido, a bexiga se vinga e lá vem a temida infecção — Blasenentzündung! Aqui você tem que ter dois biquínis na bolsa: uma para ficar sequinha no sol, outro para nadar. Então, antes de cair na água, todo mundo se enrola na toalha, primeiro a parte de cima, depois a de baixo, sai um biquíni vermelho, entra um azul, sai o calção de florzinhas, entra a sunga, e por aí vai. E não pensem que isso é feito nas cabines. Não, é ali mesmo, no gramado, com todo mundo em volta. Não sei como eles conseguem, pois é preciso habilidade, mas a toalha cobre o essencial, desde que o vizinho não esteja deitado diretamente ao lado e caia na besteira de abrir o olho na hora errada. Já levei sustos homéricos ao me virar na grama e dar de cara com um desses contorcionistas no momento errado.

Já começo também a notar que as pessoas têm adotado um hábito que conheço do Brasil: entrar nas lojas, bancos ou centros comerciais só para se refrescar no ar condicionado. Obviamente, essa grande invenção ainda não existe aqui em muitos prédios, já que era desnecessária até agora. Mas se as mudanças climáticas continuarem desse jeito, e tudo leva a crer que sim, alguma coisa terá que acontecer. Há alguns dias, o ar-condicionado de um trem ICE quebrou. O trem parou numa estação e todos os passageiros foram transferidos para outro ICE que, além de ficar superlotado, também estava sem ar-condicionado. Resultado: um monte de gente passou mal, tiveram que chamar ambulâncias, interromper a viagem e a Deutsche Bahn está em vias de ser levada à justiça.

Eu também não tenho ar-condicionado. Aliás, nem geladeira no meu escritório eu tenho. É um lindo prédio antigo, romântico e totalmente impróprio para trabalhar no verão. Por isso, eu adotei a moda e hoje vim trabalhar de bermuda e sandália. Mas o ventinho quente do meu ventilador não está dando conta e minha água mineral, apesar de ser sem gás, já ficou efervescente. Por isso, vou pegar minha pastinha de couro, com meu laptop e meus papeis, e vou para casa, desfilando nas ruas com a última moda alemã.

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Stress ou estresse?

É a Bete falando.

Estava eu outro dia no skype, contando ao meu marido as peripécias dos meus últimos confrontos com a baderna e a burocracia brasileiras, quando ele de repente me diz:  “Mas o que há com você? Nunca te vi tão estressada!” Eu olhei para a minha imagem no cantinho do monitor e vi que ele tinha razão. Aquela mulher meio descabelada e tensa ali não era eu.  Ou será que era?

Sempre pensei que estresse era uma coisa que só aparecia na minha vida quando estava na Alemanha. Explico: lá eu tenho uma sensação constante de premência, de correr atrás do tempo, de estar resolvendo uma coisa já pensando nas que vêm pela frente. Há teorias que explicam isso. O antropólogo Edward T. Hall, por exemplo, afirma que um dos aspectos importantes para entender uma cultura é a sua percepção de tempo. Ele divide culturas em policrônicas e monocrônicas. Os alemães pertenceriam ao último grupo. Para eles, o tempo é uma coisa linear, com começo, meio e fim definidos. Por isso,  a agenda, o planejamento e a execução de tarefas uma após a outra, dentro do tempo previsto,  são tão importantes. Se você vive nesse sistema e quer ver as coisas funcionando para o seu lado, é melhor adaptar seu reloginho interno a essa realidade.

O mesmo autor situa culturas “latinas” — e lá estamos nós, brasileiros — no lado dos policrônicos. Para esses, o tempo é como borracha, uma coisa mais ou menos amorfa que você pode esticar ou espremer, conforme a necessidade do momento. Para essas pessoas, o que acontece agora geralmente tem prioridade e elas são capazes de realizar várias tarefas ao mesmo tempo sem sofrer muito com isso. Aquelas expressões  “o que passou, passou” ou “o que será, será” não são apenas clichê, elas exprimem verdadeiramente um jeito de estar no mundo.

Para mim, que cresci em meio a um bando de policrônicos, é natural que a convivência com monocrônicos produza estresse. Eu não sabia a diferença que um mísero minuto pode fazer, até chegar no ponto de ônibus às 14.43 e descobrir que tinha perdido o das 14.42 e teria que ficar esperando 20 minutos na neve e a uma temperatura abaixo de zero. Isso é stress, à moda alemã. Porque estresse é outra coisa.

Estresse é o que eu estava sentindo enquanto relatava meu desespero no skype. O que tinha acontecido para eu ficar naquele estado foi mais ou menos isso:

Há semanas eu vinha tentando solucionar um problema simples com minha operadora de celular. Depois de ter tentado várias vezes pela internet, de ter mandado e-mails e telefonado, haviam me dito que eu poderia resolver tudo facilmente numa loja da operadora. Beleza, pensei! Eu tinha um compromisso no centro da cidade. Dali, pegaria o ônibus até um shopping onde, segundo a atendente havia me garantido,  havia uma loja para resolver meu problema. Lá chegando, porém, nada feito. Embora a loja fosse aquela mesmo, a questão tinha que ser resolvida pela central de atendimento telefônico. Ou seja, eu teria que ligar pela centésima vez, repetir toda a ladainha, começar tudo de novo. Aquilo já durava mais de um mês! Em vez de pular no pescoço do funcionário, eu disse que então preferia cancelar meu plano. E a resposta foi que isso também era coisa que só a famigerada central de atendimento poderia resolver. Saí dali fumegando, atravessei a cidade, peguei uma barca lotada, cheguei em casa encharcada pela chuva e resolvi esquecer a coisa por uns dias, pois ia passar o fim de semana na casa da minha irmã, pertinho da praia. Tinha um serviço pequeno para entregar na segunda-feira, que levei comigo e terminei sem problemas. No domingo, voltei de ônibus para a Ilha com minha mãe e escapamos de um toró que fechou o aeroporto. Só que, chegando em casa, não havia luz. Sem luz, necas de internet. Tudo bem, pensei, amanhã cedo a luz já voltou e eu mando o serviço. Mas, como vocês já devem estar adivinhando, a luz não voltou. Depois de uma noite passada com um calor infernal, com portas e janelas da varanda fechadas, pelo risco de assalto na escuridão, saí cedo para o próximo shopping, na esperança de encontrar uma praça da alimentação com tomadas para recarregar o notebook e acesso à internet. As tomadas estavam lá, mas a internet resolveu tirar férias naquele dia. Tomei um guaraná, para não sair dali de mãos abanando, e voltei frustrada, angustiada com a entrega do serviço e totalmente estressada. Horas depois, a luz chegou e foi então que liguei para o meu marido.

Estresse no Brasil, para mim, é isso: a convivência diária com a mais total insegurança. Não a tão falada insegurança ligada à violência. Essa, obviamente, também tem seu papel — não fosse por ela, eu teria dormido melhor com as janelas abertas. Mas o duro mesmo é você acordar de manhã pensando que vai fazer isso e aquilo e descobrir que você não decide nada, e que deve dar graças a Ele lá em cima se conseguir voltar para casa, pelo menos, de pés secos. É a insegurança de tentar planejar, sabendo que tudo pode e provavelmente vai sair ao contrário. A insegurança de saber dos seus direitos, mas saber também que nem todo mundo está ligando para isso. Coisas pequenas, como pagar 25 reais por uma recarga do seu pré-pago, o código ser recusado como inválido e ninguém dar jeito nisso, mesmo que você tenha feito tudo direitinho. Coisas como ver a insulina da sua mãe se estragar na geladeira e não conseguir falar com alguém na Light para ter uma previsão de quando a luz vai voltar. Coisas como pedir uma informação em órgão público e ouvir três respostas diferentes no mesmo departamento.  Isso é estresse.

Para relaxar, eu tento ver o que eu ganho no meio disso tudo. O jogo de cintura policrônico já foi vantagem várias vezes na Alemanha. Por outro lado, foram os monocrônicos que me ensinaram a usar de verdade uma agenda, e foi com eles que descobri que uma hora não tem mais ou menos 60 minutos. São 60 e ponto final. Não acredita? Então pergunte a um motorista de ônibus alemão!

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Proteção à vida animal

Queridos leitores (que ainda não tenho porque nunca escrevi aqui e estou perdendo o receio agora, postando meu primeiro artigo! 🙂 ), quando vejo o quanto os alemães são engajados na proteção à vida animal, vejo a dimensão da organização entre o Estado e a população aqui. Os subsídios oferecidos e os programas de voluntários (que não faltam entre a população) são os pontos que mais me impressionam. E as comparações com a “terrinha” são inevitáveis. A única referência que tinha sobre esse assunto era uma amiga muito engajada que, já na faculdade, vivia dando uma de “Dra. Pet” e até os animais atropelados nas madrugadas assisenses ela levava para os veterinários de plantão (devia ser a alegria deles porque não eram poucos que ela salvava…). Por que estou escrevendo sobre esse assunto? Como todos os dias de manhã, depois de acordar e tomar meu café, vou dar  uma olhada na página do UOL. Vi a notícia “Cão Bob ganha bloco e vai sair por ruas do Cambuí” e constatei mais uma vez o engajamento realizado de outra forma, a nossa forma brasileira. Num país onde os miseráveis são muitos, o Estado pouco se interessa pela proteção animal, quem dirá dar subsídios para associações protetoras de tal tipo. O povo faz então seu voluntariado “à la brasileira” e essa situação aqui também vai acabar em samba, mas com direito a reverter os fundos arrecadados para algumas associações protetoras dos animais.

Neste caso posso dizer com certeza que adoro o nosso “jeitinho brasileiro”.

Até a próxima!

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Silvester e São Silvestre

Quando estamos na Alemanha, nossas passagens de ano costumam ser assim: um frio de rachar, todo mundo na varanda, envolto em luvas e cachecóis, com uma taça de champanhe na mão, batendo os dentes, contagem regressiva até os fogos estourarem pela cidade, todos se abraçam, “Alles Gute im neuen Jahr!” e ficamos ali tiritando e vendo o céu ser tomado por chuvas brilhantes de todas as cores. Depois de dez minutos, ninguém mais aguenta e voltamos para a sala quentinha, onde mais champanhe nos aguarda e uma sopa de lentilha, para aquecer e dar sorte. Isso é Silvester.

No Brasil, é óbvio, ninguém fica tiritando na varanda. Estamos pouco abaixo do Equador, onde, sabidamente, todos andam quase pelados e suando em bicas. Eu nunca fui muito chegada a festas de arromba e só virei o ano uma única vez em Copacabana – honra seja feita, gostei. Mas minha maneira preferida de festejar a chegada do ano novo, quando estou no Brasil, é na beira de alguma praia menos visitada, de bermuda, camiseta e havaianas, com minha família e alguns amigos por perto. Sem alardes, sem grandes expectativas, com alguma tranquilidade, abraços sinceros e uma bebida gelada para matar a sede. Para mim, isso é começar o ano com o pé direito.

Este ano, porém, nem uma coisa, nem outra. Nossa viagem para a Alemanha foi justamente na noite do dia 31. Pela primeira vez, íamos passar a meia-noite longe de tudo, numa cabine de avião. Muita gente tentou nos consolar, dizendo que as companhias aéreas costumam servir champanhe ou algum extra por conta da data especial. Outros nos olhavam com uma certa compaixão. Mas nós estávamos satisfeitos, sabendo que íamos economizar uns 400 euros por pessoa escolhendo esta data. Só não contávamos com um detalhe: a chuva torrencial que assolou o Brasil em dezembro e transformou a nossa partida numa pequena aventura.

Já no dia anterior, depois de passar a manhã na praia, um temporal nos obrigou a ficar em Niterói até tarde da noite, esperando a situação nas ruas melhorar. Enquanto isso não acontecia, o carro da minha irmã enguiçou e teve de ser rebocado, deixando-a na chuva com um grupo de visitantes vindos do Nordeste para o fim de ano na cidade maravilhosa. Levei uma parte do grupo para casa no meu carro, mostrando algumas das nossas maravilhas: ruas inundadas, camuflando buracos insuspeitados, e motoristas de ônibus decididos a nos mostrar quem manda nas ruas, quer dizer, eles. Em um trecho particularmente cheio d’água, um ônibus vindo no sentido contrário e dois que nos ultrapassavam pela direita me deram a sensação de estar dirigindo sob as Cataratas do Iguaçú. Durante alguns segundos, não vimos nada além de água, muita água por todos os lados. Momentos inesquecíveis para os turistas dentro do carro, inclusive o meu alemão, que já é de casa, mas que, naquele momento, perdeu todo o bronzeado adquirido na praia.

Chuva à vista

Até aqui, estava tudo bem.

Depois de passar a tarde e parte da noite esperando a chuva estiar, lá fomos nós a caminho da ponte e da Linha Vermelha, rezando para que a água já tivesse baixado e para não encontrar pelo caminho os motoristas dos três ônibus assassinos. Chegamos sãos, salvos e secos. A chuva continuou durante toda a noite.

No dia seguinte, céu nublado, mas sem chuva, fizemos as malas e nos preparamos para sair de casa com antecedência. O caminho de casa até o Galeão não leva mais que uns 15 minutos, então saímos umas três horas antes. O que não sabíamos é que tinha começado a chover novamente no outro lado da cidade e que a Avenida Brasil estava, mais uma vez, alagada. E Avenida Brasil intransitável significa ruas interditadas na Ilha do Governador. Antes de chegar à via principal do bairro, já enxergamos o mega engarrafamento de longe. Dei meia volta e peguei uma via alternativa, mesmo não gostando da ideia de passar por uma favela e temendo os efeitos da chuva ali também. No meio do caminho, depois da favela, deparamos com um grupo de carros parados. Quando vimos alguns subindo na calçada, já sabíamos: água. E não era pouca. Um carro da polícia tentava atravessar pela calçada, também já coberta pela água. Havia três carros atolados na lama do canteiro central, depois de tentar atravessar para a pista na contramão, um deles uma picape. De cara para o mar barrento à minha frente, fiquei esperando enquanto uma outra caminhonete atravessava o aguaceiro, deixando atrás uma pequena pororoca. Quando o fenômeno acabou, respirei fundo, engatei a primeira e lá fui eu com o pé no acelerador e todos os santos ajudando, mais a torcida do marido que repetia “vai, vai , vai, vai”. Quando cheguei do outro lado e o carro continuou andando, senti falta de um pódio para subir e pegar meu troféu. Mas era cedo para isso.

Faltando uns 100 metros para pegar a rua que leva ao aeroporto, ficamos presos num trecho do engarrafamento gigante que paralisava o trânsito na Ilha. Levamos uma meia hora para sair dali, usando de todos os recursos para nos adiantar: cortar caminho pelo ponto de ônibus, subir um trecho na calçada, buzinadas, xingamentos, súplicas e a mão pela janela, com o polegar para cima, dando um “aí, valeu” a todos que nos deixavam passar. Quando finalmente entramos para o Antonio Carlos Jobim, juro que tive vontade de cantar o Samba do Avião, pois minha alma realmente cantava, embora o motivo não fosse a água brilhando, mas a pista chegando.

No fim, tudo deu certo. Carro entregue, vistoria feita sem problemas, check-in rápido, deu até tempo de comer um último pão de queijo e comprar revistas na sala de embarque. Foi a nossa corrida de São Silvestre.

O epílogo foi menos emocionante. Pegamos a conexão em São Paulo e ficamos aguardando a decolagem na pista, vendo os fogos da meia-noite pela janelinha. A tripulação anunciou uma taça de espumante como cortesia para todos os passageiros, mas devem ter calculado mal a quantidade, pois a nossa e outras fileiras vizinhas ficaram só na vontade. Foi o primeiro ensinamento do ano: não adianta ficar sentado esperando, tem que correr atrás para conseguir o que se quer. Que venha 2010!

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Beijos

Vou confessar: nunca gostei muito que me chamassem de querida. Sempre me pareceu um palavra desperdiçada, na maioria das vezes dita sem muita convicção. E também nunca fui de mandar beijos para qualquer um, prefiro terminar minhas mensagens com um honesto “abraço”.

Talvez por isso tenha me adaptado bem àquilo que muitos brasileiros chamam de “o jeito frio” dos alemães, mas que eu prefiro chamar de pragmatismo. No trabalho, acho muito mais prático receber um telefonema e a pessoa já ir logo dizendo: bom dia, sou fulano de tal e gostaria de saber isso assim e assado. Principalmente naqueles dias em que o prazo é curto e você já nem sabe para onde correr, não há nada pior do que atender o telefone e a conversa começar assim:

– Escritório de tradução, bom dia.

­– Bom dia, com quem eu falo?

– Bete.

– Bete, querida! Eu estou com um probleminha, será que você pode me ajudar?

E aí vem primeiro a história da vida de alguém que eu nem conheço e que, na verdade, precisa apenas da tradução da carteira de motorista. Podia ser resolvido em cinco minutos, mas vira quase uma conversa de comadres e termina com “beijos e obrigada, viu, querida?”.

O que não significa que eu prefira grosserias e patadas, como as que um cliente uma vez tentou me dar por achar que meu preço por linha era absurdo. O homem soltou uma carreira de insultos e palavrões, que me deixou parva por alguns segundos – afinal, um palavrão bem dito em alemão não é bolinho. Mas eu até que reagi bem, levantei com calma, abri a porta da sala e pedi que ele se retirasse e procurasse alguém que cobrasse menos e não se importasse com o palavreado dele. Quase o chamei de querido, mas achei que ele poderia engrossar de vez e não disse nada.

Mas o que eu queria mesmo dizer sobre beijos e abraços na Alemanha é que essas coisas mudaram muito nos últimos anos. Quando cheguei aqui, fora a avó do meu marido e ele próprio, quase ninguém me abraçava e beijava (aliás, é interessante notar que justamente uma pessoa da antiga geração era mais generosa com carinhos, apesar de toda a disciplina e rigor da época em que foi educada). Lembro que quando conheci o casal de melhores amigos do meu marido e os cumprimentei com beijinhos e abraços, os dois ficaram quase que petrificados, sem saber o que fazer. Com o tempo se acostumaram e até exageravam no aperto dos abraços.

Hoje, porém, todo mundo se beija e se abraça neste país. Principalmente os mais jovens. Parece que as coisas tomaram o rumo oposto e as demonstrações de afeto em público passaram a ser a ordem do dia.

Faz uns dias, estava conversando sobre isso com uma amiga alemã que morou vários anos no Brasil e conhece bem a nossa cultura. Ela contou que tinha um namorado brasileiro, muito antes de conhecer o Brasil. Um dia, levou-o para conhecer a cidadezinha onde tinha nascido e seus amigos de infância e juventude. Passaram uma noite em um barzinho, bebendo, conversando, programa típico de universitários. Quando saíram de lá, ele estava meio chateado, achando que as pessoas não tinham sido muito atenciosas. Ela estranhou, tinha achado todos normais, e ele só disse: “Espere até você ir ao Brasil, aí você vai entender”. Pois foi o que aconteceu. Depois de passar um tempo no Brasil e ter a experiência do contato caloroso com as pessoas, ela mesma estranhava alguns costumes na Alemanha.

Enfim, continuo não gostando que me chamem de querida. Mas é muito bom constatar que um abraço bem dado deixou de ser exceção por aqui.

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Cultura sanitária

Conversa sobre “choque cultural” geralmente vem recheada dos comentários de praxe: mentalidades diferentes, outros valores, intolerância, um monte de coisas abstratas que ficam muito bem em livros, palestras, aulas e discussões mais aprofundadas. Mas na prática, acredito que cada um tem a sua versão particular do que vem a ser isso.

Para mim, o choque cultural mais evidente é sanitário e começa já no aeroporto.

Chega aquele vôo lotado de São Paulo em Frankfurt, os brasileiros desembarcam e não demora muito já se forma uma fila de mulheres no primeiro banheiro que aparece. Chega a sua vez, você entra na cabine apertadinha e vê pedaços de papel higiênico amontoados num cantinho atrás do vaso. Porcaria, descaso? Não. Faltou o lixinho! No Brasil, é normal encontrar avisos na parede, pedindo que o papel não seja jogado no vaso, para evitar entupimentos. O ato de jogar o papel no lixinho é tão natural que é fácil imaginar as brasileiras em Frankfurt, com os jeans pelos joelhos e o papel na mão, sem saber o que fazer com ele.

Para quem já passou muito tempo fora do Brasil, como eu, o choque sanitário acontece às avessas. Primeira visita a um banheiro público e o papel vai direto para o vaso. Descarga dada, a água começa a subir de forma ameaçadora e eu ali, já rezando para a inundação parar antes de começar. Saio da cabine olhando para os lados, me sentindo culpada. O papel ficou lá, nadando em círculos, como prova de que banheiro também é cultura.

Aliás, banheiro é um tema que ainda pode dar muitos posts. Na comunidade de tradutores no orkut houve há tempos uma discussão divertida e instrutiva sobre a importância (ou não) do lixinho. Mas por hoje, fico por aqui.

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