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Já acabou?

Eu não sei vocês, mas pra mim esse ano passou quase que num piscar de olhos.

Estava aqui vendo minhas anotações de ideias, planos, mudanças, coisas que pretendia ter realizado durante o ano e fui adiando por falta tempo. A minha sensação é de que eu mal comecei, mas a verdade é que faltam poucos dias para o ano acabar. Não foram 12 semanas, mas 12 meses que já se passaram desde que essas ideias foram para o papel – e algumas de lá não saíram.

Acho que todo profissional tem essa síndrome-de-fim-de-ano. Além de fazer as contas e traduzir em números aquilo que a gente vinha intuindo durante a correria do trabalho (Foi bom mesmo? Podia ter sido melhor, ou pior? Sobrou alguma coisa? E o que vai dar pra fazer com isso?), é  o momento em que a gente tenta parar pra tomar fôlego e ver se está indo na direção certa, antes que a próxima rodada comece.

Esse ano, acho que minha maior falha foi não ter controlado melhor minha agenda. Sim, eu confesso que sempre me dei mal com calendários, tenho uma péssima capacidade de avaliar o tempo e as agendas acabam se tornando belos cadernos de notas na minha mesa, ou na minha bolsa. Junte a isso um ano cheio de viagens, de idas e vindas, de novos projetos, novos horários e mudanças de clientes, e você talvez entenda a razão da minha surpresa com a chegada repentina do Natal.

O ano não foi mal e não faltou trabalho, pelo contrário. Por isso mesmo, e por não ter me preparado melhor pra isso, passei a maior parte do tempo correndo atrás, com várias laranjas no ar e outras passando pelas mãos rapidamente. Acho que umas duas caíram no chão, sem grandes estragos. Mas se eu quiser tirar aquelas ideias do papel (que são muito boas pra desperdiçar) e juntá-las às minhas laranjas, vou ter que me organizar melhor, definir melhor meus prazos, fazer da minha agenda a minha melhor amiga e confidente. E talvez, quem sabe, arrumar um assistente de malabarista, alguém que, pelo menos, me jogue as laranjas na hora certa e segure a tempo aquelas que estão a caminho do chão.

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Os riscos da vida de intérprete

Um colega me enviou uma notícia que gostaria de compartilhar com vocês, depois de um longo tempo afastada do blog.

Em Colônia, corre atualmente um processo que ficou conhecido como “Mord ohne Leiche”, ou “Homicídio sem corpo”. Três réus são acusados do assassinato de uma mulher filipina, cujo corpo ainda não foi encontrado. O processo estava em vias de ser concluído, com a condenação dos réus, quando o tribunal tomou conhecimento de que a intérprete havia participado de passeatas pedindo justiça para a desaparecida, distribuído panfletos na entrada do tribunal, é membro de uma associação em defesa das mulheres filipinas e tinha contato com algumas das testemunhas do processo. O advogado de defesa entrou com petição para que a intérprete seja dispensada por conflito de interesses, pedindo que todas as testemunhas sejam ouvidas novamente, já que há suspeita de que não tenha atuado com imparcialidade. A juíza aprovou a petição e determinou que as testemunhas sejam ouvidas novamente, o que exigirá cerca de nove dias adicionais para o processo. A intérprete corre o risco de ter que arcar com parte das custas processuais, que podem chegar a 50 mil euros.

O caso ilustra bem a responsabilidade do trabalho do intérprete em tribunais, que vai muito além do mero comportamento profissional na sala de audiências.

No caso em questão, há alguns detalhes que chamam a atenção. O tribunal e a promotoria não se informaram antecipadamente sobre um possível envolvimento emocional da intérprete com o caso. A intérprete deveria ter chamado a atenção do tribunal para o fato de ser ativa na defesa dos direitos de mulheres filipinas. Em vez disso, ela se mostrou surpresa com a reação do tribunal e afirma que vive numa “sociedade livre” e tem o direito de expressar sua opinião, argumentando que agiu corretamente durante os depoimentos, interpretando fielmente todos os testemunhos prestados.

Não sei o que vocês acham, mas a história me fez lembrar de uma decisão que tomei há vários anos, quando servia de intérprete para hospitais em Stuttgart. Era um trabalho que me dava pouco retorno financeiro, mas que fazia por achar que estava prestando uma ajuda às muitas famílias que não conseguiam se comunicar, talvez justamente nos momentos mais difíceis de suas vidas, com um ente querido doente. Era um trabalho honroso, mas difícil e que me deixava sempre um pouco abalada, pelos dramas presenciados. Um dia, depois de interpretar em um caso particularmente triste, do qual saí aos prantos (eram eu, os médicos, a família, todos chorando), resolvi não continuar e passei a recusar esses serviços. Cheguei à conclusão de que não estaria em condições de ajudar ninguém, pois não conseguia manter a distância necessária para isso. Acredito que se um dia tivesse que ser intérprete no caso de alguma brasileira assassinada, envolvendo pessoas que eu talvez conheça, estaria numa situação semelhante e preferiria recusar e me envolver de outra forma.

E vocês, o que acham?

Se quiserem ler as notícias sobre o caso (em alemão), cliquem aqui ou aqui.

 

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Que perguntas você faz ao seu cliente?

Meu pai já dizia: é conversando que a gente se entende. Deve ser por isso, e talvez por causa do Chacrinha, que todo domingo aparecia na televisão lá de casa para dizer que “quem não se comunica, se trumbica”, que eu resolvi estudar Comunicação Social. Até mesmo minha entrada no mundo da tradução foi por aí, ajudando pessoas a se comunicar. Curiosamente, embora eu adore estar com amigos e levar um bom papo, durante todos esses anos eu não consegui me livrar de uma coisa que faz parte da minha minha natureza: a introversão. Ser introvertida tem suas vantagens e eu juro que minha autoestima vai muito bem, obrigada, não pretendo me transformar em outra pessoa a essa altura do campeonato. Mas há momentos em que isso pode atrapalhar. Dependendo do dia, pegar no telefone para falar com um cliente que ainda não me conhece pode ser um esforço fora do comum.

Uma das conversas com o André e o Marcos Zattar outro dia girou em torno disso. O André, por exemplo, é adepto do telefone e provavelmente um dos melhores clientes do Skype. Já cansei de receber telefonemas em resposta a perguntas que mandei por e-mail. Já eu e o Marcos pensamos mais com os dedinhos, escrevemos às vezes verdadeiros tratados e pegamos no telefone quando nos parece mais efetivo. Mas uma coisa é a comunicação entre colegas, outra a procura de novos clientes, ou mesmo a troca de informações com eles. Qual a melhor maneira de manter contato com os clientes? E-mail? Telefone? Visitar a empresa? Estar presente em feiras? E, o que é mais importante, quando você escolheu o canal, o que você diz para ele?

Por coincidência, ou talvez apenas porque esse é um assunto com o qual todos nós nos debatemos, a Patricia Lane publicou ontem no seu excelente blog Intercultural Zone um artigo a esse respeito: Want to develope your business? Ask smarter questions! Recomendo a leitura a todos, mesmo aos que acreditam que já sabem tudo a respeito, ou aos que ainda acreditam que o tradutor pode viver escondidinho no seu casulo, protegido do cliente pelo monitor e o teclado. Pode não parecer, mas o mundo virtual não substitui o contato direto e muitas vezes funciona até mais como uma porta para fechar depois contratos com um aperto de mão de verdade. Se você usa a internet de alguma forma — e não imagino tradutor profissional que viva sem isso hoje em dia — alguém vai descobrir que você existe. Uma hora vão bater na sua porta e você terá que limpar o pigarro e fazer uso das cordas vocais. Antes que isso aconteça, leia o artigo da Patricia Lane.

 

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Dá uma forcinha aí, vai?

Isso era para ser uma resposta aos comentários da Candice e do André no último post, mas achei que merecia um espaço maior. A Candice comenta que “infelizmente, há muito amadorismo por aí” e o André levanta a hipótese que a intérprete do nosso caso talvez tivesse sido vítima da típica situação de quem vai “dar uma força” para um amigo ou colega.

Concordo com as opiniões, mas acho que tem mais coisa nisso. Acredito que tudo depende de como você encara o que faz na vida, seja a sua profissão ou qualquer outra coisa. O que falta, geralmente, é seriedade, no bom sentido.

Não estou falando de tradutores sisudos, ou gente mal humorada. Também não estou falando de  perfeição, até porque conheço pouca gente tão desligada e capaz de cometer erros como eu. Nem estou falando de não correr riscos e só seguir caminhos que você já conhece. Seria a última pessoa a criticar quem se arrisca a enveredar pelas trilhas da tradução ou interpretação sem ter formação na área, já que eu mesma não a tenho.

Estou falando de levar a sério aquilo você resolve fazer, seja um pãozinho de queijo para o café ou a tradução de um contrato. Estou falando de tentar fazer o melhor que você é capaz, mesmo sabendo que não vai ser perfeito. E estou falando de dar valor àquilo que você (e os outros) fazem.

Um exemplo: a primeira tradução da minha vida foi feita “dando uma forcinha” para um amigo. Ele era poeta, ia publicar um livrinho e queria que eu o ajudasse a traduzir trechos de um texto em alemão que ele pretendia citar na sua introdução. Eu topei porque era meu amigo. Levamos mais de um mês trabalhando juntos naquilo. A mulher dele, alemã, nos ajudou. Eu acabei até lendo mais coisas do tal autor alemão, para saber mais sobre ele e entender melhor o que estávamos fazendo. A gente batalhou, se divertiu, não ganhamos nada com aquilo, mas terminamos todos felizes e satisfeitos com o resultado. Isso é seriedade.

Outro exemplo: eu trabalhava no consulado do Brasil fazia uns anos e um dia me ligou a coordenadora de eventos de uma instituição cultural em Stuttgart, que eu conhecia de outras oportunidades. Estavam organizando um evento em que grupos culturais sul-americanos se apresentariam e haveria palestras de experts sobre diversos países. Ela queria que o cônsul fizesse uma palestra sobre o Brasil, sua história, política, economia.  Ele não podia, então ela perguntou se eu não poderia “dar uma forcinha”. Nem pensei duas vezes, agradeci e disse que não. Ela ficou indignada, achando que eu não queria colaborar. Não adiantou eu explicar que não entendo nada de política e economia, que a palestra ia ser em alemão e eu não me sentia segura para aquilo, que de forma alguma eu podia comparecer como representante oficial do consulado para vender mal o peixe do meu país e era melhor ela procurar um verdadeiro expert. O comentário final dela foi que “se fosse eu, me sentiria honrada e a gente sempre pode falar qualquer coisa sobre o próprio país”. Lamento, mas falar qualquer coisa não é sério.

Último exemplo: um dia, uma amiga, querendo me “dar uma forcinha”, perguntou se eu não queria ser a intérprete de um congresso acadêmico. Os organizadores já tinham feito contato com um intérprete, mas o colega era caro, eu podia me apresentar e oferecer um preço menor. Disse que não faço simultânea, então não dava, e achei melhor nem comentar a questão do “preço menor”. Ela ainda insistiu que eu tenho experiência, seria uma boa oportunidade. Aí expliquei que simultânea é outra coisa, eu não domino a técnica e se seu aceitasse, ia queimar meu filme e o deles, fazendo um serviço mal feito. Era melhor ela contratar o colega. A resposta foi “que pena, mas você tem razão”. Isso é sério.

Pode parecer que eu sempre faço a coisa certa. Não é verdade. De vez em quando faço besteira e bato com a cabeça na parede novamente, para não esquecer que errar é um direito de todos. Mas é por isso mesmo que vivo pensando nessas coisas e tentando desviar das paredes. Dor de cabeça atrapalha a produção!

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