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Feira da Livro chegando

Pois é, pessoal, esse blog sofre com a minha crônica falta de tempo e de organização. Mas ele resiste e cá estou eu de novo, ainda lutando contra a agenda, mas voltando para compartilhar com vocês uma dica quente.

Eu já disse aqui antes que sou fã incondicional do crítico literário Denis Scheck e do seu programa Druckfrish. Pois no domingo passado, o Druckfrisch esteve no Brasil, mais precisamente no Rio, e o Denis Scheck nos presenteou com mais um programa delicioso, subindo a um Cristo Redentor em céu nublado, como todo bom carioca o conhece, recomendando a leitura de Ernst Jünger, que também tinha algo a dizer sobre a cidade, entrevistando o tradutor Marcelo Backes e o autor Daniel Galera, cujo romance “Barba ensopada de sangue” foi lançado pela editora Suhrkamp com o título “Flut”.

Tudo isso antecipando a Feira do Livro em Frankfurt que abre suas portas na semana que vem e terá o Brasil como país convidado, como muitos aqui já estão cansados de saber. Tem Brasil para todo lado neste outubro na Alemanha. E eu fico contente que o Denis Scheck tenha dado a partida com um programa sem bossa-nova, sem sambinha, com uma praia bem urbana e uma trilha sonora idem. Não que eu não goste de samba, mas puxa, que bem fez ver um Brasil com menos clichês na TV alemã!

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A vida (do intérprete) como ela é

Voltando de um dia de interpretação na semana passada, aproveitei a viagem de trem para pensar em preto e branco, anotando tudo para compartilhar aqui com vocês.

Depois de meses sem fazer simultânea, foi difícil largar meu bloquinho amigo da consecutiva e tentar me concentrar em outros detalhes – controlar os meus ahns, não ouvir o coração bater mais forte quando perco alguma coisa e seguir em frente, lembrar que os números estão projetados na tela e que há um colega ao lado para me ajudar. No final do dia, já estava engrenando e me acostumando novamente, mas já sei que a próxima vez não será muito diferente, se não vierem outros serviços nas próximas semanas.

O dia correu bem. O grupo de ouvintes era pequeno e formado por gente simpática, o colega que me contratou para fazer dupla não podia ser melhor, e a jornada a dois, com pausas para cafés e almoço, foi bem razoável. Mas cada experiência é mais uma lição, e desta vez fiquei pensando naquilo que aprendemos nos cursos e na realidade que encontramos depois no exercício da nossa profissão.

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)

O melhor dos mundos: cabine de interpretação no Tribunal da Justiça Europeu. (Fonte: Wikipedia)


A gente estuda e se prepara para uma situação padrão: evento, cabines montadas, palestrantes com microfone lá na frente e transparências projetadas. No melhor dos mundos, você recebeu algum material informativo antes e teve tempo suficiente para se preparar. No paraíso, talvez até algum palestrante tenha enviado sua apresentação antes. Mas todos nós sabemos que a realidade, muitas vezes, é outra. E é preciso estar preparado para isso também.

O evento da vez era internacional e dirigido a um público principalmente acadêmico. Foi definido que seria realizado somente em inglês, sem intérpretes. O grupo para o qual interpretamos estava em viagem pela Alemanha, fazendo visitas técnicas, e participou apenas do primeiro dia do evento. Economicamente, não era viável instalar cabines apenas por um dia, para um grupo de não mais que dez pessoas. A solução foi usar equipamento portátil.

Para completar o quadro, o local do evento era um estádio de basquete. O palco das seções plenárias foi montado na quadra, com o público (e nós, intérpretes) sentado na arquibancada, tudo escuro como numa sala de cinema e uns holofotes de uma luz azul penetrante direcionados para a plateia. Acústica zero – precisa dizer? – acompanhada daquele inglês língua franca(mente-faça-me-o-favor!) que faz você pensar que aquela prova de compreensão auditiva do CPE, com um escocês doido falando, era de tirar de letra. As salas das comunicações, pelo menos, eram bem iluminadas, mas aí o problema era enxergar lá longe as transparências cheias de texto, gráficos e números minúsculos, e falar bem baixinho, para não atrapalhar o resto do público. Bastava você se empolgar só um pouquinho com a entonação e logo algumas caras feias se viravam para trás e lançavam aquele olhar fulminante na sua direção.

Todas essas dificuldades são mencionadas nos nossos cursos – ou, pelo menos, deveriam ser. Pessoalmente, acho até que aprendi mais, durante o curso, com os áudios de má qualidade, pois eles nos preparam melhor para essas tempestades que vêm pela frente. Mas uma coisa é você lidar com isso enquanto está pagando para aprender, outra é encarar a possibilidade de erro quando alguém está pagando pelo seu desempenho.

Nos próximos posts ainda vou comentar mais alguns detalhes que, pelo menos para mim, são importantes. Mas agora, me contem: por quais agruras vocês já passaram nessa vida de intérprete?

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Censura no Houaiss na Internet

Vim aqui rapidinho para indicar a leitura do artigo “Santa Ignorância” no blogue do Danilo.

O Houaiss não está disponibilizando o significado de certas palavras consideradas politicamente incorretas (veja o motivo aqui) na Internet.

Essa ignorância não pode passar em branco. Divulgue você também!

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Chutando bem

A época das tardes na biblioteca, consultando dicionários, livros e enciclopédias, com uma lista de termos e dúvidas anotados durante a tradução de um texto pela manhã, ficou para trás, ainda bem. Não que eu não goste de bibliotecas, pelo contrário. Mas convenhamos que nenhum de nós sonha em abrir mão do conforto e da rapidez que a internet nos proporciona.

O que não mudou é que, ontem como hoje, tradutor que se preza, quando em dúvida, sempre consulta. Faz uma busca no google, confere a palavra no dicionário ou pergunta a alguém que entenda mais do assunto do que ele. E ficou tão mais fácil encontrar respostas para as nossas perguntas que ficamos mal acostumados. Queremos resposta para tudo e de preferência para ontem.

Acontece que ainda há situações que não permitem isso. Quem é intérprete, já deve ter passado por momentos em que apareceu aquela expressão que não estava na terminologia estudada, ou em que o cérebro resolveu provar que você pode até mandar muito, menos nele. Nessas horas, nem tudo está perdido.

Eu sou mergulhadora e aprendi debaixo d’água talvez a mais importante regra de sobrevivência em qualquer situação: continue respirando! Seu cérebro precisa de oxigênio para continuar funcionando e você vai precisar dele para fazer o que é necessário nessas horas: chutar. Mas chutar bem! 

Chutar bem é uma arte. Você precisa saber para onde e como está chutando, para ter uma chance de acertar, pelo menos, na trave. Traduzindo, ou interpretando, isso significa que você precisa entender muito bem o contexto e a língua de partida para ter uma noção do que está sendo dito e do que aquela palavra pode significar.

Quando estou fazendo uma interpretação consecutiva e perco alguma coisa, ou sai um daqueles termos de novíssima tecnologia, vestido de branco para me assombrar, eu respiro e me concentro no resto. O que ainda vão falar pela frente pode servir de ajuda. E, afinal, na consecutiva você tem a vantagem de poder até pedir que a pessoa explique melhor o que disse, antes de fazer a sua parte. Se você não conhece o termo, poderá ao menos explicar o que é.

A simultânea, que estou tentando aprender no momento e por cujos colegas tenho um enorme respeito, é um mergulho ainda mais profundo, pois tudo é muito rápido. Talvez seu parceiro de cabine possa ajudar (no curso, ainda somos lutadores solitários, ninguém por perto). Talvez você seja tão “multitasking” que até consiga procurar a palavra no laptop paralelamente e encaixá-la lá na frente (eu ainda estou ocupada demais ouvindo e formulando frases para conseguir usar o teclado). Mas se você estiver bem concentrado, acompanhando bem a matéria, é bem capaz que o chute saia sem você nem perceber. Isso me aconteceu outro dia durante a aula e, sinceramente, nem me lembro mais da palavra. Só me lembro da sensação de ter falado uma grande besteira e do alívio quando a continuação da palestra confirmou o que o instinto no pé já tinha mandado para a frente – logo eu, que sou péssima com qualquer tipo de jogo de bola.

Um bom exercício para treinar chute ao gol é ler sem o auxílio de dicionários, seja na língua estrangeira ou na própria língua. Adquiri essa mania na infância. Por pura preguiça de procurar as palavras, preferia ler sem parar, sublinhando o que não entendia bem, mesmo sob o risco de não entender todo o texto. Depois ia procurar as palavras e era uma alegria ver que estava certa em algumas suposições. Mas melhor ainda era descobrir onde tinha me enganado, o que abria meus olhos para novas leituras.

Não quero, de forma alguma, fazer aqui a apologia da imprecisão. Pelo contrário, nosso compromisso como tradutores e intérpretes é com a máxima precisão possível, a língua é nosso instrumento de trabalho e com isso não se brinca. Mas acho que não devemos esquecer do que nos fez chegar aqui – aquele prazer que nos fazia inventar palavras na outra língua, só porque o som parecia estar certo, lembram?  Tão importante quanto querer acertar é também não ter medo de errar e aprender como correr riscos, para que a queda não seja muito dolorida. O medo da imperfeição é paralisante. Já acertar na trave, às vezes, é quase como um golaço.

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Mais uma década

Quando a TV anuncia mais um resumo da última década quando o Ano Novo se aproxima e você não acha a menor graça naquilo, pode ser um sinal de que você realmente está envelhecendo. Esse ano, não quis saber de retrospectivas e ainda mei dei ao luxo de só ligar o computador para tratar de trabalho e responder a uns quantos e-mails. Já vi a retrospectiva de um século, quando o ano 2000 chegou, que graça tem ver só mais dez anos?

Mas o começo de um novo ano é sempre uma coisa “gostosa”, como diria o nosso ex-presidente. Não pelas festas, fogos e espumante à solta, mas pela largada simbólica para uma nova etapa. É uma desculpa para passar a borracha em todos os erros cometidos, em todos os aniversários esquecidos, os e-mails não respondidos, os planos e os reencontros adiados, e arregaçar as mangas para começar tudo de novo e tentar ser melhor desta vez.

Não que eu tenha ilusões de que muita coisa vai mudar, até porque nem quero que muita coisa mude, só algumas. Todos nós, que já cansamos das retrospectivas, sabemos disso. Mas o propósito dos meus sonhos nem sempre é realizá-los, mas saber que é correndo atrás deles que eu posso chegar a destinos que eu ainda nem conhecia e, quem sabe, descobrir que é por lá que eu quero ficar.

Portanto, nesse ano que começa, o que eu desejo a todos vocês é que esqueçam das retrospectivas, peguem suas malas vazias e saiam por aí atrás dos seus sonhos, enchendo a mala de coisas novas. As lembranças que importam, essas não precisam de mala, são leves e estarão sempre com a gente.

E o resto é saúde, tranquilidade e muita troca de abraços, que isso faz um bem danado.

Um feliz 2011 a todos!

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Marido de quem?

Esse negócio de blog é divertido. Eu escrevo com prazer e escreveria mais, se o tempo não fosse sempre tão curto, ou a minha organização tão precária. Mas agora mesmo, entrei aqui só para aprovar o comentário do Marcos no meu outro post  e aproveitei para ver a quantas andam as estatísticas do blog.

Uma das informações que sempre me interessam é aquela que indica como alguns leitores chegaram ao blog pesquisando termos na internet. O wordpress mostra as pesquisas mais frequentes e acho importante saber o que está dando ibope. Mas há resultados inusitados. Hoje, encontrei lá:

futebol integração e cultura, efeito do futebol sobre integração e cultura,  “agências de tradução”, futebol da integracao, traduçao beijar marido da amiga

Espera aí, marido de quem? E eu algum dia propaguei aqui que os maridos das amigas devem ser beijados, ou ensinei a beijar marido de amiga emvárias línguas? (Perigosa, essa história de línguas e beijos.)

Quer dizer, depois de tantos posts, o coquetel de palavras aqui está ficando bom. Tem lá um post esquecido sobre beijos e abraços — onde eu, aliás, deixo bem claro que não beijo qualquer um, nem por e-mail — algum outro falando de amigos e outros tantos voltados para a tradução. Deu nisso, uma mistura perigosa de palavras que estavam lá desavisadas no seu contexto, crentes que eram inofensivas.

Mas a lista da semana comprova a importância da estatísca: é evidente que o povo está interessado em saber o que o futebol tem a ver com integração e cultura. Então já vou ver se reservo uma horinha para terminar um post da Copa ainda inacabado.

E espero que a leitora tenha encontrado em algum lugar a maneira certa de dizer que beijou o marido da amiga. Ou terá sido a amiga que beijou o dela? Complicada, essa vida.

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Jogo rápido no intervalo

Isso nem chega a ser um post, mas queria contar para vocês.

Eu gosto de ouvir os locutores de futebol na TV alemã enquanto estou trabalhando na outra sala. A gente sente o tom de voz aumentando e sabe que estão chegando perto do gol.

Agora mesmo, no jogo (surpreendente!) França x México, ouvi uma ótima. O locutor foi dizendo os nomes do jogadores que davam passes, o tom de voz foi aumentando e aí o suspense terminou com ele dizendo “Fulano para Sicrano e… Bitte schön, Danke schön”.

Perfeito! Quem fala um pouco de alemão sabe que essa é de longe a combinação de frases mais usada nesse país. Ofereceu? Bitte schön! Recebeu? Danke schön! Há esquetes memoráveis de comediantes alemães usando isso em diálogos intermináveis. Pois o locutor soube usar isso muito bem. Mesmo quem não viu o que tinha acontecido, ficou sabendo que alguém no campo entregou a bola de mão beijada. Gostei.

Agora, sinceramente, aquele pênalti no segundo tempo merecia um grande “Danke schön!” dos mexicanos! Pode?

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Nós e o contexto

Todo bom tradutor sabe o quanto o contexto é importante para o serviço sair bem feito. Mas  vocês já ouviram falar também de culturas de “alto” ou “baixo contexto”?

Outro dia, durante um serviço como intérprete nas negociações entre empresários brasileiros e alemães, eu ouvi da boca de um brasileiro uma frase que me deixou matutando sobre certas premissas que se aprendem por aí em cursos de comunicação intercultural. Depois de muito vai-e-vem e de ter finalmente esclarecido alguns mal-entendidos que estavam dificultando a realização de um projeto, o engenheiro brasileiro vira-se para os companheiros do seu grupo e diz: “Mas por que é que não disseram isso logo? Teriam evitado a confusão.”

Um comentário, a meu ver, muito natural e bem a meu gosto. Mesmo assim, confesso que achei a situação um pouco inusitada. Ele queria que os alemães, justamente eles, que têm fama de ser impiedosamente diretos até a medula, tivessem dito algo de cara, sem rodeios, logo no início das negociações. O que tinha saído errado?

Pensando nisso, lembrei de uma coisa chamada high context ou low context culture. É um dos aspectos levantados nos estudos do antropólogo Edward Hall, que já citei aqui antes – nota-se que me interessei pelo assunto. Pois bem, Hall aborda a ideia de cultura partindo do conceito de comunicação. Para ele, cultura seria “um sistema que existe para gerar, transmitir, guardar e processar informação” e, portanto, a comunicação seria “o fio da meada que atravessa todas as culturas” (tradução livre minha de um trecho citado em alemão no livro de Michael Schugk).

Dentre outros aspectos, como a história dos policrônicos e monocrônicos no outro post, ele define culturas que têm formas distintas de se comunicar. As chamadas culturas de “baixo contexto” levam esse nome porque dão menos importância ao contexto, que, para Hall, é toda e qualquer informação que acompanha a mensagem — desde o espaço físico e as condições climáticas até experiências passadas. Nesses grupos, prevalece a comunicação verbal direta, explícita, linear. Nas suas observações, é aqui que ele enquadra os alemães.

Nós, brasileiros, ficamos no grupo das culturas de “alto contexto”. Nossa comunicação é circular, enviamos mensagens mais cifradas, esperando o retorno para mandar mais uma peça do mosaico que vai se formar no fim da conversa. Isso quando não paramos antes, já intuindo o resto da informação a partir do contexto. Não chegamos a ser tão exímios nessa arte quanto os asiáticos, mas temos uma forte tendência a deixar certas coisas implícitas e não exprimir tudo necessariamente em palavras.

O que eu suponho ter acontecido nas negociações que presenciei é simples: treinamento intercultural é algo muito comum na Alemanha quando funcionários são preparados para o contato com parceiros estrangeiros. Há cursos para sugerir estratégias de como se sair bem dentro dos novos parâmetros culturais. Posso bem imaginar o gerente de projeto alemão fazendo o possível para se controlar e não espantar o cliente com frases como “não vai dar”, “não fazemos isso”, “tivemos um problema e vamos atrasar a entrega”, ou  “só se vocês pagarem o dobro”. De tanto tentar fazer a coisa certa, ele acabou se enrolando ainda mais.

Acontece que nossos profissionais também já se internacionalizaram e aprenderam a negociar sem grandes rodeios. Quando lidam com alemães, esperam um comportamente objetivo, acreditam que o que está sendo dito é 100% confiável e nada ficou faltando. Daí a decepção do nosso engenheiro lá no começo.

Mas também pode ser que essa imagem do brasileiro cheio de dedos seja coisa do passado, ou nunca tenha sido realidade. Pessoalmente, sempre achei que generalizar é mau negócio. O alemão disciplinado, o brasileiro bom de bola, o inglês pontual, o argentino arrogante, tudo isso são etiquetas que podem dar boas piadas, mas raramente ajudam a compreender realmente as diferenças culturais que encontramos. Fato é que o mundo está ficando muito complicado.

E quem deixou isso aqui hoje fui eu de novo, a Bete.

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Mercado casamenteiro

As estatísticas dizem que cada vez mais casamentos acabam em divórcio. Mas parece que o pessoal não desanima e o número de casais dispostos a assinar o papel e trocar alianças não diminui.

Eu podia começar a contar agora casos do intercâmbio casamenteiro Brasil-Alemanha, o tema certamente dá bons tópicos. Mas vi hoje uma reportagem na TV alemã que me chamou a atenção e vou falar de um lugar que nem conheço: Israel.

Eu já sabia que existe na Dinamarca um verdadeiro turismo nupcial de casais, geralmente brasileiras e alemães frustrados com os obstáculos da burocracia alemã. E os casamentos “exóticos” em ilhas do Caribe ou do Oceano Índico também não são mais novidade. Mas agora fiquei sabendo que em Israel o casamento civil não existe, ou melhor, este e vários outros atos civis estão subordinados à religião. Casar, só com cerimônia religiosa judaica. Só que nem todo mundo lá é judeu. E esse pessoal, faz o quê?

Esse pessoal compra uma passagem para o Chipre. São apenas 40 minutos de viagem, compra-se o pacote completo, com registro civil, champanhe e hotel, e o assunto está resolvido. Pode não ser muito romântico, as filas podem ser grandes e a cerimônia não dura mais que uns cinco minutos, sem falar que repetir a fala do juiz cipriota em inglês é uma experiência quase tão inesquecível quanto o próprio casamento — sério, vendo a reportagem, não entendi uma palavra. Enfim, a coisa funciona, os casais voltam felizes e o Chipre descobriu uma nova fonte de renda. Em algumas cidades, os negócios gerados pelos casamentos de casais israelenses já representam 25% do orçamento.

É pena o vídeo não estar disponível, mas o texto da reportagem está no site do canal ZDF para quem quiser conferir.

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HB-Frauchen

A vantagem de ter dois autores no blog é essa: nem sempre somos da mesma opinião. E como a nossa proposta é mesmo trazer para cá as nossas conversas e partilhá-las com vocês, é isso que eu, Bete, vou fazer agora.

Concordo com o André quando diz que mulheres, infelizmente, nem sempre são levadas a sério quando reclamam ou exigem seus direitos. Mas questiono se isso é uma característica particularmente brasileira e, principalmente, se as coisas na Alemanha são assim tão diferentes. E mais: mesmo correndo o risco de levar paulada, pergunto se essa “falta de respeito” não é resultado também da postura que muitas de nós, mulheres, assumimos voluntariamente, tentando ser boazinhas e educadas (e não me excluo desse grupo). Mas vamos por partes.

Quando saí do Brasil, com 23 anos, eu não era exatamente um exemplo de mulher emancipada. Para falar a verdade, essa questão nunca me interessou muito e continua me interessando pouco. Afinal, o que é “emancipada”? Ganhar seu próprio dinheiro, morar sozinha, viver com o namorado mesmo sem casar, fazer topless na praia, comprar briga sem medo? Só isso? Eu morava com meus pais, exercia uma profissão que me dava satisfação e pouco dinheiro, tinha os amigos que queria, estudava o que queria, estava razoavelmente satisfeita com a vida que levava. Isso devia ser emancipação suficiente.

Nos primeiros anos de Alemanha, como meu marido ainda estudava e naquela época os cursos à noite ainda não haviam chegado nesse país tremendamente desenvolvido, quem ganhou dinheiro para pagar aluguel e despesas da casa fui eu. Minhas amigas brasileiras achavam isso muito natural. As alemãs perguntavam por quanto tempo eu ainda planejava fazer isso e o que faria quando engravidasse. Foi a primeira vez que ouvi essa pergunta — filhos ou trabalho? Na minha terra e no círculo de pessoas com quem eu convivia, não era preciso escolher,  era normal seguir a vida com as duas coisas, dá-se um jeito. Para minha surpresa, muitas alemãs emancipadas, que levavam o namoradinho para dormir com elas em casa já aos 17 anos, desistiam de suas profissões assim que um marido aparecia acenando com um bom salário. Já meu pai, um cara extremamente conservador, que se contorcia ao ver as filhas de saia curta e reclamava quando elas chegavam em casa depois da meia-noite, mesmo depois dos 18 anos, queria que as filhas tivessem uma profissão para “não depender de marido se um dia ele tratar ela mal”. Onde está aqui a emancipação?

Conheci muitas brasileiras que sofreram no mercado de trabalho alemão por não serem tratadas da mesma forma que os homens. Principalmente nas profissões técnicas e nas grandes empresas alemãs, as mulheres ainda são vistas frequentemente em cargos com menos responsabilidade e quase sempre ganhando menos que os colegas que exercem exatamente a mesma função. De fato, a diferença entre os salários de homens e mulheres vem aumentando nos últimos anos e hoje gira em torno de 23%, como mostra um artigo na revista Der Spiegel. Embora esse fenômeno não seja exclusivamente alemão, já que ele existe também em muitos outros países, isso talvez corrija um pouco a imagem da alemã emancipada. O mesmo artigo indica, por exemplo, que essa diferença é menor em países europeus tidos como mais “machistas”, como Portugal e Itália (que tem o menor índice, com apenas 4,9%).

Mais que isso, o que me chama a atenção na sociedade alemã é a associação feita entre mulher bem-sucedida e comportamento masculinizado (uso a palavra na falta de coisa melhor no momento). Explico com uma historinha vivida há muitos anos e que me ensinou como as coisas funcionam por aqui. Eu estava na fila da sorveteria, esperando ser atendida. Quando chegou a minha vez, um grandalhão atrás de mim soltou a voz de tenor pedindo o sorvete dele. Eu olhei para trás e disse que eu estava na frente. Ele respondeu que eu não tinha dito nada, então eu perguntei: “O senhor quer que eu faça o quê, que eu grite?”. E a resposta foi “Na klar!”  (claro!).  Ali eu aprendi que os alemães levam você  mais a sério se você falar alto. Entendi por que meu marido tinha brigas homéricas com a mãe por causa de merrecas e por que minha sogra era uma pessoa que se exaltava ao telefone para pedir uma simples informação. As pessoas na Alemanha falam alto para serem realmente ouvidas. E isso é uma característica que se encontra também no mundo profissional. Muitas das mulheres em cargos de chefia nas empresas alemãs têm um perfil dominante e são às vezes mais temidas que seus colegas homens. Para serem vistas, ouvidas, “respeitadas”, elas tendem a exagerar.

Pessoalmente, tenho dúvidas se essa é uma estratégia que funciona bem no Brasil. A começar pelo fato de que falar alto nem sempre dá bons resultados entre brasileiros, seja o grito dado por um homem ou uma mulher. Muitas vezes o que pode acontecer é o tiro sair pela culatra e você não receber o que é seu direito, justamente porque gritou.

Minha mãe, por exemplo, adora gritar, pelo menos dentro de casa e principalmente com a empregada. E vive reclamando que tudo ficou difícil depois que meu pai morreu, que uma mulher não é levada a sério pelos homens, que se fosse meu pai resolvendo as coisas, os problemas não existiriam. Mas, outro dia, ela precisou ir à Cedae resolver um problema de abastecimento de água no apartamento de um inquilino. Primeiro, foi sozinha, conversou com um rapaz “muito educadinho”, jogou aquela conversa dos cabelos brancos, a dor na coluna, o dinheiro pouco da aposentadoria. O rapaz explicou lá para ela um jeito de resolver a coisa e pediu que voltasse outro dia com mais um documento qualquer. Ela voltou, dessa vez levando o inquilino, pois achava que ele, como homem, saberia explicar e entender melhor a coisa. Deu uma confusão danada, o inquilino é um tipo esquentado, o rapaz “educadinho” esqueceu dos bons modos e mandou o inquilino ver se ele estava na esquina. Ontem minha mãe me disse que vai voltar à Cedae. Quando eu perguntei se vai levar o inquilino, a resposta veio rápida: “Deus que me livre! Ele só ia complicar ainda mais, eu vou sozinha!”.

Ou seja, a HB-Frauchen pode funcionar bem na Alemanha. Mas no Brasil, tenho minhas dúvidas.

O que precisamos, sejamos nós mulheres ou homens, é simplesmente ter mais consciência de nossos direitos e não ter medo de exigi-los quando chegar a hora. Se isso vai ser feito no grito ou não, é uma escolha pessoal. Eu não gosto de gritar, faz mal à garganta. Mas dizem que minha veia na testa cresce quando a coisa começa a ficar séria.

Haveria outras coisas para discutir, como a imagem dos homens alemães que colaboram nos afazeres domésticos e os brasileiros boas-vidas que mal sabem fritar um ovo. Há muito folclore nisso, mas é conversa demais para um post só. Por isso, passo a palavra para quem quiser comentar.

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