Freiras, reservas e nosso condicionamento cultural

Situação comum durante uma viagem de trem na Alemanha: alguns lugares reservados, outros livres, os passageiros vão entrando e procurando onde sentar. Atrás de mim, sentam-se uma jovem, com lugar reservado, e uma freira de cabelos brancos, sem reserva. O trem parte.

Na primeira parada, entra uma mulher alemã, bem vestida, entre 35 e 40 anos. Vem com a passagem na mão, para na fileira de trás e diz que tem uma reserva. A jovem diz que também tem e pergunta pelo número do vagão. A mulher confere, é o mesmo e o assento reservado é onde está a freira. A jovem ainda tenta sugerir que a mulher poderia sentar ao lado, há muitos lugares livres, mas a freira já levantou, cedeu o lugar e pegou outro assento.

Na estação seguinte, entra outra mulher, passagem na mão, procurando o lugar. Também bem vestida, com aparência de estrangeira, talvez indonésia. Ela para, olha para a passagem, encontra seu lugar e vê nele a freira. Hesita, olha em torno, vê um assento livre ao seu lado, pergunta à moça da janela se está livre e senta-se ali.

Quando vi os olhos da mulher com cara de estrangeira encontrarem a freira, tive quase certeza de que ela iria procurar outro lugar. Talvez eu esteja errada e a mulher nem fosse estrangeira. E não deixa de ser preconceito da minha parte, assumir que 1) ela era de origem estrangeira e 2) reagiria de forma diferente de uma alemã. Também não me interessa julgar aqui se suas reações foram certas ou erradas, até porque acho que quem fez sua reserva tem todo o direito de se sentar no lugar que lhe deram, não importa se foi o Papa quem chegou primeiro.

O que me chamou a atenção foi apenas o comportamento diferente das duas. Fiquei matutando, lembrando de situações parecidas que já vi por aí e de coisas que andei estudando. Se estou certa e as duas eram mesmo alemã e (digamos) indonésia, acredito que alguns aspectos culturais explicam as reações diferentes.

Primeiro: que efeito exercem uma roupa religiosa e cabelos brancos em cada um de nós? Tive a impressão de que, para a alemã, o fato de a pessoa sentada no seu lugar ser uma freira e ter cabelos brancos não fez diferença. Em nenhum momento ela titubeou, nem pediu desculpas, ou disse um “lamento o incômodo”. Estava meramente exercendo seu direito e por que haveria de se sentir constrangida por isso?

A outra, ao contrário, ficou um momento imobilizada, baixou o olhar e buscou uma alternativa sem nem chegar perto da freira. Não sei se teria feito o mesmo se a pessoa que encontrou no seu assento não simbolizasse religião e idade, com suas roupas e seus cabelos brancos — estou quase certa que não.

Esses dois comportamentos diferentes podem ser, é claro, resultado da personalidade de cada uma. Mas me pergunto se não há também uma carga cultural por trás disso. Na Alemanha, ninguém se sente constrangido em pedir algo que é seu de direito, mesmo que isso signifique incomodar alguém. Aliás, o fato de que a outra pessoa terá de procurar outro lugar não é visto como incômodo, é normal e a outra provavelmente também levantará sem reclamar, pois já contava com essa possibilidade. Alguns estudos que definem dimensões culturais, como os de Gerd Hofstede, colocam a Alemanha com um índice de 67 no grupo de culturas mais individualistas (núcleos familiares pequenos, dizer abertamente o que se pensa é certo, usa-se mais o “eu”, as regras e contratos prevalecem). Nesse países, se você tem uma reserva, não há motivo algum para se sentar em outro lugar e provavelmente, mesmo que o vagão esteja vazio e você não goste do assento que lhe deram, vai ficar ali quietinha, esperando a próxima estação chegar, pois pode entrar alguém para controlar e pega mal.

Se a outra passageira era mesmo da Indonésia, vale lembrar que esse país ficou no fim da lista de Hofstede, com um índice de individualismo de 14, o que o coloca entre as culturas do coletivismo – onde, aliás, se encontrava também o Brasil, com um índice de 38, quando os estudos foram realizados, nos anos 70/80. Nessas culturas, prevalecem as grandes famílias, usa-se mais o “nós”, busca-se a harmonia nos grupos e as regras e contratos são menos importantes do que as pessoas com estamos em contato. Vendo por esse prisma, é muito mais fácil procurar outro lugar, com tantos sobrando, do que tirar a pobrezinha da freira do seu conforto. E se vier algum funcionário controlar – esses chatos que não têm o que fazer – aí sim você pode mostrar sua reserva e seu lugar está garantido.

Eu acredito que esses índices mudem ao longo do tempo, nossa história e o contato entre diferentes culturas geram mudanças.

Pensei no que eu teria feito e descobri que já me tornei um híbrido dessas duas culturas com as quais convivo. Se entrasse no trem e visse a freira no meu lugar, teria procurado outro assento, já que havia tantos outros livres. Mas se fosse no avião, acho que pediria educadamente que a santa mulher fosse sentar noutro lugar. Tenho uma superstição irracional com assentos de avião e não troco de jeito nenhum com ninguém. No máximo, com o marido. Já me olharam feio, muito feio por causa disso. Mas nessas horas eu faço que nem a filha de uma amiga minha, que cresceu bilíngue e quando a vó brasileira ralhava com ela, respondia num francês chiquérrimo nos seus 4 aninhos: “Je ne comprends pas, vovó”. Pois é, eu também não.

P.S. Faltou falar do efeito das roupas religiosas, mas esse artigo já está tão longo, vai ficar para outra vez.

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Oficina de Tradução no Festival de Poesia de Berlim

Começou hoje o Festival de Poesia de Berlim, se não me engano é sua 13a edição. Mais uma vez, não vou acompanhar de perto, mas o festival tem uma Oficina de Tradução que ficou famosa pela sua proposta. Ela reúne tradutores de diversas nacionalidades que trabalham em pares, com a ajuda de tradutores e intérpretes, para elaborar versões de seus poemas. Ou seja, são poetas recriando poesias de outros poetas e os tradutores lá como parte do processo criativo. Como eu gostaria de fazer algo parecido!

Esse ano há seis poetas brasileiros participando da oficina e da programação, que tem desde mesas-redondas até apresentações gratuitas em praças e parques da cidade. Vale a pena visitar o site aqui, nem que seja só para dar água na boca. E para quem tem medo do alemão (acreditem, é possível fazer mais do que filosofar em alemão, poesia também rola), o site também está disponível em inglês.

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Não é só no Brasil

Sabem aqueles e-mails que a gente recebe de vez em quando, com fotografias de placas e cartazes absurdos encontrados Brasil afora? Pois é, a Alemanha também tem seus exemplares. E a foto aí embaixo é um deles.

A propaganda é a alma do negócio.

Isso foi ainda durante a feira Cebit, em Hannover. O cara estava vendendo aqueles pãezinhos enroscados típicos da Alemanha, Brezel, e como bom comerciante colocou lá sua propaganda: Warme Brezel – Brezel quentinhos! A uma temperatura abaixo de zero, quem não sentia vontade de parar e comprar os tais pãezinhos, nem que fosse para aquecer as mãos geladas? Mas, péraí. Zero grau, o cara ali parado com uma montanha de Brezels ao ar livre, quentes? Naquela geladeira? Oi?

Tiramos a foto e o cara, gelado e curioso, perguntou se a gente tinha gostado da barraca. Explicamos que a atração foi a placa. Quando saímos da feira e passamos por ali novamente, o cara ainda estava lá, firme e forte com os seus Brezels. Mas a placa tinha sumido. Vai ver ele ficou com medo de que algum brasileiro maluco resolvesse processá-lo por propaganda enganosa. Vida de vendedor de rua na Alemanha é muito mais complicada, minha gente!

P.S. Fiquei espantada com os Brezels de Hannover, enormes e totalmente diferentes dos que se encontram em Stuttgart. Munique também tem os seus, mais fininhos e crocantes. Mas isso eu explico outra hora.

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Ajudando a descascar o abacaxi

Para deixar bem claro desde o início: esse artigo não é um incentivo ao amadorismo, nem pretende motivar ninguém a se aventurar pelo mundo da interpretação sem preparo. Quem ler isso aqui deveria, ao contrário, entender o valor do trabalho de um profissional e do preparo que ele exige.

Na vida real, infelizmente, o que acontece é que a maioria das pessoas continua acreditando que basta falar bem uma língua, além da própria, para poder servir de intérprete. E foi por isso que minha irmã me ligou ontem com o coração apertadinho, pedindo ajuda para descascar o seguinte abacaxi. 

Minha irmã é professora universitária, ensina francês em um curso de línguas estrangeiras aplicadas. Amanhã, o departamento da sua faculdade vai receber a visita de um pesquisador francês, que vai apresentar seu trabalho para os alunos e alguns professores. Vocês já devem estar imaginando o que vem por aí. Pois é, o homem não fala português e alguém vai ter que interpretar. E como a minha irmã fala excepcionalmente bem a língua (eu não entendo nada de francês, mas juro que não é orgulho de família, é o que sempre ouvi de gente que sabe o que diz), sobrou para ela. A ideia de contratar um intérprete profissional nem foi cogitada justamente no lugar onde deveriam saber disso melhor que ninguém, já que é dali que saem os futuros profissionais. Mas isso é assim no mundo inteiro, não vou discutir aqui. O fato é que minha irmãzinha querida vai ter que se virar e me pediu umas dicas. E o que você diz para alguém nessa situação?

Não dá para fazer um treinamento relâmpago nessas horas, ainda mais por telefone. Então eu tentei simplificar e pensei nas coisas que gostaria que tivessem me dito quando fiz minhas primeiras interpretações. Depois pensei que poderia publicar isso aqui e trocar ideias com vocês, pois acho que o que é essencial numa hora dessas continua sendo essencial para o resto da nossa vida profissional. Então lá vai.

Primeiro de tudo: respire fundo,  mantenha a calma e acredite que você vai dar conta do recado. Se procuraram você, é porque algum talento você deve ter. E se você se encontra nessa situação “quebrando um galho”, ninguém pode esperar que seu desempenho seja o de um profissional. Portanto, faça o melhor possível. Na pior das hipóteses, todos serão gratos pelo seu esforço. Na melhor, você pode se surpreender com o resultado e sair dali satisfeita. E não se culpe pelos erros que cometer. Mesmo os melhores profissionais erram. Para mim, essa é a dica mais importante, sempre.

Segunda dica: um bloco de notas e uma caneta que escreva bem (e esteja com a carga cheia). Sem bloco de notas, não saio de casa. De preferência um daqueles que cabe na mão e é fácil de virar as páginas. Não gosto de cadernos, acho mais complicado. O bloco, além de ser imprescindível para anotar nomes, números, ou aquelas palavras que a gente provavelmente vai esquecer depois, dá uma segurança tremenda. Às vezes, acabo nem anotando nada, se estiver bem concentrada e o palestrante for daqueles que não complica e faz pausas frequentes e lógicas. Mas saber que o meu bloquinho está ali, pronto para refrescar minha memória, é primordial. Eu também aprendi a não economizar papel e gasto mesmo, só escrevo a parte da frente das folhas, para não me perder depois virando páginas e procurando onde foi que anotei aquela palavra-chave.

O que já é outra dica: não tente anotar tudo, tim-tim por tim-tim, a não ser que você tenha um passado de megasecretária e domine estenografia como ninguém. Melhor anotar ideias centrais, que alinhavem o discurso. Há livros grossíssimos sobre técnicas de anotação para intérpretes, mas quem está tentando descascar o abacaxi não tem tempo para isso e, no fim das contas, cada intérprete desenvolve sua própria técnica. Eu comecei lembrando do que fazia na época da universidade, anotando o que achava mais importante e fazendo verdadeiros mind-mapings nos cadernos. Faço isso até hoje, uso setas para ligar ideias, sublinho palavras que devem ser acentuadas e circulo aquelas que são essenciais.

Outro detalhe importante é conversar antes com o palestrante e combinar com ele o ritmo da interpretação, ou seja, pedir que faça períodos curtos e pausas frequentes, para que você possa acompanhar o discurso. No caso do nosso abacaxi, isso é ainda mais importante. Você não é profissional, portanto ninguém pode esperar que você se lembre de cinco minutos corridos de falatório. Acham que cinco minutos é pouco? Pois então experimentem ouvir cinco minutos de Jornal Nacional e depois repetir o que foi dito. Portanto, peça ao palestrante para ser curto e combine com ele também um sinal que você possa dar quando perceber que chegou a hora  de fazer uma pausa.

Isso leva a mais um aspecto que pode ser importante: onde você vai ficar durante a palestra? A estrela do evento é o palestrante, mas você precisa estar perto dele, para manter contato visual e poder ouvi-lo bem. Pense nisso e escolha um lugar apropriado.

Por último, uma grande vantagem da interpretação consecutiva é que você pode fazer perguntas ao palestrante. Ele disse alguma coisa que você não ouviu? Alguma ideia não ficou clara? Pergunte. Ele vai entender e talvez até apreciar, pois é um sinal de que você está acompanhando o que ele diz e preocupada em transmitir o conteúdo corretamente. Saber que você pode perguntar também tem um efeito tranquilizador incrível, ajuda a organizar as ideias  e aumenta aquela autoconfiança que mencionei lá na primeira de todas as dicas.

Depois de fazer essa relação, vou ficar torcendo pela minha irmã, que certamente vai se sair muito bem, e abro o espaço para quem tiver mais sugestões. Se você tivesse que resumir em poucas palavras, quais seriam as suas dicas essenciais para um intérprete inexperiente, pego de surpresa?

 

 

 

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Que perguntas você faz ao seu cliente?

Meu pai já dizia: é conversando que a gente se entende. Deve ser por isso, e talvez por causa do Chacrinha, que todo domingo aparecia na televisão lá de casa para dizer que “quem não se comunica, se trumbica”, que eu resolvi estudar Comunicação Social. Até mesmo minha entrada no mundo da tradução foi por aí, ajudando pessoas a se comunicar. Curiosamente, embora eu adore estar com amigos e levar um bom papo, durante todos esses anos eu não consegui me livrar de uma coisa que faz parte da minha minha natureza: a introversão. Ser introvertida tem suas vantagens e eu juro que minha autoestima vai muito bem, obrigada, não pretendo me transformar em outra pessoa a essa altura do campeonato. Mas há momentos em que isso pode atrapalhar. Dependendo do dia, pegar no telefone para falar com um cliente que ainda não me conhece pode ser um esforço fora do comum.

Uma das conversas com o André e o Marcos Zattar outro dia girou em torno disso. O André, por exemplo, é adepto do telefone e provavelmente um dos melhores clientes do Skype. Já cansei de receber telefonemas em resposta a perguntas que mandei por e-mail. Já eu e o Marcos pensamos mais com os dedinhos, escrevemos às vezes verdadeiros tratados e pegamos no telefone quando nos parece mais efetivo. Mas uma coisa é a comunicação entre colegas, outra a procura de novos clientes, ou mesmo a troca de informações com eles. Qual a melhor maneira de manter contato com os clientes? E-mail? Telefone? Visitar a empresa? Estar presente em feiras? E, o que é mais importante, quando você escolheu o canal, o que você diz para ele?

Por coincidência, ou talvez apenas porque esse é um assunto com o qual todos nós nos debatemos, a Patricia Lane publicou ontem no seu excelente blog Intercultural Zone um artigo a esse respeito: Want to develope your business? Ask smarter questions! Recomendo a leitura a todos, mesmo aos que acreditam que já sabem tudo a respeito, ou aos que ainda acreditam que o tradutor pode viver escondidinho no seu casulo, protegido do cliente pelo monitor e o teclado. Pode não parecer, mas o mundo virtual não substitui o contato direto e muitas vezes funciona até mais como uma porta para fechar depois contratos com um aperto de mão de verdade. Se você usa a internet de alguma forma — e não imagino tradutor profissional que viva sem isso hoje em dia — alguém vai descobrir que você existe. Uma hora vão bater na sua porta e você terá que limpar o pigarro e fazer uso das cordas vocais. Antes que isso aconteça, leia o artigo da Patricia Lane.

 

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Leitura do dia

Esse é um blog de tradutores. Mas, além de traduzir, eu também gosto de ler e imagino que não seja a única. Como nem sempre sobra tempo suficiente para escrever sobre os vários assuntos que me interessam, resolvi deixar aqui de vez em quando trechos de leituras que me agradem ou impressionem de alguma forma. Não vou traduzir, mas nada impede que alguém se anime a deixar sua sugestão nos comentários.

Atualmente estou lendo The Summer without men, da Siri Hustvedt, que eu adoro. E hoje sublinhei a seguinte passagem enquanto lia no metrô:

Time is not outside us, but inside. Only we live with past, present and future, and the present is too brief to experience anyway; its is retained afterward and then it is either codified or it slips into amnesia. Consciousness is the product of delay.

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Censura no Houaiss na Internet

Vim aqui rapidinho para indicar a leitura do artigo “Santa Ignorância” no blogue do Danilo.

O Houaiss não está disponibilizando o significado de certas palavras consideradas politicamente incorretas (veja o motivo aqui) na Internet.

Essa ignorância não pode passar em branco. Divulgue você também!

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