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Saem as vírgulas, entram os travessões e dois pontos

Vinte e tantos anos atrás, aprender alemão e decifrar os textos de jornais e revistas, como Der Spiegel, foi um desafio. Recém chegada na Alemanha, com poucos anos de experiência como redatora na bagagem, eu tinha aprendido que um bom texto jornalístico deve ser claro e enxuto. Mas a língua de Goethe parecia resistir heroicamente a essa ideia moderna. Eu abria o jornal e me deparava com um alinhavado de orações subordinadas e frases que só terminavam ao fim de um parágrafo com mais de dez linhas. Uma loucura, mas a gente se acostuma com tudo nessa vida.

Depois de tanto tempo, as coisas mudaram. A Alemanha mudou e a língua, é claro, também. Primeiro veio uma nova geração de redatores que já não consideravam frases sem vírgula uma heresia. Depois vieram a internet, os celulares com torpedos, e parece que todo mundo resolveu aderir à regra do quanto-mais-curto-e-menos-vírgula-melhor.

Mas havia um problema. Como evitar subordinadas sem deixar de fora informações importantes, numa língua em que o verbo quase sempre tem que vir lá no final da frase? Foi aí que que começaram a abusar dos dois pontos e do travessão.

A quantidade de dois pontos e travessões que um tradutor encontra em textos alemães de marketing, por exemplo, é um espanto! Aquele parágrafo de dez linhas, que antes era uma frase só, hoje pode ter várias, todas cortadas por uns quatro travessões e mais uns tantos dois pontos (acabei de ver um assim, por isso esse post).

Talvez os alemães não vejam outra alternativa, na sua luta contra as frases quilométricas. Eu acho que há, mas a língua é deles, eles mandam. A boa notícia é que a nossa língua não precisa disso. Não tenho nada contra os dois pontos. Mas taurino não gosta de gastar à toa e, acreditem, muitas vezes um ponto brasileiro substitui perfeitamente dois dos alemães. A boa e velha vírgula também nem sempre é sinal de frase complicada, pelo menos em português. E travessões são ótimos, mas, usados em excesso, perdem o efeito. E enquanto isso, os alemães vão desaprendendo a usar as vírgulas, que antes reinavam absolutas no pedaço.

Conclusão (agora sim, lá vêm eles): o texto que você vai traduzir pode estar todo enfeitado com dois pontos e travessões, mas o seu não precisa disso para ficar bom e ser fiel ao original.

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Inteligência seletiva, ou complicando o que já não era fácil

A língua alemã tem fama de ser exata. O mito de que “só é possível filosofar em alemão” continua assombrando muita gente por aí, não só na canção do Caetano. De minha parte, estou convencida de que nem mesmo a matemática é tão exata quanto parece, 2 + 2 nem sempre será 4, que dirá o alemão expressar tudo sem deixar sombra de dúvida. Querem um exemplo?

No lugar onde eu trabalho, há uma pequena cozinha no andar, com geladeira, pia, máquina de café e a infalível lata de lixo com coleta seletiva. Nela , há três compartimentos: um para embalagens (Verpackungen), outro para lixo orgânico (Biomüll) e um que leva o nome aparentemente bem prático de Restmüll, o que seria o “lixo restante”, traduzindo literalmente. Parece lógico, não é? Mas vejam só: todos os dias, para colocar o meu motor em funcionamento, minha primeira providência é tomar um café, um expresso duplo, para ser mais exata. Quando a máquina termina de encher a xícara com o meu combustível, eu abro um saquinho de açúcar e jogo metade do conteúdo na xícara. Na hora de abrir a lata de lixo e jogar fora o resto, vem a dúvida: para qual compartimento vai o saquinho? Jogo o resto do açúcar no lixo orgânico e o saquinho nas embalagens? Ou jogo tudo no “resto de lixo”?

Coleta seletiva: pense bem antes de abrir!

Pode parecer banal, mas é um desafio começar o dia com uma pergunta dessas, antes mesmo do primeiro gole de café! E acho que não sou a única, pois ao abrir a lata, sempre encontro os saquinhos azuis espalhados por todos os compartimentos. Afinal, o saquinho é embalagem, portanto, não deveria estar no “resto”. Mas se eu jogo apenas o açúcar no Biomüll, a menina que faz a limpeza (a propósito, uma brasileira) certamente vai xingar a pobre da minha mãe, que não tem nada a ver com isso, por causa do fundo caramelizado que se cria na lata de lixo. Pois, como todo mundo sabe, os alemães são muito consequentes (outro mito, mas ainda não virou música), por isso nossa lata de lixo seletiva não é forrada com sacos plásticos, senão não seria assim tão seletiva.

Os saquinhos na lata da discórdia.

O que nos leva de volta a essa língua tão exata: o que vem a ser exatamente “Restmüll”? Existem verdadeiras enciclopédias sobre a coleta de lixo na Alemanha e há nomes para tudo. Oficialmente, “Restmüll” é tudo o que não pode ser reciclado. Mas as listas de exemplos citados em vários sites de prefeituras e órgãos público, em vez de esclarecer, confundem ainda mais. Uma delas cita, por exemplo, produtos têxteis sujos. Ora, a máquina de lavar não recicla isso?

Eu resolvi simplificar minha vida, pelo menos nesse aspecto, e interpreto Restmüll simplesmente como “resto”, tudo o que sobra vai para ali. Não é embalagem? Não é orgânico? Restmüll! É um pouquinho de cada um? Restmüll! É uma coisa na qual ninguém pensou quando inventaram a lata de lixo maquiavélica? Restmüll! Confesso que às vezes tenho um receio paranóico de ser pega jogando o saquinho no lugar errado. Mas, querem saber de uma coisa? Se um dia reclamarem, vou começar uma discussão sobre o verdadeiro significado da palavra “resto” e sou capaz de apostar que ficaremos ali olhando pensativos para aquela lata de lixo, sem resposta definitiva para as grandes questões do universo. E se os alemães querem mesmo tudo nos lugares certos, eles que inventem uma palavra melhor. Afinal, essa língua é ou não é tão exata?

PS: Falando em maneiras complicadas de começar o dia na Alemanha, a Ligia Fascioni escreveu há tempos um artigo no seu blog que vale a pena ler. Passe lá, clicando aqui.

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Preferências sexuais do alemão

Com esse título, esse artigo vai bombar! Mas podem ir tirando o cavalinho da chuva (ou da neve, que não nos dá uma trégua por aqui): não esperem de mim dicas sexuais que eu não sou nenhuma Beate Uhse, apesar da semelhança do nome. Minha intenção hoje é chamar a atenção de vocês para um blog maravilhoso que a Ligia Fascioni escreve e recomendar que comecem por esse artigo: “Sexo alemão“.

A Ligia mudou-se para Berlim no ano passado e nesse artigo ela nos presenteia com uma das descrições mais bem-humoradas que já li das agruras de quem está aprendendo o alemão.  Aposto que depois da leitura vocês vão querer mais. Além de ser uma delícia de leitura, o blog é bonito e muito informativo. Entrou para a minha lista de recomendações aí ao lado e tão cedo não sai mais.

A propósito, se você nunca ouviu falar da Beate Uhse, aproveite para conhecer a história peculiar dessa mulher que iniciou uma verdadeira revolução sexual na Alemanha do pós-guerra. Leia o artigo na Wikipedia aqui.

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Schneematsch

Para você pronunciar direito essa palavra, eu deveria escrevê-la em português mais ou menos assim: xnêmát. Pelo menos seria essa a minha versão carioca. Isso traduzido é ” neve que começa a derreter e vira lama”. Ou, como preferem algumas soluções que encontrei por aí, “neve derretida”, “lama de neve”, “água de degelo”.

Fosse eu a autora de um dicionário da neve, essa coisa teria um único nome possível: neve melecada. Imaginem aquele barro que desce dos nossos morros brasileiros com as chuvas de verão, entupindo as ruas e estragando nossos sapatos. Agora imaginem isso cinza e com muito frio. É essa a ideia. Experimentem fazer uma busca de imagens no Google com “Schneematch” e depois me digam se eu não tenho razão.

Ontem levei meu primeiro escorregão de inverno ao descer do carro e pisar na tal neve melecada descuidadamente. Esqueci que, embora o troço já esteja derretendo, ainda há muito gelo por baixo. Para apagar o vexame, resolvi me vingar deixando aqui minha proposta pessoal de tradução para essa palavrinha infame.

E por falar em neve, encontrei no excelente blog do Fábio Said um ótimo post sobre os muitos nomes de neve e afins na língua alemã! Não deixem de ler aqui.

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Palavras desenterradas

Você pensa que elas não existem mais, que desde o tempo dos seus bisavós ninguém mais sequer pensa em usá-las. Aí, um belo dia, elas cruzam seu caminho novamente. Foi uma dessas que encontrei outro dia com o André, durante uma feira na Alemanha. Vejam só:

Eles ainda existem, quem diria! Um Münzfernsprecher!

O mais engraçado foi o comentário do André: “Essa palavra é muito goethe.” Mas vamos por partes.

Münzfernsprecher é uma palavra que ainda era muito usada quando botei meus pés na Alemanha pela primeira vez — e isso faz tempo, minha gente. É uma daquelas combinações maravilhosas e extremamente lógicas que o alemão nos permite fazer. Imagine você, longe de casa, querendo falar com alguém lá do outro lado do Atlântico e com umas moedas no bolso. Ora, você precisa de uma geringonça para falar (sprechen) com alguém distante (fern) usando as suas moedas (Münzen), ou seja, um Münzfernsprecher! Muito fácil, não é?

O problema é que, na era dos celulares, lan houses e cartões de crédito, ninguém mais anda atrás de geringonças que funcionam movidas a moedas. E justamente numa feira internacional, onde gente de todo mundo se encontra, seria muito mais fácil achar o que você está procurando se essa coisa se chamasse simplesmente Telefon, pois se até o catálogo telefônico alemão já se chama Telefonbuch. Mas algum engraçadinho achou por bem salvar o que sobrou da língua de Goethe e tascou lá o Münzfernsprecher.

Agora ao comentário do André. Eu não sei se ele quis dizer que os Münzfernsprecher estão tão mortos quanto Goethe, ou se ele achou a palavra poética, ou se ele se referia ao Goethe Institut, salvaguarda da língua alemã. Estávamos trabalhando e não tivemos tempo para falar mais do assunto. Mas o fato é que ele me fez lembrar da professora que me preparou para a prova do GDS do Goethe. Nós exercitávamos redação intensamente e eu tinha um colega americano que sempre reclamava das correções, alegando que ninguém falava assim. Mas a Heidi (juro, era esse o nome dela) dizia que se escrevêssemos assim, teríamos chance de notas melhores. Talvez o meu passado de jornalista tenha me ajudado, mas o fato é que eu me ative aos conselhos dela, como um redator que segue o estilo ditado pelo jornal — não gostava daquilo, mas se era isso que queriam, eu faria direitinho — e passei com a melhor nota. O americano é hoje correspondente do Wall Street Journal. Acho que ele se deu muito melhor.

Fecho dessa vez assinando, já que ainda não descobrimos um jeito de publicar os posts aqui com nosso nome (agradeço qualquer dica). Quem esteve aqui hoje fui eu, a Bete.

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Fala, boiola!

A origem deste artigo foi ter conhecido o Martin, um bailarino berlinense que samba como ninguém e que, embora não fale português com frequência, aprendeu algumas expressões com uma pronúncia perfeita. A palavra predileta do Martin é boiola. Diz ele que o som dessa palavra é cem por cento brasileiro e que uma palavra com tantas vogais seria impossível em alemão.

De fato,  quem já se arriscou a aprender alemão um dia sabe como nós, brasileiros, sofremos com a quantidade de consoantes reunidas em uma só palavra. Uma língua que chama sexo de Geschlecht mais parece uma brincadeira de mau gosto. E ainda estamos com sorte. Há quem diga que tcheco e húngaro são muito piores. Acredito, pois só alguns sobrenomes já são um espanto – tente dizer Strzybny.

Mas alguém já parou para pensar no desespero de um alemão cercado pela abundância de nossas vogais? A tortura começa já na primeira lição: Meu nome é Hans, sou alemão. Em vez de apenas duas vogais em deutsch, o pobre Hans agora tem que se degladiar com um ataque de vogais na proporsão inversa. Como se isso não bastasse, elas ainda vêm armadas de um ditongo nasal que, a partir de agora, vai persegui-lo pelo resto da vida, sempre que ele disser que é alemáo, que vai viajar para Sáo Paulo, ou quando pedir mais um páozinio no almoço feito pela máe da sua namorada.

Mas há os que acabam gostando justamente desse desperdício de vogais e saem por aí colecionando palavras favoritas. Lembro de um aluno que um dia descobriu a palavra auréola e passou a inventar maneiras de usá-la nas frases, o que produziu pérolas como “a auréola dos seus óculos é muito bonita”.

O marido de uma conhecida cismou que o filho deveria receber o nome “melódico” do avô de sua mulher: Coriolano. Foi um sufoco convencê-lo do contrário.

E tem o Martin, que não perde uma oportunidade de cumprimentar os outros com um sonoro “E aí, beleza?” ou com a sua preferida: Fala, boiola!

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