Arquivo da tag: Bete

Safari na selva da integração

O canal alemão ARD começou a transmitir um programa com o título Entweder Broder – Die Deutschland Safari que, na minha opinião, é a melhor resposta à atual discussão sobre a integração de emigrantes na Alemanha. A ideia é tão simples quanto genial: um judeu e um muçulmano, ambos naturalizados alemães, viajam pelo país em um carro  colorido, visitando lugares históricos, entrevistando gente de todos os tipos e discutindo, com muito humor, o que afinal de contas vem a ser essa tal de integração.

Para quem não sabe, nos últimos meses a questão da integração dos estrangeiros na sociedade alemã, principalmente dos muçulmanos, tornou-se centro de uma discussão um tanto absurda, impulsionada pelo lançamento do livro Deutschland schafft sich ab (A Alemanha está acabando consigo mesma), de Thilo Sarrazin. O economista acabou abandonando seu posto na diretoria do Bundesbank, por conta da polêmica surgida após suas declarações, consideradas racistas. O livro, porém, continua na lista dos mais vendidos e o tema não sai da pauta em todas as mídias.

O jornalista judeu Henrik M. Broder e o cientista político egípcio Hamed Abdel-Samad são o outro lado da moeda. No seu safári pela Alemanha, acompanhados da cachorrinha Wilma de Broder, eles conseguem tratar com um humor inteligente essa questão tão complexa e delicada. Há cenas imperdíveis, como a visita a uma palestra do partido de extrema direita NPD, quando os dois protagonistas se dirigem ao prédio do partido sob os gritos de “Fora nazistas!” dos manifestantes que protestam na rua. Ou quando Broder, depois de uma ação provocante no monumento ao Holocausto, em Berlim, pergunta a Hamed se existem também monumentos aos muçulmanos e este responde: “Não, nós não construímos monumentos, nós construímos palácios!”. E leva o amigo para visitar uma mesquita cuja construção custou mais de três milhões de euros.

O programa vem sendo transmitido desde 4 de novembro, serão ao todo cinco domingos, e eu estou colecionando algumas frases, como essas:

“Integração é quando você age como um cafajeste, mas ninguém te leva a mal.”

“A grande vantagem da modernidade é você poder se afastar das suas origens.”

“A chave para a integração é  o humor.”

Se alguém quiser assistir, já há trechos no youtube. Os primeiros 15 minutos estão aqui:

O programa de hoje terminou com os dois participando de uma festa de rua numa cidadezinha da Baviera, onde a mesquita e a igreja vivem abertas para quem quiser entrar e todo mundo se entende numa boa. Depois de muita comida, alguma cerveja, muita conversa com bávaros de bermuda de couro e até Hamed regendo a orquestra local, que tocava música folclórica, os dois saíram da barraca convencidos: “Isso foi melhor que Yom Kippur e Ramadan juntos!” Concordo.

3 Comentários

Arquivado em Alemanha, Integração

Wir sind der Bahnhof!

Stuttgart não é nenhuma metrópole. Às vezes ela é chamada de Heizkessel, caldeira, mas isso é porque a cidade fica em um vale e o termômetro aqui está sempre alguns graus acima da temperatura medida nos arredores. Fervilhante não é um adjetivo que se use para descrever essa cidade.

Nos últimos tempos, porém, a cidade está realmente fervendo. A culpa não é do verão, mas de Stuttgart 21, um projeto urbanístico gigantesco que vai transformar a cidade em um canteiro de obras pelo menos nos próximos dez anos. Para modernizar as vias ferroviárias, alegando que isso permitirá encurtar as viagens, os governos municipal, estadual e federal, juntamente com a companhia ferroviária Deutsche-Bahn, decidiram reformar a estação central, que hoje é do tipo terminal, ou seja, de fim de linha, e transformá-la em uma estação subterrânea de passagem direta para os trens. Para isso, metade do prédio da antiga estação, tombado pelo patrimônio histórico, será demolido e um grande número de árvores do atual parque municipal será derrubado para as escavações. Não bastasse isso, os gastos astronômicos previstos para o projeto no início do planejamento, mais de dez anos atrás, já chegaram a mais de 4 bilhões de euros e continuam aumentando. E há também um grande risco de que o complexo sistema de fontes de águas minerais existente na região seja prejudicado seriamente.

Pouco a pouco, foi se formando uma resistência ao projeto na população. A reação inicial dos políticos locais foi aquela que todos conhecem: ignorar solemente. Só muito tarde começaram uma campanha em prol do projeto, informando sobre suas supostas vantagens. Não convenceram e o que antes era o movimento de um grupo tachado de „verdes alternativos“ virou uma ação popular em massa.

Há passeatas no mínimo duas vezes por semana. Na última falava-se de 30 mil participantes, amanhã espera-se ainda mais gente. Todos os dias, às 19 horas, centenas de pessoas pegam um apito, uma vuvuzela, um tambor, panelas ou simplesmente a própria garganta e fazem um barulho desgraçado em sinal de protesto. A cerca que protege a área onde começarão as obras lembra o muro de Berlim, coberta de cartazes, caricaturas de políticos, faixas e até cartas e desenhos de crianças. E ontem, quando a primeira ala lateral da estação começou a ser demolida, os manifestantes tomaram conta das ruas e o trânsito parou na cidade.

Começo da demoliçã6

A foto é péssima, mas quem pegar uma lupa talvez veja alguns manifestantes no telhado, em vias de pendurar uma faixa de protesto.

O que acho mais curioso nisso tudo é que as pessoas mobilizadas nesse protesto são os típicos pacatos moradores da cidade – gente de meia-idade,  famílias com crianças, aposentados, cujo sangue só entrou em ebulição porque se sentem ludibriados por políticos conservadores em quem eles mesmos votaram. O partido conservador CDU sempre foi o dono do pedaço nessa região. A oposição  no parlamento varia, os verdes têm uma boa fatia de eleitores, mas quando há eleições, ninguém duvida que a maioria será novamente do CDU, só o percentual varia. Mas parece que isso pode mudar com Stuttgart 21. Pela primeira vez em décadas, as pesquisas indicam que o partido perderia a maioria se as eleições fossem hoje. Não são, mas serão no ano que vem, quando o canteiro de obras estará a todo vapor.

Ontem, a televisão mostrou um senhor de cabeça branca treinando para se acorrentar a uma das árvores centenárias do parque municipal quando as primeiras escavadeiras chegarem. Taí uma cena que não quero perder.

Deixe um comentário

Arquivado em Alemanha

Ruhrko 2010 – A língua como fator econômico

Para mim é novidade e espero que seja interessante para alguns de vocês. No final de outubro, nos dias 23 e 24, será realizada pela terceira vez a conferência Ruhrko, em Dortmund, para profissionais da área de tradução. Tema esse ano será o papel da língua como fator econômico.

A conferência é organizada pela empresa Ralf Lemster Financial Translations GmbH, com apoio da associação profissional dos tradutores alemães, a BDÜ. O programa previsto parece interessante e inclui temas como certificação, direitos autorais, captação de clientes, gerenciamento de projetos e palestras com títulos que despertam a curiosidade, como “Language as communication currency of the globalized world”.

Quem estiver interessado encontra todos os detalhes aqui.

1 comentário

Arquivado em Eventos

Assoando o nariz

Taí uma coisa que pode parecer insignificante, mas faz uma diferença danada quando você sai da zona de conforto da sua própria cultura. Em que situações, onde e principalmente como você assoa o nariz?

Ninguém costuma pensar nessas coisas que se aprendem na infância, em casa, no berço, instintivamente. Ainda tenho lembrança da minha mãe com um lencinho bordado nas mãos, apertando minhas narinas delicadamente e dizendo para eu soprar. O bordardo eram uns bonequinhos com roupas típicas portuguesas e eu tentava mirar de um jeito que eles não ficassem sujos.

Esses lencinhos já dão uma ideia de como nós, brasileiros, lidamos com o assunto: com cuidado e discreção. É difícil ver alguém no Brasil assoando o nariz com alarde. Em público, as pessoas geralmente tentam fazê-lo sem chamar a atenção. Muitos nem assoam, apenas passam o lenço no nariz para evitar o pior.

É compreensível que isso seja diferente na Alemanha, já que aqui faz frio a maior parte do tempo e estar resfriado é quase rotina. Mas nariz escorrendo é tabu nesse país. Ninguém funga. Em compensação, mesmo depois de ter vivido mais de 20 anos nessa terra, eu ainda me espanto com assoadas assombrosas que me pegam de surpresa. Aqui ninguém assoa o nariz como quem não quer nada. Se você tira o lenço do bolso, é para assoar com convicção, não é segredo. E os lenços são lenços de verdade, um mero lencinho não daria conta do negócio. Aliás, nem é lenço, é Tempo, mas isso eu explico depois.

Só fui me dar conta dessa diferença depois de já estar casada um tempo com um alemão de nariz grande. Estávamos em casa, no Rio, e de repente ouviu-se um som que fez meu sobrinho pequeno olhar para mim e perguntar com os olhos espantados:

— O que foi isso?

— Seu tio assoando o nariz.

O sobrinho deu risada, enquanto meu pai só comentou: “Benza Deus!”

O outro lado da moeda é sobreviver na Alemanha sem lenços, nem lencinhos na bolsa. Toda mulher alemã que se preza tem um estoque de lenços de papel distribuído em todas as suas bolsas preferidas. Tempo é como o nosso band-aid, a marca tornou-se sinônimo de lenço de papel. Se você sair para jantar com o marido (ou namorado) numa noite fria, pode contar que depois da sopa vem a pergunta: Hast Du ein Tempo?

O último exemplar, encontrado no bolso de um casaco.

Eu nunca tenho porque sou da terra dos lencinhos e saio da mesa para assoar o nariz no banheiro, embora já tenha passado apertos por causa disso, interpretando almoços de negócios. Mas não adianta, minha bolsa de mulher é atípica na Alemanha. O que já daria outro tópico, mas por hoje, é só.

2 Comentários

Arquivado em Comportamento, Cultura, Hábitos

Palestras do Guilherme Braga

Há pouco tempo assisti a duas palestras online oferecidas pelo Guilherme Braga. Embora os temas fossem voltados para a tradução literária, que não é a minha área, achei que poderiam ser úteis para textos de propaganda e marketing. E, sabendo da qualidade do trabalho do Guilherme, tinha certeza que valeria a pena. Não me enganei e recomendo a todos.

Não vou repetir aqui o conteúdo das palestras, sugiro consultar o blog do Guilherme, Traduções Improváveis, e participar das próximas. Mas dentre as muitas coisas que aprendi, deixo aqui duas considerações que talvez não sejam novidade, mas  é bom ter em mente:

– Às vezes, a melhor maneira de ser fiel ao original é se afastar dele. O respeito ao original não deve se tornar medo de tomar rumos imprevistos e  impedir você de encontrar justamente o que o texto merece: seu correspondente na lingua de chegada.

– Quando fizer sua escolha de uma solução, saiba por que a fez. A maioria de nós trabalha correndo contra o relógio e as decisões muitas vezes são tomadas sem espaço para a reflexão. Mas, mesmo que você não esteja traduzindo um romance, poder argumentar com segurança pela solução usada vai ajudar você a lidar com as dúvidas do cliente — e pode garantir novos serviços.

As palestras valeram cada centavo investido e provam que também pode ser bom dar um passeio de vez em quando fora da sua área de especialização.

Deixe um comentário

Arquivado em Cursos

Marido de quem?

Esse negócio de blog é divertido. Eu escrevo com prazer e escreveria mais, se o tempo não fosse sempre tão curto, ou a minha organização tão precária. Mas agora mesmo, entrei aqui só para aprovar o comentário do Marcos no meu outro post  e aproveitei para ver a quantas andam as estatísticas do blog.

Uma das informações que sempre me interessam é aquela que indica como alguns leitores chegaram ao blog pesquisando termos na internet. O wordpress mostra as pesquisas mais frequentes e acho importante saber o que está dando ibope. Mas há resultados inusitados. Hoje, encontrei lá:

futebol integração e cultura, efeito do futebol sobre integração e cultura,  “agências de tradução”, futebol da integracao, traduçao beijar marido da amiga

Espera aí, marido de quem? E eu algum dia propaguei aqui que os maridos das amigas devem ser beijados, ou ensinei a beijar marido de amiga emvárias línguas? (Perigosa, essa história de línguas e beijos.)

Quer dizer, depois de tantos posts, o coquetel de palavras aqui está ficando bom. Tem lá um post esquecido sobre beijos e abraços — onde eu, aliás, deixo bem claro que não beijo qualquer um, nem por e-mail — algum outro falando de amigos e outros tantos voltados para a tradução. Deu nisso, uma mistura perigosa de palavras que estavam lá desavisadas no seu contexto, crentes que eram inofensivas.

Mas a lista da semana comprova a importância da estatísca: é evidente que o povo está interessado em saber o que o futebol tem a ver com integração e cultura. Então já vou ver se reservo uma horinha para terminar um post da Copa ainda inacabado.

E espero que a leitora tenha encontrado em algum lugar a maneira certa de dizer que beijou o marido da amiga. Ou terá sido a amiga que beijou o dela? Complicada, essa vida.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Aus aktuellem Anlass: a Europa está fervendo!

O post de ontem, sobre minha atual birra com algumas agências, merece uma continuação. Mas vou fazer um intervalo e contar para vocês um pouco de um tema gravíssimo que tem concentrado a atenção da população na Alemanha (e, provavelmente, no resto da Europa também): está fazendo um calor de matar nessa terra!

Não estou exagerando, é de matar mesmo! Quando o verão chega com força aqui, a taxa de mortalidade entre idosos realmente sobe com o termômetro. Mas as temperaturas das últimas semana têm estado sempre acima de 30, o que é um espanto, e já chegaram aos 40 mais de uma vez. Oficialmente, a temperatura mais alta medida até agora foi de 38 graus à sobra em Berlim. Nesse dia, os termômetros expostos ao sol na Potsdamer Platz chegaram a marcar 46 graus e um repórter da TV, otimista, demonstrou o lado prático da coisa fritando um ovo na placa de metal que revestia o teto de um prédio.

Os centros das cidades foram invadidos por legiões de pernas e braços ao léu. Quem não tem que manter a gravata e o paletó, por alguma obrigação cruel,  entrou para o time das bermudas e sandálias. Até nos bancos, esses redutos de sisudez, tenho visto mulheres trabalhando de bermudas. O que dá margem a combinações de vestiário das mais supreendentes nesse povo que está mais acostumado a botas e cachecóis. Sol e calor costumam ser sinônimo de férias, por aqui. Então, a ordem tem sido tirar o guarda-roupa de férias da mala e usá-lo para a próxima reunião do departamento. Um desfile que, às vezes,  me diverte, como ver alguém com uma pasta de couro na mão, camisa colorida, bermuda bege, sapato de couro marrom com meias combinando com a bermuda.

Se eu conseguisse arrumar um tempinho no fim de semana, certamente iria nadar. Mas as piscinas públicas andam abarrotadas de gente à procura de algum refresco e a água não deve andar lá muito convidativa. Pena, pois a visita a uma piscina pública, para brasileiros, é sempre um programa divertido. Assim como os cariocas seguem todo um ritual quando vão à praia — a escolha do figurino, o lugar onde sentar, quando e como “dar um mergulho” — os rituais germânicos também existem e alguns são de arrepiar, apesar do calor.

Meu exemplo preferido é o troca-troca de biquíni, calção e maiô. Lembrando que estamos num país onde o normal é fazer frio, aqui niguém sai da água e fica molhado na sombra para se refrescar. Não senhor, onde é que estamos? Isso é problema nos rins na certa, resfriado, dores de ouvido, a bexiga se vinga e lá vem a temida infecção — Blasenentzündung! Aqui você tem que ter dois biquínis na bolsa: uma para ficar sequinha no sol, outro para nadar. Então, antes de cair na água, todo mundo se enrola na toalha, primeiro a parte de cima, depois a de baixo, sai um biquíni vermelho, entra um azul, sai o calção de florzinhas, entra a sunga, e por aí vai. E não pensem que isso é feito nas cabines. Não, é ali mesmo, no gramado, com todo mundo em volta. Não sei como eles conseguem, pois é preciso habilidade, mas a toalha cobre o essencial, desde que o vizinho não esteja deitado diretamente ao lado e caia na besteira de abrir o olho na hora errada. Já levei sustos homéricos ao me virar na grama e dar de cara com um desses contorcionistas no momento errado.

Já começo também a notar que as pessoas têm adotado um hábito que conheço do Brasil: entrar nas lojas, bancos ou centros comerciais só para se refrescar no ar condicionado. Obviamente, essa grande invenção ainda não existe aqui em muitos prédios, já que era desnecessária até agora. Mas se as mudanças climáticas continuarem desse jeito, e tudo leva a crer que sim, alguma coisa terá que acontecer. Há alguns dias, o ar-condicionado de um trem ICE quebrou. O trem parou numa estação e todos os passageiros foram transferidos para outro ICE que, além de ficar superlotado, também estava sem ar-condicionado. Resultado: um monte de gente passou mal, tiveram que chamar ambulâncias, interromper a viagem e a Deutsche Bahn está em vias de ser levada à justiça.

Eu também não tenho ar-condicionado. Aliás, nem geladeira no meu escritório eu tenho. É um lindo prédio antigo, romântico e totalmente impróprio para trabalhar no verão. Por isso, eu adotei a moda e hoje vim trabalhar de bermuda e sandália. Mas o ventinho quente do meu ventilador não está dando conta e minha água mineral, apesar de ser sem gás, já ficou efervescente. Por isso, vou pegar minha pastinha de couro, com meu laptop e meus papeis, e vou para casa, desfilando nas ruas com a última moda alemã.

3 Comentários

Arquivado em Alemanha, Comportamento, Hábitos

Agências amigas

Falta de tempo para escrever no blog pode ser um bom sinal. No nosso caso, tem sido simplesmente excesso de trabalho, o que é muito melhor do que a falta dele. Eu preferiria retomar o blog com um dos muitos temas que tenho anotado, esperando o momento chegar. Mas algumas experiências vividas nas últimas semanas merecem furar a fila e entrar aqui primeiro.

Como a maioria dos tradutores, eu também já trabalhei, trabalho e provavelmente ainda vou trabalhar com algumas agências de tradução. Pessoalmente, acredito que as agências podem ser ótimos clientes, dependendo de qual é seu perfil profissional e do que você procura no mercado. Se você quer trabalhar com cliente final, muitas vezes vai ter que oferecer mais do que simplesmente “tradução”. DTP, gerenciamento de projetos, diferentes programas, bons revisores e até uma equipe de colegas que cubram outras áreas de especialização, outras línguas, são alguns exemplos. Sem falar nos investimentos maiores em equipamentos, talvez um servidor, enfim, mais um monte de coisas das quais eu não entendo muito, pois ainda não precisei. E vai ter que ser, acima de tudo, um bom administrador.

Não que essas coisas não existam na vida de qualquer tradutor profissional, mas não tenho dúvida que o grau de exigência numa boa agência é maior. Ou, pelo menos, deveria ser. Algumas das agências com as quais trabalho tentam seguir esses critérios e facilitam, com isso, meu trabalho. Essa é, para mim, a grande vantagem de trabalhar com elas. Quando recebo o projeto, alguém já analisou e preparou o texto, já selecionou uma memória atualizada e outras referências e já negociou com o cliente. Meu preço será mais baixo por isso: boa parte do trabalho é feita por eles e eu posso me concentrar em traduzir. Nada contra o preço ser mais baixo, se for justo. Afinal, eles também têm contas a pagar.

Mas o que vejo acontecer nos últimos tempos é que essa função facilitadora das agências está em vias de extinção. É comum receber projetos com memórias fragmentadas e totalmente desatualizadas. Projetos concluídos na semana anterior, nos quais você investiu umas horinhas “acertando” a memória, voltam com novos textos, acompanhados daquela velha memória que você esperava já estar enterrada e sendo comida pelas baratas. E junto com ela, vem uma legião de referências zumbis, aquelas que morreram e não sabem, e que só servem para ocupar espaço e fazer você perder tempo consultando fontes inúteis. E depois de quebrar o coquinho, tirar o suco e fazer uma tradução decente, ainda pedem para você consertar a formatação.

Tudo isso chateia, mas chatearia menos, se não viesse também acompanhado de uma choramingada com direito a beicinho quando você arrisca pedir  x% sobre o preço usual pelo trabalho adicional.

Preço, aliás, parece ter se tornado o único critério relevante para muitas agências. Há poucos dias, recebi uma proposta. Não me mandaram um teste, o que teria achado normal. Mas me pediam para preencher um extenso formulário on-line e, adicionalmente, mais uns dois ou três questionários, que deveria enviar depois assinados, com foto e os dados da minha conta bancária. E entre toda a papelada que eu deveria assinar, estava lá um detalhe em que eu me comprometia a não trabalhar diretamente com nenhum dos clientes atuais e antigos da agência por um período de até dois anos depois de ter saído do quadro de tradutores. Isso, vejam bem, sem que tivessem nenhuma prova da qualidade do meu trabalho, ou seja, correndo o risco de nunca receber qualquer serviço deles. No fim de tudo isso, depois de dar a eles um raio-x completo da minha vida, eu ainda tinha que concordar em receber meu dinheirinho até 60 dias depois de passar minha conta e aceitar que, caso o serviço chegasse com qualquer atraso ou razão de insatisfação, eles se reservam o direito de não pagar, ou pagar com desconto! Wie bitte?

O André também recebeu uma ótima: um servicinho pequeno, simples, na verdade. Só que ele tinha que verificar e acertar a formatação e o preço, em vez de aumentar, ficou ainda menor, porque descontaram um monte de repetições.

Talvez seja apenas a minha impressão pessoal, mas a tendência que tenho observado é redução de preços e aumento de exigências.  Estamos assumindo funções que, a meu ver, cabem aos gerentes de projeto. Nada contra, se é disso que precisam — e isso é algo que o Google Translator não vai tirar da gente, por enquanto.Mas então,  reconheçam o valor desse trabalho.

De todo modo, essa situação é também motivo para repensar as vantagens de trabalhar com agências. Eu vou começar esquecendo aquele monte de questionários que me enviaram.

4 Comentários

Arquivado em Agências, Clientes

Jogo rápido no intervalo

Isso nem chega a ser um post, mas queria contar para vocês.

Eu gosto de ouvir os locutores de futebol na TV alemã enquanto estou trabalhando na outra sala. A gente sente o tom de voz aumentando e sabe que estão chegando perto do gol.

Agora mesmo, no jogo (surpreendente!) França x México, ouvi uma ótima. O locutor foi dizendo os nomes do jogadores que davam passes, o tom de voz foi aumentando e aí o suspense terminou com ele dizendo “Fulano para Sicrano e… Bitte schön, Danke schön”.

Perfeito! Quem fala um pouco de alemão sabe que essa é de longe a combinação de frases mais usada nesse país. Ofereceu? Bitte schön! Recebeu? Danke schön! Há esquetes memoráveis de comediantes alemães usando isso em diálogos intermináveis. Pois o locutor soube usar isso muito bem. Mesmo quem não viu o que tinha acontecido, ficou sabendo que alguém no campo entregou a bola de mão beijada. Gostei.

Agora, sinceramente, aquele pênalti no segundo tempo merecia um grande “Danke schön!” dos mexicanos! Pode?

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Futebol e integração

Fiquei quase um mês sem escrever porque a coisa aqui andou pegando. Mas a Copa começou e, com ela, a lista de assuntos interessantes para o blog está crescendo. Então resolvi dar o meu pontapé inicial.

Os estrangeiros que se naturalizam na Alemanha passam por um teste de alemão, oferecido por uma empresa parceira do governo federal, a TELC. Essa empresa organiza não só as provas, mas também os chamados cursos de integração oferecidos aos emigrantes estrangeiros, um misto de curso de lingua e introdução à cultura alemã.

Hoje essa empresa me enviou um cartaz fazendo propaganda desses cursos com um brasileiro, o jogador Cacau que no domingo passado fez um belo gol pela seleção alemã. Cacau joga no time de Stuttgart, é um dos pouquíssimos jogadores brasileiros que fala bem alemão e se naturalizou no país. Ele próprio afirma que a língua foi um dos fatores que o ajudou a se integrar na sociedade alemã e, por isso mesmo, foi escolhido pela TELC como “embaixador do multilinguismo e da integração”.

Não há dúvida que ele tem razão. Ninguém pode se sentir em casa enquanto não for capaz de se comunicar com os outros moradores. Mas eu acho que o que abriu o coração dos alemães para o Cacau entrar, além do sorriso simpático e o jeito simples que ele tem, foram os gols. Ele literalmente vestiu a camisa do Stuttgart e briga para ganhar com o time. E está fazendo o mesmo na seleção alemã. Aí, ninguém mais quer saber se ele nasceu no lado de cá ou de lá do Atlântico. Para os alemães, ele nasceu no campo do Stuttgart. E ainda por cima tem um nome fácil de pronunciar! (Agora mesmo, com o o primeiro jogo do Brasil em vias de começar, a repórter alemã corrigiu Oliver Khan, que havia pronunciado Grafite corretamente, para dizer que o certo é “Grafitê”; Robinho também virou “Rôbinhô”.)

Mas a seleção alemã está cheia de nomes nada germânicos, o que é mais que uma simples curiosidade e vai ficar para o próximo post porque agora, se me dão licença, vou ali pegar minha bandeirinha verde-amarela e torcer pelo meu time.

2 Comentários

Arquivado em Alemanha, Integração, Nomes