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Safari na selva da integração

O canal alemão ARD começou a transmitir um programa com o título Entweder Broder – Die Deutschland Safari que, na minha opinião, é a melhor resposta à atual discussão sobre a integração de emigrantes na Alemanha. A ideia é tão simples quanto genial: um judeu e um muçulmano, ambos naturalizados alemães, viajam pelo país em um carro  colorido, visitando lugares históricos, entrevistando gente de todos os tipos e discutindo, com muito humor, o que afinal de contas vem a ser essa tal de integração.

Para quem não sabe, nos últimos meses a questão da integração dos estrangeiros na sociedade alemã, principalmente dos muçulmanos, tornou-se centro de uma discussão um tanto absurda, impulsionada pelo lançamento do livro Deutschland schafft sich ab (A Alemanha está acabando consigo mesma), de Thilo Sarrazin. O economista acabou abandonando seu posto na diretoria do Bundesbank, por conta da polêmica surgida após suas declarações, consideradas racistas. O livro, porém, continua na lista dos mais vendidos e o tema não sai da pauta em todas as mídias.

O jornalista judeu Henrik M. Broder e o cientista político egípcio Hamed Abdel-Samad são o outro lado da moeda. No seu safári pela Alemanha, acompanhados da cachorrinha Wilma de Broder, eles conseguem tratar com um humor inteligente essa questão tão complexa e delicada. Há cenas imperdíveis, como a visita a uma palestra do partido de extrema direita NPD, quando os dois protagonistas se dirigem ao prédio do partido sob os gritos de “Fora nazistas!” dos manifestantes que protestam na rua. Ou quando Broder, depois de uma ação provocante no monumento ao Holocausto, em Berlim, pergunta a Hamed se existem também monumentos aos muçulmanos e este responde: “Não, nós não construímos monumentos, nós construímos palácios!”. E leva o amigo para visitar uma mesquita cuja construção custou mais de três milhões de euros.

O programa vem sendo transmitido desde 4 de novembro, serão ao todo cinco domingos, e eu estou colecionando algumas frases, como essas:

“Integração é quando você age como um cafajeste, mas ninguém te leva a mal.”

“A grande vantagem da modernidade é você poder se afastar das suas origens.”

“A chave para a integração é  o humor.”

Se alguém quiser assistir, já há trechos no youtube. Os primeiros 15 minutos estão aqui:

O programa de hoje terminou com os dois participando de uma festa de rua numa cidadezinha da Baviera, onde a mesquita e a igreja vivem abertas para quem quiser entrar e todo mundo se entende numa boa. Depois de muita comida, alguma cerveja, muita conversa com bávaros de bermuda de couro e até Hamed regendo a orquestra local, que tocava música folclórica, os dois saíram da barraca convencidos: “Isso foi melhor que Yom Kippur e Ramadan juntos!” Concordo.

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Cihad, a dentista e nossos nomes

Esse caso saiu ontem no jornal de Stuttgart e achei digno de ser incluído aqui, já que trata de uma questão que é um dos primeiros motivos de discussão quando culturas diferentes se encontram: os nomes.

Na cidade de Donaueschingen, o adolescente Cihad, de descendência turca, foi ao dentista. O médico que costumava atendê-lo não estava e sua ficha foi entregue à dentista de plantão. Esta, ao ler o nome na ficha, não gostou, foi à sala de espera e perguntou ao garoto se seu nome, conhecido também com a grafia Jihad, significava mesmo “guerra santa”. O menino disse que sim e a dentista, então, recusou-se a atendê-lo, alegando que considerava seu nome “uma declaração de guerra a todos que não são muçulmanos”. O adolescente, aos prantos, ligou para o pai, que foi buscar o filho indignado e tomar satisfações com a médica. Esta, por sua vez, ficou surpresa ao ouvir que o nome tem ainda outros significados, como “esforçar-se pelo bem”, pediu desculpas, tentou contornar a situação, mas já era tarde.  O caso chegou até a imprensa turca e está dando o que falar.

Acredito que nem seja preciso discutir com que direito uma dentista se recusa a tratar de alguém por causa de um nome — nenhum. Mas o que leva alguém a entrar em pânico à mera visão do nome Cihad? E como é possível que numa região onde 12,5% da população é de emigrantes, sendo que a grande maioria destes é de turcos, ainda existam pessoas totalmente desinformadas e alheias a fatos banais de uma cultura com a qual estão em contato diariamente? E que efeito um nome pode ter se usado dentro de outro contexto?

Sou capaz de apostar que a dentista do nosso caso, assim como a maioria dos habitantes na Alemanha (sejam eles de que nacionalidade forem), já comeu um dia um kebab e compra regularmente suas frutas em algum mercadinho turco a poucas quadras da sua casa. Essas lojinhas estão por todo lado, a ponto de o escritor João Ubaldo Ribeiro já ter declarado há anos, em seu livro Um Brasileiro em Berlim, que o döner é o verdadeiro prato típico alemão. Mas o contato com essa cultura de temperos diferentes tende a parar por aí, no estômago ou em algumas palavras trocadas no caixa, enquanto as compras são empacotadas. Raramente nos arriscamos a ir além e satisfazer a própria curiosidade.  Se o acaso não nos oferece um contato pessoal maior, seja através de amigos, relações profissionais mais intensas ou até laços familiares, ficamos à mercê do que a imprensa propaga ou do eterno “ouvi-dizer”. Foi nessa armadilha que a dentista caiu.

E se alguém um dia disse que os olhos são a porta de entrada da alma (eis um bom exemplo de “ouvi-dizer”, pois não faço a menor ideia de quem foi o autor desta), o nome é o nosso cartão de visita e, dependendo do contexto, podemos ser bem-vindos ou bater com o nariz na porta, sem nem saber a razão. Eu, por exemplo, sempre fui Bete, assim mesmo, com T-E. No Brasil, é essa a única dúvida que surge e a única explicação que tenho que dar. Tenho uma prima que tinha exatamente o mesmo nome e sobrenome que eu, até casarmos, com a diferença de que ela era a versão T-H. Mas ambas somos Betes, ou Beths, ou Bétis, enfim, tanto faz, todo mundo entende. No contexto brasileiro, eu não preciso me explicar.

A coisa mudou de figura quando trabalhei com americanos. Quando eu dizia meu nome,  a reação era um question mark estampado na cara da pessoa. Então eu explicava que era a forma curta de Elisabete e vinha um “Oh yes, Liz!”. Foi assim durante muito tempo. Para os americanos, eu era Liz, ou Elizabeth, como a atriz dos olhos azuis e a rainha. Para os alemães, o sobrenome do casamento facilitou e eu virei Frau Köninger. Mas entre amigos e familiares, eu era a Bêêête, o que sempre me dava a impressão de estar sendo chamada de beterraba (rote Bete), ou de ser simpatizante do partido comunista. Até que um amigo brincalhão teve a ideia de escrever meu nome de um jeito que os alemães conseguissem pronunciá-lo corretamente: Bätschi. Ficou horrível, é verdade, mas funcionou.

Esse problema acontece com todo mundo que não tenha a sorte de ter um nome de pronúncia, digamos, “universal”. Mesmo meu marido, que tem um nome muito fácil, no Brasil deixou de ser Alexander (pronunciado Aleksander na terra dele) e se tornou Alexandre. E até o diminutivo Alex sofreu mudanças, já que na Alemanha ele é Álex e no Brasil virou Aléx. Por isso mesmo, muitos brasileiros na Alemanha acabam optando por nomes que permitam a seus filhos circular livremente nas duas culturas, sem perguntas e encheção de saco: Stefan e Ana são os mais comuns. Paulo já complica, pois até a cidade teimam em chamar de Sao Paolo.

Há também casos em que o destino, ou seus pais, parece já colocar empecilhos para você se integrar em determinadas culturas. O garoto Cihad é um bom exemplo. E tem também nosso amigo Foti (uma abreviação do grego Fotios, que significa “luz”), que sonha em viajar ao Brasil um dia e a quem já recomendamos veementemente não usar o apelido quando se apresentar. A não ser, talvez, depois da terceira caipirinha, quando a rodada de piadas começar.

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