Arquivo da tag: lenço

Assoando o nariz

Taí uma coisa que pode parecer insignificante, mas faz uma diferença danada quando você sai da zona de conforto da sua própria cultura. Em que situações, onde e principalmente como você assoa o nariz?

Ninguém costuma pensar nessas coisas que se aprendem na infância, em casa, no berço, instintivamente. Ainda tenho lembrança da minha mãe com um lencinho bordado nas mãos, apertando minhas narinas delicadamente e dizendo para eu soprar. O bordardo eram uns bonequinhos com roupas típicas portuguesas e eu tentava mirar de um jeito que eles não ficassem sujos.

Esses lencinhos já dão uma ideia de como nós, brasileiros, lidamos com o assunto: com cuidado e discreção. É difícil ver alguém no Brasil assoando o nariz com alarde. Em público, as pessoas geralmente tentam fazê-lo sem chamar a atenção. Muitos nem assoam, apenas passam o lenço no nariz para evitar o pior.

É compreensível que isso seja diferente na Alemanha, já que aqui faz frio a maior parte do tempo e estar resfriado é quase rotina. Mas nariz escorrendo é tabu nesse país. Ninguém funga. Em compensação, mesmo depois de ter vivido mais de 20 anos nessa terra, eu ainda me espanto com assoadas assombrosas que me pegam de surpresa. Aqui ninguém assoa o nariz como quem não quer nada. Se você tira o lenço do bolso, é para assoar com convicção, não é segredo. E os lenços são lenços de verdade, um mero lencinho não daria conta do negócio. Aliás, nem é lenço, é Tempo, mas isso eu explico depois.

Só fui me dar conta dessa diferença depois de já estar casada um tempo com um alemão de nariz grande. Estávamos em casa, no Rio, e de repente ouviu-se um som que fez meu sobrinho pequeno olhar para mim e perguntar com os olhos espantados:

— O que foi isso?

— Seu tio assoando o nariz.

O sobrinho deu risada, enquanto meu pai só comentou: “Benza Deus!”

O outro lado da moeda é sobreviver na Alemanha sem lenços, nem lencinhos na bolsa. Toda mulher alemã que se preza tem um estoque de lenços de papel distribuído em todas as suas bolsas preferidas. Tempo é como o nosso band-aid, a marca tornou-se sinônimo de lenço de papel. Se você sair para jantar com o marido (ou namorado) numa noite fria, pode contar que depois da sopa vem a pergunta: Hast Du ein Tempo?

O último exemplar, encontrado no bolso de um casaco.

Eu nunca tenho porque sou da terra dos lencinhos e saio da mesa para assoar o nariz no banheiro, embora já tenha passado apertos por causa disso, interpretando almoços de negócios. Mas não adianta, minha bolsa de mulher é atípica na Alemanha. O que já daria outro tópico, mas por hoje, é só.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Comportamento, Cultura, Hábitos