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Falamos quase a mesma língua

Estou voltando de uma curta estadia em Lisboa, onde participei da Conferência da AILE-Tradulex, da qual ainda vou falar em outro tópico. Apesar do pouco tempo disponível para passeios e visitas, foi uma emoção especial estar de volta à cidade onde minha vida tomou um rumo inesperado. Andar pelas ruas, ver os grupos de estudantes nas praças, a turma da noite no Bairro Alto, subir ao Castelo de São Jorge para desfrutar da vista magnífica, sentar sob as árvores e ouvir a língua dos meus avós e da minha mãe, isso é muito mais que turismo para mim.

De volta a Stuttgart, uma colega portuguesa me pediu para ajudá-la com a tradução de um documento do tribunal em um processo de divórcio. O serviço era urgente e ela não teria tempo de terminar o trabalho já iniciado. Aceitei. Somos amigas, sempre nos ajudamos na hora do aperto e ela faria a revisão final para Portugal.

Mesmo com a experiência de tradutora juramentada, textos jurídicos sempre deixam a minha pulguinha atrás da orelha mais atenta. Lendo o que a colega já havia traduzido, dei de cara com uma expressão que fez a pulguinha dar um pulo: o “recheio da casa”. Fui ver o original e estava lá: Hausrat, ou seja, os móveis e todos os  tipos de utensílios domésticos. Fosse outra pessoa, eu teria dado uma risada e riscado aquilo, mas sabendo que a colega é competente, fui ver o que o venerável gúguel tinha a dizer e encontrei vários sites portugueses com essa expressão, inclusive sites de seguradoras. No Brasil, ao contrário, só recheios de bolos, pastéis e caneloni.

Confesso que gostei desse recheio da casa, uma imagem perfeita para definir a coisa com poucas palavras. Mas duvido que encontre isso um dia em um texto jurídico brasileiro. Detalhes como esse provam que as armadilhas estão onde menos esperamos se quisermos nos aventurar a traduzir para países que oficialmente falam a mesma língua. Muitas agências de tradução continuam acreditando que brasileiros podem fazer traduções para Portugal sem problemas e vice-versa, basta colocar lá um C no acto e está tudo bem. Não é que eu queira defender mercados, muito pelo contrário. Eu e a colega portuguesa, por exemplo, trabalhamos frequentemente juntas para cobrir demandas como esse caso urgente. Mas quem bate o martelo no final é a falante do país para onde vai a tradução. Nos damos muito bem com isso e acho importante ter essa consciência.

A discussão se falamos ou não a mesma língua no Brasil e em Portugal, sinceramente, pouco me interessa. Talvez porque meus ouvidos estejam mais acostumados aos discos da Amália Rodrigues tocando na infância, nunca tive problema algum para entender a pronúncia portuguesa e acho diferenças como essa do recheio mais pitorescas do que problemáticas (aliás, a definição de problema é sempre uma questão de ponto de vista). Mas traduzir é um ato que requer automaticamente uma atenção especial para esse tipo de coisas e é bom ligar o desconfiômetro antes de se arriscar em terreno desconhecido, ou ter um bom guia levando você pela mãozinha. Melhor ainda é ficar na sua praia, onde quem manda é você.

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Fala, boiola!

A origem deste artigo foi ter conhecido o Martin, um bailarino berlinense que samba como ninguém e que, embora não fale português com frequência, aprendeu algumas expressões com uma pronúncia perfeita. A palavra predileta do Martin é boiola. Diz ele que o som dessa palavra é cem por cento brasileiro e que uma palavra com tantas vogais seria impossível em alemão.

De fato,  quem já se arriscou a aprender alemão um dia sabe como nós, brasileiros, sofremos com a quantidade de consoantes reunidas em uma só palavra. Uma língua que chama sexo de Geschlecht mais parece uma brincadeira de mau gosto. E ainda estamos com sorte. Há quem diga que tcheco e húngaro são muito piores. Acredito, pois só alguns sobrenomes já são um espanto – tente dizer Strzybny.

Mas alguém já parou para pensar no desespero de um alemão cercado pela abundância de nossas vogais? A tortura começa já na primeira lição: Meu nome é Hans, sou alemão. Em vez de apenas duas vogais em deutsch, o pobre Hans agora tem que se degladiar com um ataque de vogais na proporsão inversa. Como se isso não bastasse, elas ainda vêm armadas de um ditongo nasal que, a partir de agora, vai persegui-lo pelo resto da vida, sempre que ele disser que é alemáo, que vai viajar para Sáo Paulo, ou quando pedir mais um páozinio no almoço feito pela máe da sua namorada.

Mas há os que acabam gostando justamente desse desperdício de vogais e saem por aí colecionando palavras favoritas. Lembro de um aluno que um dia descobriu a palavra auréola e passou a inventar maneiras de usá-la nas frases, o que produziu pérolas como “a auréola dos seus óculos é muito bonita”.

O marido de uma conhecida cismou que o filho deveria receber o nome “melódico” do avô de sua mulher: Coriolano. Foi um sufoco convencê-lo do contrário.

E tem o Martin, que não perde uma oportunidade de cumprimentar os outros com um sonoro “E aí, beleza?” ou com a sua preferida: Fala, boiola!

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